Será mesmo que Max Cavalera está "patinando no Roots"?
Por Mateus Ribeiro
Postado em 05 de dezembro de 2025
Se o Brasil está inserido no mapa do heavy metal, boa parte dessa conquista se deve ao Sepultura. Formado pelos irmãos Max (guitarra/vocal) e Iggor Cavalera (bateria) na primeira metade da década de 1980, o grupo saiu de Belo Horizonte para levar música pesada a palcos do mundo inteiro. O impacto cultural e musical da banda influenciou gerações e consolidou seu nome entre os maiores do gênero.
Uma parcela significativa desse sucesso passa pela parceria de Max com o guitarrista Andreas Kisser, que ingressou no quarteto em 1987. Juntos, os dois criaram e registraram composições que até hoje figuram entre as mais populares do repertório, como "Inner Self", "Beneath the Remains", "Arise", "Refuse/Resist", "Territory" e "Roots Bloody Roots".

Max e Andreas foram fundamentais para o desenvolvimento da identidade sonora do Sepultura. O thrash/death brutal dos primeiros anos passou por transformações e experimentações que culminaram na sonoridade groovada e tribal de "Roots" (1996), sexto disco de estúdio da formação. A obra expandiu limites, quebrou paradigmas e se tornou um marco na história do metal mundial.
Maior sucesso comercial do grupo, "Roots" também remete ao período mais turbulento da trajetória da banda. Foi durante a turnê de divulgação do álbum que Max deixou o projeto que ele próprio havia fundado, após divergências com os demais integrantes - incluindo seu irmão. A ruptura dividiu opiniões à época e até hoje inspira debates entre fãs e entrevistas concedidas por ambos os lados.
Andreas Kisser, que segue à frente do Sepultura, comentou a traumática separação durante recente participação no podcast 100segredo. Na avaliação do guitarrista, o frontman está preso ao passado.
"Você vê que o Max até hoje tá patinando no 'Roots', né? [risos]. Tá sempre falando a mesma coisa [...]. Parece que tá preso num vortex do tempo, sabe? Tentando… sei lá, é muito esquisito. Acho que falta um pouco de terapia também [risos]. Tem que cuidar da cabeça um pouco."
Pois bem. Após deixar o Sepultura, Max fundou o Soulfly. É verdade que os primeiros trabalhos do grupo remetem à estética experimental de "Roots", mas a discografia seguinte apresenta elementos de múltiplos estilos, ampliando o espectro musical sem se limitar ao metal.
A agressividade e o groove sempre marcaram presença no som do Soulfly; ainda assim, o trabalho do conjunto está longe de ser apenas uma continuação do que foi feito em "Roots". Ouvindo com atenção seus diversos álbuns, emergem influências de diferentes vertentes do metal, além de incursões por outros gêneros, como evidenciam as jams instrumentais presentes em todos os discos. Faixas como "I Believe", "Moses", "We Sold Our Souls to Metal", "Soulfly IV", "Ritual", "Spirit Animal", "Master of Savagery" e "Nihilist" demonstram que a trajetória de Max pós-Sepultura não se resume - nem de longe - a revisitar eternamente o passado. E, ainda que se resumisse, não haveria problema: cada artista é livre para criar (e falar) o que bem entender.
A história não para por aí. Em meados dos anos 2000, Max se reconectou com Iggor e formou o Cavalera Conspiracy. Os quatro discos do projeto são pesados, diretos e intensos - e definitivamente não soam como cópias do aclamado sexto álbum do Sepultura.
É fato que os irmãos Cavalera tocam faixas dos primeiros discos do Sepultura nas turnês e regravaram os dois primeiros álbuns do grupo. Mas há algo de errado nisso? Ao que tudo indica, não. Afinal, eles confeccionaram e gravaram as versões originais dessas obras.
Além do Soulfly e do Cavalera Conspiracy, Max integra o Killer Be Killed, que ainda conta com Troy Sanders (Mastodon) e Greg Puciato (ex-Dillinger Escape Plan). Transitante entre o metal alternativo e o hardcore, a proposta musical do supergrupo se parece com o som de "Roots" tanto quanto uma geladeira se assemelha ao kit de bateria usado por Lars Ulrich na turnê do "Black Album".
Por fim, o currículo de Max também inclui o Go Ahead and Die, cujas influências remetem aos primórdios do metal extremo. Recentemente, o músico ainda reativou o furioso Nailbomb.
Desde que deixou o Sepultura, Max mergulhou em uma série de empreendimentos artísticos. Ao longo de quase três décadas, foram mais de 20 discos, além de turnês e participações em inúmeros festivais. Parece bastante coisa para alguém que estaria "patinando" em um álbum lançado em 1996.
Fica, então, a pergunta: será que Max Cavalera realmente está preso ao "Roots"? Este que vos escreve acredita que não. E você, o que acha?
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