Pink Floyd: O álbum que revolucionou a música ocidental

Resenha - Dark Side Of The Moon - Pink Floyd

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Por Andreyson Jambersi, Fonte: Regencia Coletiva
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"The Dark Side of the Moon" é o maior sucesso comercial do Pink Floyd, mas, assim como disse em "The Divison Bell", este não é meu álbum favorito (título esse que divido entre o "Meddle", "Wish You Were Here" e a era pré-1970), portanto, a falta de críticas negativas ao longo do álbum não se dá devido à favoritismos irracionais, e sim devido a qualidade incontestável deste clássico absoluto.

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Gravado entre Junho de 1972 e Janeiro de 1973, no Abbey Road Studios, em Londres, e lançado em 1º de Março de 1973 (nos EUA), "The Dark Side of the Moon" se tornou um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, com mais de 45 milhões de cópias vendidas e permanecendo 741 semanas consecutivas no Top 200 da Billboard, voltando a aparecer na lista posteriormente e, totalizando até agora (Agosto de 2014), 862 semanas, sendo o álbum que mais figurou no Top 200 na história da música, até hoje. Destas, 769 semanas foram até 2008, onde, juntando com os números das paradas do Top Pop Catalog Albums, obteve-se um total de 1630 semanas, aproximadamente 31 anos.

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Não é muito afirmar que tDSotM (abreviação para "The Dark Side of the Moon", que vou utilizar ao longo do texto) revolucionou a música ocidental em termos de musicalidade, temática e produção. O álbum é uma amostra de superprodução fonográfica, porém sem a mecanização e a falta de emoção dos dias de hoje. É um exemplo, talvez o melhor deles em meio a música pop ocidental, de que se pode emocionar sem falar diretamente de amor ou soar forçado.

O álbum aborda temas como conflito, ganância, cotidiano, mortalidade e insanidade, de forma muitas vezes bastante direta e empática. O conceito do álbum é tão forte que ultrapassa gerações. Este que vos escreve ousaria dizer que o álbum será um sucesso ainda daqui há 200 anos, se a humanidade não obtiver sucesso em se destruir até lá.

A próxima seção explica brevemente um pouco da história do grupo e o fator motivacional para a existência do álbum em questão.

1. CONTEXTO OU O PINK FLOYD PRÉ-DARK SIDE OF THE MOON

O Pink Floyd lançou seu primeiro álbum, "The Piper At The Gates Of Dawn", ainda em 1967, sob o comando da mente brilhante de Syd Barrett, que deixou o grupo (ou que foi deixado pelo grupo) em 1968, após pouco contribuir em "Saucerful Of Secrets".

Entre 1968 e 1971 o Pink Floyd não obteve suficiente sucesso comercial, ao menos não fora da Europa, mesmo com o lançamento de discos aclamados pelos fãs, como "Atom Heart Mother" e "Meddle". Foi uma época de experiências musicais, positivas ou negativas (o álbum "Ummagumma" descreve bem isso), sendo considerada uma época de transição, com a banda atirando para diversos lados, sem deixar de fazer um trabalho competente na maioria dos casos. Porém, foi em "Meddle", para muitos, que o Pink Floyd finalmente encontrou sua sonoridade, com a faixa "Echoes", que em seus mais de 20 minutos, dizia muito do que o Pink Floyd viria a fazer nos álbuns seguintes. A falta de sucesso do grupo fora da Europa foi um fator motivacional para tDSotM, como será explicitado quando eu tratar especificamente da música "Money".

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Em 1972 lançaram "Obscured By Clouds", de certa forma esquecido por muitos devido ao sucesso do disco seguinte. "Obscured By Clouds" continha "Chilhood's End", que foi a última faixa com letras de David Gilmour e composta inteira por ele até o álbum "A Momentary Lapse Of The Reason", 15 anos depois e já sem participação de Roger Waters. Tanto musicalmente quanto na temática "Chilhood's End" lembraria "Time", aclamada faixa de tDSotM.

