Alien Lanes: a beleza imperfeita que só o lo-fi explica
Resenha - Alien Lanes - Guided By Voices
Por Heberton Barreira
Postado em 16 de maio de 2025
Trinta anos depois, um dos discos mais viscerais do Guided by Voices continua sendo um manifesto de amizade, ruído e resistência
Em abril de 2025, Alien Lanes completou 30 anos - e segue soando como um segredo compartilhado entre amigos íntimos, desses que se espalham por conversas atravessadas de bar. Lançado em 1995 pela Matador Records, o álbum foi gravado de forma quase artesanal, com microfones baratos da RadioShack, mixagens improvisadas e um custo estimado em míseros dez dólares (cerveja à parte). A estética lo-fi, longe de ser um mero acidente técnico, foi elevada aqui à condição de linguagem artística. No entanto, foi essa precariedade técnica que moldou sua grandeza: Alien Lanes não é sobre perfeição sonora, mas sobre urgência, imaginação e camaradagem.

Robert Pollard, o eterno professor de escola pública em Dayton, Ohio, então com 37 anos, não buscava criar uma obra definitiva — buscava sobreviver. E sobreviveu. Entre frustrações, tentativas de desistência e uma banda que só ensaiava nos fins de semana, Pollard encontrou uma linguagem própria: canções curtas, cruas e potentes, como explosões de pensamentos ainda em formação. Em Alien Lanes, são 28 faixas em 41 minutos, muitas delas com menos de dois minutos, que funcionam como fragmentos de memória, lampejos de raiva ou ironia, e pequenos rituais de escape. Não é um disco convencional, e nunca quis ser.
Ouvir a discografia da banda, com o sr. Robert "Prolific" Pollard, parece ser um trabalho quase impossível ou altamente exaustivo. Mas talvez Alien Lanes seja o ponto ideal de partida — uma espécie de núcleo onde tudo se condensa: caos, melodia, humor e desespero.
O que torna Alien Lanes tão fascinante, mesmo três décadas depois, é como ele equilibra o desespero e a afirmação. Há músicas que parecem sabotadas de propósito, como "Ex-Supermodel", que traz um ronco sobreposto ao que poderia ser uma balada brilhante, ou "Chicken Blows", com seu andamento distorcido com sons que parecem ser gargarejos de Pollard. Mas esses momentos apenas acentuam a força de faixas como "Watch Me Jumpstart" (um grito de guerra contra a apatia), "Game of Pricks" (um hino contra o cinismo e a frustração) e, sobretudo, "Motor Away", que carrega a urgência de escapar — mesmo sabendo que talvez não haja para onde ir. "Você não pode mentir para si mesmo dizendo que é a chance da sua vida", canta Pollard, para logo em seguida nos desafiar a agarrar essa chance mesmo assim.
Mais do que música, Alien Lanes constrói um espaço simbólico de pertencimento. Ele transita entre o ruído e a melodia com naturalidade, sem pedir desculpas por suas falhas. É nesse sentido que ele se aproxima de uma ideia de comunidade afetiva: cada canção é uma senha, um código, um aceno cúmplice. Em vez de oferecer promessas fáceis ou conforto idealizado, Alien Lanes apresenta a vida como ela é — instável, frágil, mas cheia de momentos de luz repentina.
Esse sentimento de comunidade e improviso encontra um espelho visual no documentário Watch Me Jumpstart (dirigido por Banks Tarver, 1996), que registra com sensibilidade e humor o momento em que a banda deixa de ser um mito local para ganhar o mundo indie. É um retrato da transição entre o anonimato e a celebração, entre a garagem e o palco do CBGB — e ajuda a entender por que Alien Lanes é mais do que um álbum: é uma ideia em movimento.
Não por acaso, o álbum se abre com "A Salty Salute", que mais parece um brinde entre irmãos de banda do que uma simples música. Ecoa como um chamado à ação: não apenas para ir ao bar, mas para reconstruir a ideia de "clube", de "rede social real". Não a virtual, mas a feita de corpos presentes, de amigos na sala, na varanda, no porão, na garagem.
"A Salty Salute" poderia muito bem ser o hino do Guided by Voices — e talvez seja mesmo. Porque traduz perfeitamente o espírito do disco: improvisado, ruidoso, imperfeito, mas absolutamente verdadeiro. É um convite à comunidade, à resistência e à criação coletiva. Uma sugestão para ligar para seus amigos. Dizer a eles que sua casa está de portas abertas — a garagem, o clube está aberto. Como o próprio Pollard, na abertura de alguns dos seus shows:
"Uma saudação salgada a vocês, meus irmãos e irmãs!"
Mas lembre-se: aprecie com moderação. E se for dirigir, por favor, não beba. Ouça Alien Lanes como a trilha certa para você e sua irmandade.
Atualmente, estou cursando Jornalismo e venho experimentando a escrita de artigos que misturam resenhas e breves biografias de bandas obscuras ou alternativas, tanto contemporâneas quanto do século passado. Apresento o programa Só Um Passeio, às terças, 11h da manhã, na rádio web Rádio 4 Tempos. Nas horas vagas, brinco com animação em stop-motion — especialmente com curtinhas musicais — e também toco bandolim. =^D
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Summer Breeze anuncia mais 33 atrações para a edição 2026
O disco que define o metal, na opinião de Ice-T
Angra - Rafael Bittencourt e Edu Falaschi selam a paz em encontro
O guitarrista brasileiro que recusou convite de Chris Cornell para integrar sua banda
Quando Ian Anderson citou Yngwie Malmsteen como exemplo de como não se deve ser na vida
O disco "odiado por 99,999% dos roquistas do metal" que Regis Tadeu adora
Por que Max Cavalera andar de limousine e Sepultura de van não incomodou Andreas Kisser
Edu Falaschi comenta reconciliação com Rafael Bittencourt; "Gratidão eterna"
A história de incesto entre mãe e filho que deu origem ao maior sucesso de banda grunge
O subgênero essencial do rock que Phil Collins rejeita: "nunca gostei dessa música"
Em parceria com plataforma, Skid Row inicia procura mundial por seu novo vocalista
O astro que James Hetfield responsabilizou pelo pior show da história do Metallica
A melhor música de rock e metal nacional para cada ano de 1958 a 2025
"Look Outside Your Window", álbum "perdido" do Slipknot, será lançado em abril


CPM 22: "Suor e Sacrifício", o álbum mais Hardcore da banda
O fim de uma era? Insanidade e fogo nos olhos no último disparo do Megadeth
Alter Bridge, um novo recomeço no novo álbum autointitulado
O disco que "furou a bolha" do heavy metal e vendeu dezenas de milhões de cópias


