A invasão do Olimpo

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Por Leonardo Carvalho
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Era uma vez uma indústria que não era tão indústria assim. Na verdade tinha mais cara de manifestação artística. Com suas obras-primas eternas e seus respectivos autores semi-deuses. E também uma grande quantidade de aspirantes, pessoal que se identificava com o movimento, trabalhava forte e sonhava em um dia ocupar um lugar no Olimpo dos maiores e melhores. Não importa se tinham muito ou nenhum talento, a questão era que tinham muita força de vontade e eram autênticos. Isso bastava para ao menos receberem respeito.

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O problema era que mesmo sem querer o movimento acabava por doutrinar pessoas. Afinal, os mais talentosos e inteligentes da geração embarcavam e levavam juntos grupos de seguidores. E todos esses seguidores tinham condição de não apenas bancar essa forma de arte, mas sim de gerar tanto dinheiro quanto algumas indústrias existentes na época. E foi aí que entraram alguns grupos de pessoas espertas que tinham duas características claras: um pouco de dinheiro e muita vontade de transformar esse pouco em muito.

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Foi fácil convencer um grupo de aspirantes talentosos a trocar algumas poucas coisas, como alguns detalhes da arte que criavam, a forma como se vestiam e uma pequena parcela do que ganhariam no futuro por um patrocínio forte que os levariam das profundezas do movimento ao topo do Olimpo, ao lado de Zeus - ou de Zeppelin, tanto faz -.

A manobra deu tão certo e o grupo de pessoas espertas ganhou tanto dinheiro, que se multiplicaram e se organizaram, de forma que agora eram investidores que representavam grupos internacionais e se vestiam como simpáticas gravadoras. A regra de que a qualidade do trabalho separariam os mortais dos semi-deuses foi indo por água abaixo. Agora era o dinheiro. Quem conseguir chamar mais atenção e doutrinar mais pessoas ganharia. Os seguidores não estavam preparados e ficaram confusos. Frequentemente o Olimpo era invadido por meros mortais disfarçados.

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Dentro de alguns anos a transformação estava completa. Agora sim dava pra ganhar dinheiro. A manifestação artistica tomou corpo e alma de indústria. Tudo padronizado, seguindo tendências pra renovar o faturamento de tempo em tempo. O único elo com o ínicio eram as obras eternas, capazes de separar o joio do trigo e trazer os excepcionais de cada geração à realidade e mostrar como tudo se transformara em uma indústria sem escrúpulos. E esse grupo de resistência faz tanto barulho que causa estranheza nas corporações.

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Ora essa, o que aconteceu foi a mesma coisa que aconteceu a outras indústrias como o cinema. O grosso ficou na mão das corporações porque o que o povo quer é o simplista, o entretenimento rápido. Não há nada de mal nisso, é apenas uma forma de fuga temporária da realidade. Se querem fazer arte que façam entre vocês. O povo não precisa ser incluso.

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A verdade é que essa indústria demorou a sucumbir, talvez pelo nível da paixão de seus expoentes, talvez pela força das suas obras eternas ou da inteligência de seus criadores. Mas enfim, sucumbiu. E agora é como as outras, o dinheiro está na mão dos poderosos, e é pequena a parcela da população que apoiará a abordagem artística. Isso é triste, porque quem quiser viver disso terá que enfrentar desafios imensos e viver de forma modesta. Modesta até demais pelo tamanho do talento, inteligência e capacidade que terão que demonstrar.

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Mas ainda existe uma chance. Em breve as corporações perderão o controle da distribuição, e qualquer pessoa poderá faze-lo. E isso abre margem às melhores cabeças e às criações mais criativas, que chegarão às mãos de quem quer que queira apreciar. E talvez em um futuro próximo o Olimpo volte a ser povoado por novos semi-deuses, com obras monumentais, capazes de mudar a cabeça das pessoas e o mundo em que vivem.

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