Visando atingir diretamente o mercado fonográfico americano, a banda se concentrou em obter um sucesso comercial absoluto. O objetivo com esse disco foi justamente este: sucesso e dinheiro. Para isso, a banda não apelou para "singles" e mais "singles", porém deixou de lado a composições de canções de mais de 20 minutos... Para fazer um punhado de canções que, pode-se dizer, compunham uma só peça de 42 minutos.

A peça tratava de problemas, como citado, porém era musicalmente otimista, ao contrário de outros notáveis trabalhos de outras bandas da mesma época, como "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", de David Bowie.

2. O CONCEITO

Como citado, o álbum trata temas como conflito, ganância, cotidiano, mortalidade e insanidade. O conceito, segundo Nick Mason relata em seu livro "Inside Out - A Personal History of Pink Floyd" foi sugerido durante um jantar em sua casa, onde Roger Waters estava presente.

Antes deste jantar, Waters já tinha algumas músicas prontas. "Time", por exemplo, já tinha uma estrofe e um refrão, porém ainda não tinha letra. Ele já tinha também umriff no tempo 7/8, que mais tarde se tornaria "Money", em seu violão. Durante o jantar, tendo em vista definir um conceito para o disco, temas como stress emergiu como uma preocupação comum. Então, Nick Mason e Roger Waters listaram uma lista das dificuldades e pressões intrínsecas à vida moderna. Com os resultados em mãos, Waters desenvolveu os conceitos e esboços de letras e músicas. Esta foi a primeira vez em que Waters escreveu todas as letras para um álbum do Pink Floyd.

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A partir dos esboços iniciais de Waters, a banda ensaiou e lapidou o que viriam ser as canções que compunham o disco, a priori em ensaios e, posteriormente, ao longo da turnê de 1972. Ainda segundo Mason, algumas das letras não foram modificadas posteriormente. As jams (improvisos sem necessariamente um objetivo) originais que deram origem ao tDSotM ocorreram, segundo David Gilmour, em 1972 em Bermondsey, um distrito ao sul de Londres, em um galpão dos Rolling Stones.

Vale citar que, apesar das letras do álbum serem consideradas excelentes, sendo exaustivamente analisadas e aclamadas por ouvintes e críticos, Roger Waters posteriormente consideraria as mesmas "frutos da juvenília", porém ainda se orgulhando de tê-las escritos tão jovem. Foi essa também a primeira vez em que a banda considerou a ideia de imprimir as letras das músicas no encarte do álbum.

3. TURNÊ DE 1972 E AS DIFERENTES VERSÕES DAS MÚSICAS

Em 1972 o Pink Floyd tocou o álbum "The Dark Side of The Moon" na íntegra em diversos concertos. A peça, originalmente foi referida como "Eclipse", então, posteriormente, "Dark Side of the Moon - A Piece for Assorted Lunatics", nome com o qual foi apresentada ao público pela primeira vez, segundo Mason, em 17 Fevereiro de 1972 no London's Rainbow Theatre. O título foi alterado na primeira parte da turnê norte-americana (durante Abril e Maio) para "Eclipse (A Piece for Assorted Lunatics)", posteriormente, em Setembro, voltou ao título "Dark Side of the Moon - A Piece for Assorted Lunatics". Vale salientar que os quatro shows no London's Rainbow Theatre tiveram os ingressos esgotados.

Em realidade, a primeira vez que eles tocaram "The Dark Side Of The Moon" foi em 20 de Janeiro de 1972, no The Dome, Brighton. Porém eles precisaram parar o show nos efeitos de abertura de "Money" devido a problemas técnicos. Eles tocariam todas, exceto "Eclipse" na noite seguinte - "Eclipse" não havia sido escrita ainda. Em seu lugar eles tocaram um instrumental jazzístico. Roger Waters não sentia que esse fosse um final dramático o suficiente, e posteriormente escreveu "Eclipse" para o show em Bristol, no começo de Fevereiro (dia 5, aparentemente). O show de Bristol foi o primeiro onde todo o álbum foi tocado. Essa informação consta em diversas fanpagesde longa data sobre a banda, e vai contra a informação de Nick Mason, de que o primeiro show ocorreu no London's Rainbow Theatre.

