O desconhecido cantor que teria influenciado Elvis Presley, segundo John Lennon
Por Gustavo Maiato
Postado em 04 de janeiro de 2026
A história da música popular costuma ser contada como uma sequência de revoluções, mas John Lennon sempre preferiu enxergá-la como uma corrente contínua, em que cada geração se apoia diretamente na anterior. Para o ex-beatle, não existia genialidade surgindo do nada, apenas releituras, deslocamentos e novas combinações de ideias já existentes. E foi justamente esse raciocínio que o levou a uma afirmação que desmonta hierarquias tradicionais do rock.
Elvis Presley - Mais Novidades
A influência de Elvis Presley sobre os The Beatles nunca foi segredo. Lennon, Paul McCartney e companhia cresceram sob o impacto cultural do "Rei do Rock", em uma época em que era praticamente impossível escapar de sua presença. O próprio Lennon reconhecia que, sem Elvis, os Beatles simplesmente não existiriam. Mas ele fez questão de ir além dessa constatação óbvia.
Em entrevista registrada no livro All We Are Saying: The Last Major Interview With John Lennon and Yoko Ono (via American Songwriter), Lennon apresentou uma lógica ainda mais ampla. "Sem Elvis, não haveria Beatles. Sem Johnnie Ray, não haveria Elvis. Sem quem veio antes de Johnnie Ray, não haveria Johnnie Ray. Isso não tem fim. É atemporal", afirmou. Para ele, Ray - hoje pouco lembrado fora dos círculos especializados - foi uma peça essencial na formação do rock and roll moderno.
Elvis Presley e Johnnie Ray
Johnnie Ray foi um fenômeno no início dos anos 1950, conhecido por sua entrega emocional extrema no palco, interpretações dramáticas e uma intensidade vocal que chocava o público da época. Lennon enxergava ali um elo perdido entre o blues, o rhythm and blues e o rock que Elvis levaria ao mainstream. Não por acaso, Ray influenciou diretamente o estilo performático e emocional que Presley tornaria mundialmente famoso.
Essa visão se conecta com outra declaração contundente de Lennon. "Toda música é reaproveitamento", disse ele. "Existem poucas notas. São apenas variações sobre um tema." O ex-beatle chegou a usar um exemplo provocativo: tentar convencer jovens dos anos 1970 de que a música dos Bee Gees era, em essência, uma releitura dos Beatles. "Não há nada de errado com os Bee Gees. Eles fazem isso muito bem", completou.
Para Lennon, essa cadeia não parava em Ray ou Elvis. Antes deles, havia nomes como Robert Johnson e T-Bone Walker, que ajudaram a estabelecer a linguagem musical que seria reciclada, amplificada e transformada ao longo das décadas. O rock, nesse sentido, não seria uma ruptura, mas uma reorganização constante de influências.
Ao afirmar que "é atemporal", Lennon não diminuía a importância de nenhum desses artistas - pelo contrário. Ele sugeria que o verdadeiro valor da música está justamente nessa continuidade infinita. Sem Johnnie Ray, não haveria Elvis. Sem Elvis, não haveria Beatles. E sem os Beatles, grande parte da música pop e rock posterior simplesmente não existiria. No fim das contas, Lennon deixou no ar uma provocação que segue atual: existe mesmo algo completamente original na música, ou estamos todos apenas ouvindo novas versões da mesma história?
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