Será que todo fã é um idiota? Quando a crítica ignora quem sustenta a música
Por Mateus Ribeiro
Postado em 03 de janeiro de 2026
Dia desses, enquanto navegava pela internet, me deparei com uma frase atribuída ao crítico musical Regis Tadeu. A sentença em questão - que você provavelmente já ouviu, seja da boca dele ou de alguém que a reproduziu - é curta, direta e provocativa: "Todo fã é um idiota".

Antes de entrar propriamente no mérito dessa afirmação, é importante fazer algumas ressalvas. Ao propagar esse discurso, Regis exerce um direito legítimo - afinal, todos somos livres para expor nossas opiniões, desde que respeitados os limites impostos pela lei e pelo bom senso. Da mesma forma, este texto não tem como objetivo afrontar ou desmerecer o autor da frase, por quem tenho muito respeito, mas sim apresentar as razões pelas quais discordo dessa visão.
O que essa afirmação ignora, no entanto, é que o fã, via de regra, não se define pela irracionalidade, mas sim pela paixão. Paixões ocupam um espaço fundamental na vida de qualquer indivíduo, pois conferem sentido, constroem identidade e ajudam a organizar a forma como uma pessoa se relaciona com o mundo.
Esse envolvimento pode se manifestar de diferentes maneiras: na devoção a um artista, no vínculo com uma banda, na identificação com uma agremiação esportiva ou com determinada manifestação cultural. Em comum, todos esses exemplos compartilham algo essencial - a capacidade de gerar pertencimento, emoção e significado, elementos que dificilmente podem ser reduzidos a um rótulo pejorativo.
A paixão, contudo, não deve ser confundida com ausência de senso crítico. Sentir-se profundamente ligado a um artista ou banda não significa, necessariamente, incapacidade de análise ou julgamento. Pelo contrário: em muitos casos, quanto maior o envolvimento, maior também é o repertório, o conhecimento acumulado e a disposição para refletir de forma crítica sobre aquilo que se consome.
O fã que acompanha uma carreira de perto tende a conhecer contextos, processos criativos, mudanças de formação, acertos e tropeços. Esse olhar atento - muitas vezes construído ao longo de anos - dificilmente se resume a um entusiasmo acrítico ou infantilizado. Reduzir essa relação a um suposto "idiotismo" é ignorar a complexidade que existe no vínculo entre público e arte.
Além disso, a relação que muitas pessoas constroem com a música costuma se apoiar fortemente na memória afetiva. Canções, discos e artistas acabam associados a momentos específicos da vida, funcionando como gatilhos de lembranças, sentimentos e experiências pessoais.
Essas obras se transformam em trilhas sonoras de fases marcantes, encontros importantes ou até da lembrança de pessoas queridas que já não estão mais presentes. Ignorar esse componente é tratar o contato com a música como algo estritamente técnico, quando, na prática, o cenário envolve múltiplas camadas de significado e sensibilidade.
No fim das contas, é praticamente impossível dissociar a existência da música da presença de quem a consome - e, em grande medida, a sustenta. Essa relação é parte essencial do sentido que essa expressão artística assumiu ao longo dos anos.
Dito isso, é natural que cada pessoa enxergue a questão a partir de suas próprias referências e convicções. Da parte de quem escreve, a posição é clara: o fã está muito longe de ser um idiota, como demonstram os pontos apresentados ao longo deste texto. Discordâncias são legítimas e fazem parte de qualquer debate saudável.
Independentemente das diferenças de opinião, fica o desejo de um 2026 com mais diálogo, respeito e, acima de tudo, música. Até a próxima.
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