Desde a primeira apresentação, o álbum foi executado praticamente como seria lançado 14 meses depois. Os próximos parágrafos visam descrever as diferenças mais notáveis entre como o álbum foi apresentado em 1972 e como foi lançado em 1973.

"On The Run" se chamava "The Travel Sequence", e não era nem um pouco parecida com a faixa apresentada no álbum, cheia de efeitos eletrônicos, overdubs(sobreposições) e loops. Inicialmente "The Travel Sequence" era apenas uma jam session instrumental. Uma versão de estúdio e uma ao vivo de "The Travel Sequence" foi lançada oficialmente no "Dark Side of the Moon - Immersion Box Set".

"Time" era muito próxima à versão do álbum, porém era executada em geral de forma mais lenta, e Wright cantava os versos principais junto com Gilmour. Havia uma pequena variação na letra em um dos refrãos, onde ao invés de "Tired of lying in the sunshine..." era cantado "Lying supine in the sunshine...". A letra foi cantada assim diversas vezes mesmo após o lançamento do álbum.

"Religion", ou posteriormente, "The Mortality Sequence" era o título de "The Great Gig in the Sky". A canção ainda não continha o improviso vocal que mais tarde a imortalizou. A música consistia em uma seção de órgão e várias "rezas" tocadas em playback. A faixa também foi lançada no "Dark Side of the Moon - Immersion Box Set".

"Money" tinha uma introdução mais longa no baixo e, assim como "Us And Them" não continha os solos de saxofone.

Algumas outras variações eram notadas em outras faixas, como a ausência da guitarra slide em "Breathe", diferenças nas formas de cantar canções em geral e outras coisas menos significantes.

4. O ÁLBUM "THE DARK SIDE OF THE MOON"

tDSotM teve mais de um ano para amadurecer, entre os ensaios em estúdio e as apresentações na estrada. Além disso, "Obscured By Clouds" foi gravado nesse período. Em Dark Side foi a primeira vez que o Pink Floyd trabalhou com conceitos pré-estabelecidos por Waters, já com faixas mais ou menos convergentes para um dado ponto. O disco inteiro já estava pré-concebido antes mesmo de os ensaios começarem. Mas vale dizer que neste disco ainda houve contribuições, principalmente na parte musical, por parte dos outros integrantes. Algo que mais tarde ocorreu de forma escassa em "The Wall" e menos ainda em "The Final Cut".

Pode-se dizer que este foi o álbum mais profissional gravado pela banda até então.

No início das gravações, a banda contratou Alan Parsons como engenheiro residente. Alan já havia trabalhado com a banda, sendo assistente de operação de fita em "Atom Heart Mother", e posteriormente havia sido promovido a engenheiro. O trabalho de Alan Parsons, assim como de toda equipe técnica, em conjunto com a banda, foi certamente um grande diferencial no resultado final de "The Dark Side of the Moon".

Já na versão definitiva, cada lado do LP era uma peça única, contínua, de música, sendo que o Lado A vai de "Speak To Me" até "The Great Gig in the Sky" e o Lado B de "Money" até "Eclipse". Cada faixa trata de algum problema ou estágio que cerca a existência humana. Isso se perdeu um pouco nas versões em CD, onde não haviam "lados". O álbum, neste formato, acabou por se tornar uma única peça musical.

As próximas seções tratam de uma análise completamente pessoal das músicas contidas no álbum. Assim como em meu artigo sobre o "The Division Bell", vou apresentar a arte contida na versão CD do disco. Claro que a arte pode variar de versão para versão, assim como a separação das faixas que compõe o álbum em seus diferentes formatos que também varia principalmente devido ao fato da separação dos direitos autorais de cada (que foi alterado com o passar dos anos).

5. AS FAIXAS

Como disse anteriormente, nesta seção discutirei alguns aspectos a respeito das faixas contidas no álbum. Peço a você caro leitor, que não limite sua interpretação das faixas àquelas dadas por mim. As interpretações de um trabalho de arte são efêmeras, são atualizadas com o tempo, conforme suas próprias experiências de vida, suas noções de aspectos históricos da época de lançamento e até mesmo seus amores e desamores acontecem em sua vida. O que virá a seguir é a minha visão, completamente pessoal (nunca é demais repetir isto!), com base em minhas próprias experiências. É completamente possível que você tenha uma interpretação diferente e até mesmo mais correta que a minha.

