Kamelot: Elementos sombrios marcam segundo da era Karevik
Resenha - Haven - Kamelot
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de maio de 2015
A palavra "Haven" vem do inglês e significa "Refúgio, abrigo". Nas palavras do guitarrista e compositor Thomas Youngblood: "Há uma nuvem cinzenta que se forma sobre o nosso mundo. Estamos aqui com um álbum obscuro e melancólico que dá ao ouvinte um abrigo num mundo que é uma loucura". O décimo primeiro álbum de estúdio do Kamelot chega três anos depois do último trabalho Silverthorn e traz uma proposta bem sombria, mas com esperança. Musicalmente, bebe da mesma fonte do seu antecessor e se mantem firme sem soar como algo que já foi feito. No segundo disco com o sueco Tommy Karevik nos vocais, a banda floridense trouxe como convidados o multi instrumentista Troy Donockley (Nightwish) e as cantoras Charlotte Wessels (Delain) e de novo Alissa White-Gluz (Arch Enemy).
O disco começa com a música Fallen Star que inicia com Karevik cantando suavemente como em uma balada. Em seguida aparecem as cordas até entrar a banda toda. A música tem muitos riffs e levadas marcadas pela guitarra pesada e o bumbo com pausas. Nessa canção a banda usou bastantes elementos percussivos, uma ideia que funcionou. A subsequente Insomnia é uma das melhores do disco e já virou até clipe com direito a um cenário futurista no estilo Matrix com espécies de fetos em criogenia ou algo do tipo. Vale ressaltar o teclado digital de Oliver Palotai. É uma música que vai funcionar bem ao vivo e é a que mais conseguiu captar a essência original de Silverthorn. O refrão é ótimo, com uma melodia acertada e que fica na cabeça.
A capa do disco traz uma figura feminina com uma rosa negra no cabelo. Ao redor espalham-se elementos cinza e preto metálicos. O ilustrador Stefan Heilemann (Epica, Mayan, Van Canto) captou bem a essência do disco, trazendo uma imagem dark e bonita. A próxima é Citzen Zero que junto com a anterior são as duas melhores do disco. A canção começa com um soturno timbre do teclado de Palotai. Finalmente vemos um riff de guitarra pesado onde o instrumento soe como protagonista, bem escola Black Sabbath. Citzen Zero é uma música que promete ser um dos pontos altos do show. Tommy é tão dramático quanto seu antecessor Roy Khan, sempre botando uma carga emocional muito grande e quase declamando as letras.
Uma característica interessante do álbum é a variedade de timbres de sintetizador usados por Palotai. Os solos e passagens sempre contribuem para criar um ambiente futurista e caótico nas músicas. A bateria de Casey Grillo vem com elementos tribais usando bastante o surdo em algumas músicas e acompanhando a guitarra nos grooves. Veil of Elysium é outra que concorre para ser uma das melhores do disco. A música tem aquela pegada power rápida bem ao estilo de clássicos como Forever. A bateria forte e o teclado fazendo uma melodia bonita formam uma introdução marcante. Depois, a música acalma e a voz de Karevik soa bem limpa. Esse artifício de alternar momentos rápidos e pesados com passagens calmas e suaves é muito interessante porque faz com que a interpretação vocal seja soberana durante os versos e não entre em conflito com a massa instrumental.
Under grey skies é a primeira balada de Haven e traz Troy Donockley e suas conhecidas flautas na introdução. Foi um acerto trazer o músico e a melodia ficou suave e bonita tocada por ele. A guitarra é acústica fazendo com que o baixo de Sean Tibbets apareça mais. De maneira geral ele não precisou se esforçar tanto no disco. É nessa música que Charlotte mais aparece, com seu timbre suave fazendo o papel que era de Elize Ryd (Amaranthe) no disco anterior. O contraste da voz dela com a de Karevik ficou muito bom. O refrão tem uma carga de esperança no meio dos conflitos obscuros propostos pelas outras músicas. No final a música cresce com um coro cantando a melodia do refrão liberando os dois vocalistas para brincar com os versos, fazendo um efeito bonito. Troy volta no final para finalizar a bela balada.
My Therapy começa com uma caixinha de música macabra que em seguida se transforma em guitarra. Não é uma das mais inspiradas do álbum e traz elementos muito usados até aqui como os grooves de guitarra e bumbo. Ecclesia vem com um teclado e um coro ao fundo e surge uma introdução que lembra muito o Within Temptation da época do Mother Earth. Também pouco inspirada, a música não é das que ficam na cabeça. Em seguida, Beautiful Apocalipse inicia com um violino sinistro e a banda mais uma vez aposta no peso. Sempre que Thomas Youngblood aparece com riffs pesados a música ganha alma e energia. A música não tem muita variação entre o verso e o refrão, mas chega a empolgar.
Liar Liar bota o álbum de volta nos trilhos. A música tem uma passagem interessante no meio onde todos os instrumentos cessam e apenas a voz e uma base de orquestra continuam. O refrão brinca com a ideia do "mirror mirror on the wall", porém substituindo a palavra "mirror" por "liar". A canção conta também com um solo inspirado de sintetizador e com os vocais de Alissa e Charlotte no fim. Here’s to the fall é mais uma balada do disco. A voz gravíssima de Karevik no início logo é substituída por um tom mais agudo. A música parece ter sido feita para mostrar a versatilidade de sua voz.
Revolution entra com uma bateria e um riff de guitarra bem pesado. Nessa música vemos Alissa nos guturais, adicionando mais peso ainda. A alternância peso x suavidade e velocidade x cadência é visível mais uma vez. A última é Haven, uma música que pode servir de introdução para os shows. Trata-se de um instrumental com piano e violinos que fecha o disco de maneira suave.
Haven dá continuidade à era de Karevik como vocalista e mostra um Kamelot pouco ousado, mas inspirado. A fonte criativa não esgotou, porém é preciso se reinventar para o próximo disco para não cair na mesmice. No geral o saldo é positivo e a banda consegue defender uma proposta melancólica e bonita com o estilo Kamelot de composição.
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