5.01. "SPEAK TO ME"

"Speak to Me" é um prelúdio para o álbum. As batidas de coração ouvidas na canção são, na realidade, geradas por instrumentos musicais (um bumbo almofadado, pelo que consta) já que a banda concordou que batidas de coração reais soavam muito estressantes. O ritmo das batidas está muito abaixo do tempo real de batimentos cardíacos. Os outros efeitos são aglomerados de trechos das canções seguintes, dando realmente um sentido de prelúdio e abertura para o que viria depois, algo mais ou menos parecido com o que David Gilmour usaria novamente em seu disco solo "On an Island" 33 anos depois. Outros sons como um acorde longo de piano é ouvido ao fundo.

A faixa funciona bem como abertura para o álbum e, acredito, poucas experiências se igualam ao ato de colocar o tDSotM para tocar num bom sistema estéreo ligado à bons fones de ouvido, posicionar-se num quarto escuro, deitado ou sentado, não importa, e esquecer todas as preocupações por alguns milissegundos de sua vida, enquanto ouve todos os efeitos, as batidas cardíacas, o crescente som que traria à tona "Breathe", a canção seguinte do álbum. Se após a experiência relatada o ouvinte ainda quiser, de alguma maneira, parar o disco, sugiro que procure ajuda médica, pois o caso há de ser grave.

A faixa é creditada ao baterista Nick Mason.

5.02. "BREATHE"

A faixa, que surgiu de uma jam session onde a banda tocava majoritariamente dois acordes, é creditada à David Gilmour e Rick Wright (música), com as letras sendo de Roger Waters. Posteriormente um refrão foi criado, com mais variações na melodia, incluindo acordes jazzísticos incorporados por Richard Wright. A canção era interrompida por duas outras músicas, "Time" e "On The Run", continuando após estas.

A introdução de "Breathe" foi criada com uma lap steel guitar (guitarra havaiana), com várias sobreposições do som desta. Grande parte dos nuances e energia da faixa se deve ao órgão hammond de Wright.

A letra, em minha opinião, passa a mensagem para aproveitar a vida, porém, para fazer isso com restrições. Após o nascimento as pessoas crescem e passam a viver suas próprias vidas, para mim, o primeiro verso fala sobre isso, como se fossem os pais/sociedade/vida dizendo "não tenha medo, vá, mas não nos deixe, olhe em volta e escolha seu próprio chão". A música dá a entender que você tem que ir, viver e trabalhar. Mas se você tentar chegar alto demais, se você tentar arriscar demais, pode ser que sua vida acabe mais cedo. Talvez esse fim da vida não seja literal.

Uma análise menos otimista pode dizer que o fato de você respirar o ar que respira tem um preço, cobrado ao longo de sua existência por todas as pressões que lhe são impostas pela vida moderna em si.

5.03. "ON THE RUN"

"On The Run" se trata de um dos primeiros usos notáveis de sampling. O objetivo da faixa é criar tensão e para isso o grupo utilizou diversos sons de fundo como batidas de coração, passos correndo, risadas, sirenes de uma ambulância, automóveis e aviões. Enquanto o ouvinte é induzido a prestar atenção nestes sons, um loop de algumas notas de um sintetizador é executado de forma acelerada. Para gerar toda esta atmosfera a banda utilizou alguns sons prontos do Abbey Road Studios e outros efeitos como uma guitarra tocada ao contrário. A faixa soa bastante futurista.

A música tem por objetivo, aparentemente, discorrer mesmo sem letras sobre o medo de viagens (Wright tinha medo de morrer em viagem, e Nick Mason relata em seu livro que a banda passou por muitos sustos com voos).

5.04. "TIME"

Em "Time", Alan Parsons sugeriu o uso de relógios, gravados previamente para um teste estéreo. Os relógios foram gravados separadamente em uma loja de antiguidades, e para o uso no álbum, uma junção dos sons foi feita via colagem de fitas, algo que deve ter dado mais trabalho do que se possa imaginar nos dias de hoje, onde colagens desse tipo podem ser feitas de forma diretamente digitais. O som de tic-tac subsequente a isso é feito no contrabaixo por Roger Waters (não vou discutir aqui quem gravou o que, em realidade, visto que tanto Gilmour quanto Waters já afirmaram que, em estúdio, muitas vezes a gravação do baixo ficava aos encargos do guitarrista David Gilmour).

A introdução percussiva foi feita utilizando roto-tons. Os roto-tons consistiam de peles de bateria esticadas sobre uma armação fixada em uma rosca de eixo. Girando a rosca, a pele pode ser afinada, assim como um tímpano, para que uma série de tons afinados pudessem ser utilizados. A guitarra na introdução toca algumas notas que permeiam toda a música, de forma discreta e utilizando harmônicos naturais para criar uma ambiência um pouco sombria.

Gilmour canta os versos de forma agressiva, enquanto nos refrãos Rick Wright canta de forma mais calma, esse tipo de nuance viria a figurar também em outras músicas do álbum. O solo de Gilmour nesta faixa é um de seus melhores, em minha opinião, sendo bastante voltado ao blues, porém ao mesmo tempo com um som bem cristalino e agressivo em algumas partes. O solo começa agressivo, com duas guitarras em simultâneo e um delay rotativo que parecem engolir o ouvinte. O timbre de guitarra de David é imortalizado nesta faixa.

Segundo Waters, essa música foi inspirada a partir de algo que sua mãe lhe dizia quando mais jovem, de que ele deveria se preparar para a vida adulta, algo que ele guardou com ele por anos até se dar conta que na realidade, a vida em si já havia começado há tempos. O trecho seguinte parece afirmar isso: "And then one day you find ten years have got behind you. No one told you when to run, you missed the starting gun" (Até que um dia você descobre que dez anos ficaram para trás. Ninguém te disse quando começar a correr, você perdeu o tiro de largada).

A letra fala, ao meu ver, sobre a passagem do tempo ao longo de uma vida e a percepção da pessoa sobre isso. Um detalhe interessante é o trecho "The sun is the same in a relative way but you're older" (De uma maneira relativa o sol é o mesmo, mas você está mais velho), onde Waters dá a entender que mesmo o Sol está envelhecendo, mesmo que isso seja meio irrelevante frente ao envelhecimento de uma pessoa.

Em realidade toda a letra de "Time" é um destaque a parte no álbum.

5.05. "BREATHE REPRISE"

A faixa é uma reprise de "Breathe", porém com letras diferentes. Ligando a faixa "Time" à próxima do álbum, "The Great Gig in the Sky".

A letra parece tratar sobre a necessidade de conforto que sentimos, seja ele físico ou espiritual, vide os trechos: "When I come home cold and tired, it's good to warm my bones beside the fire." (Quando eu chego em casa com frio e cansado, é bom aquecer meus ossos ao lado do fogo) e "Far away across the field the tolling of the iron bell calls the faithful to their knees to hear the softly spoken magic spells" (Bem longe no campo o toque do sino de ferro deixa os fiéis de joelhos para ouvir sussurrados encantos mágicos).

Este trecho final da letra dá a entender que o tema é religião, e a nota termina com um acorde de Si menor, exatamente o acorde de início de "The Great Gig in the Sky", que tem por objetivo tratar deste assunto, mesmo sendo uma faixa instrumental.

5.06. "THE GREAT GIG IN THE SKY"

"The Great Gig in the Sky" é conectada em "Breathe Reprise" a partir do últi-mo acorde desta, soando como uma continuação ao que estava sendo dito na faixa anterior. A faixa trata sobre a religiosidade, mortalidade e o medo da mor-te.

A faixa era uma peça de Rick e a banda decidiu utilizar um solo de vocal feminino. Houve uma série de sugestões sobre quem deveria cantar sobre a faixa, Alan Parsons trabalhava com Clare Torry e sugeriu que a banda tentasse com ela. Clare estava começando uma carreira solo e acabou fazendo a faixa. A ideia de utilizar uma cantora diferente das backing vocals negras utilizadas ao longo do disco era a de obter um som mais europeu nesta faixa.

Clare foi orientada por Alan, David e Rick sobre como cantar na faixa. Para isso, disseram algo como "Pense na morte, no horror e grave". Na primeira tentativa, aparentemente Clare tentou utilizar palavras, algo como "Oh oh ohh baby baby baby" (não, não era Led Zeppelin!), mas foi interrompida, pois não era bem isso o que a banda queria. Então Clare teve a ideia de utilizar a voz como se fosse um instrumento musical. Após a gravação Clare pediu desculpas por sua performance, pois a considerou exagerada demais. Porém a banda ficou maravilhada (isso é o que Nick Mason diz em seu livro! Porém Clare diz em entrevistas que pediu desculpas justamente pela falta de reação da banda quando a viu, julgando que sua performance deveria ter sido ruim).

Segundo David Gilmour, Clare fez a performance utilizando cerca de seis takes, sendo que o que é ouvido no disco é, em realidade, a junção das melhores partes destes takes.

A introdução da música foi feita utilizando um piano e uma guitarra havaiana.

A faixa encerra o Lado A do disco. As versões remasterizadas da EMI possuem uma ponte adicionada entre "The Great Gig In The Sky" e "Money", que falta em todas as outras versões. Sendo inicialmente lançado em vinil, sempre havia um intervalo entre duas músicas causado devido o fim de um lado. Esse intervalo permaneceu nas versões em k-7 e nas versões originais em CD. Quando James Guthrie, Doug Sax e Alan Parsons foram remasterizar o álbum, eles adicionaram um novo cross-fade para fazer uma transição mais suave.

Algumas pessoas afirmam não ouvir o cross-fade, mas se você ouvir atentamente, você deve notar que no final de "The Great Gig in the Sky" não há um inter-valo em silêncio antes do primeiro efeito de moeda em "Money" ser ouvido. O cross-fade é sutil, mas está lá.

5.07. "MONEY"

"Money" foi concebida para ser um sucesso. OK, era uma música que falava sobre fama, dinheiro, muito dinheiro, sucesso e ganância. Quando o disco estava pronto, para atingir o comércio nos EUA, esta faixa foi escolhida como single... Mas eu disse lá atrás que não haviam singles... Então... Como assim?!

Bhaskar Menon, um executivo da indústria musical, disse que assumiria a responsabilidade por reverter a má aceitação do Pink Floyd nos EUA. Para isso, eles realmente precisavam providenciar singles.

A faixa que mais se adequava a um single acabou por ser "Money". Então, ao contrário do que acontecia geralmente, "Money" não foi concebida com o propósito de ser um single, não era este o objetivo, mas ela acabou sendo utilizada para isso assim mesmo.

O que melhor para fazer sucesso do que uma música que fale de dinheiro, fama e sucesso?

Curiosamente, "Money" tem mudanças de tempo, algo nada comercial. A música está, na maior parte, em 7/4, porém alterna para o tradicional e bem aceito 4/4 no solo de guitarra. A faixa contém um solo de saxofone, executado por Dick Parry, que acompanharia a banda futuramente e reapareceria em diversas outras gravações. Dick Parry era um amigo de infância de David Gilmour.

A faixa contém também um belíssimo solo de guitarra, bastante longo, que pode ser dividido em três partes principais, sendo a primeira e a terceira bastante agitadas, bem "rock'n roll".

"Money" acabou atingindo seu objetivo, e tornou o Pink Floyd um sucesso comercial nos EUA. Com essa música a banda finalmente atingiu tudo aquilo o que ela trata.

5.08. "US AND THEM"

"Us And Them" surgiu de uma faixa denominada "The Violent Sequence", que era algo em que Wright trabalhava para ser trilha sonora de um filme chamado "Zabriskie Point", dirigido por Antonioni. A faixa surgiu de um toque triste de piano, com fortes influências do jazz, enquanto Wright assistia uma sequência violenta do filme, quando a banda estava desiludida com a má aceitação de suas contribuições por parte do diretor.

Michael Antonioni havia convidado a banda para fazer a trilha para seu filme "Zabriskie Point". A banda foi por duas semanas para Roma, dormiu tarde, tomou cerveja, vinho e foi para o estúdio por volta das 9 da noite e trabalhava até 7 ou 8 da manhã. Sobre a faixa que se tornaria "Us And Them" o diretor comentou: "Isso é muito bonito, mas isso é muito triste".

Depois de duas semanas disso, Antonioni pediu a suspensão das sessões, e pegou três (das relatadas oito) faixas completamente terminadas. Segundo Waters, Antonioni só gostava de verdade de "Careful With That Axe, Eugene".

"Us And Them" é uma faixa que contém muitos espaços vagos, muitos vazios e silêncio. Algo interessante, pois esses vazios são o que fazem ela ser tão dinâmica.

A letra desta faixa é, em minha opinião, complicada. Parece tratar de guerra e violência, mas não só disso. A música trata também de discussões e desentendimentos, resumindo: trata de conflitos.

O solo de saxofone, assim como em "Money" foi feito por Dick Parry.

A voz de Gilmour nos versos fazem com que essa faixa seja bastante delicada, porém quando entra o refrão, a faixa se torna explosiva, é possível ouvir as vozes de Wright e Waters harmonizam e criam um clima violento.

5.09. "ANY COLOUR YOU LIKE"

"Any Colour" funciona como uma pausa no álbum. É uma faixa completamente instrumental onde se destacam os sons do sintetizador e das guitarras solos, como se estivessem conversando. Durante o solo, Gilmour pode ser ouvido cantando as notas em alguns trechos, algo que foi utilizado novamente no disco seguinte durante "Wish You Were Here".

É o tipo de faixa instrumental que diz muita coisa, mesmo não tendo letras. Algo raro, mas que permeia diversos discos do Pink Floyd. Outro exemplo disso é "Marooned", do álbum "The Division Bell".

O diálogo entre guitarras e sintetizador induzem o ouvinte a uma viagem... Se você, caro leitor, seguir minha dica e ouvir o disco no escuro, é possível que nesta parte do álbum você comece a ser tomado por diversos sentimentos estranhos, não seria absurdo supor que você enxergará coisas por aqui. A quantidade de detalhes é tamanha que é impossível notar tudo... Até hoje me espanto ao descobrir algo que nunca tinha notado, algum detalhe aqui ou ali.

O título foi originado de uma resposta que o técnico de estúdio utilizava quando lhe eram feitas perguntas: "You can have it any colour you like" (Você pode ter da cor que você desejar), que era uma referência à célebre descrição de Henry Ford do Ford T: "Você pode tê-lo na cor que desejar, desde que seja preto."

Curiosamente "Any Colour You Like" é a única música que é creditada a todos os membros da banda, exceto Roger Waters, enquanto o mesmo fazia parte da banda.

"Any Colour" fornece uma viagem distinta, que pode ser até mesmo assustadora. Em seus 3 minutos e meio o ouvinte é levado a quase 10 minutos de viagem. Impossível não perder a noção do tempo nesta faixa. Ao terminar, ela te deixa preparado para o que vem a seguir...

5.10. "BRAIN DAMAGE"

Essa faixa é, segundo Waters, sobre "Defender a imagem de ser diferente", e é dedicada a Syd Barrett, ex-guitarrista do grupo que teve sérios problemas com LSD no final dos anos 60. Durante a execução desta música, o grupo exibia diversas imagens de políticos e pessoas públicas da época num telão no palco. Quando o grupo decidiu reutilizar esses vídeos durante os anos 90, as imagens precisaram ser atualizadas para políticos mais atuais, digamos assim.

Musicalmente simples, com um dedilhado que lembra "Dear Prudence", dos Beatles, essa música é cantada por Roger Waters, sendo a primeira música do disco onde este aparece como vocalista principal.

O tema tratado aqui pode ser uma consequência de tudo o que apareceu antes no disco. Seria uma pessoa finalmente definhando e enlouquecendo após encarar os fatos sobre a vida moderna, possivelmente pensando em suicídio "I'll see you on the dark side of the moon" (te vejo no lado escuro da lua). A ideia é continuada e será melhor discutida na faixa a seguir...

5.11. "ECLIPSE"

Finalmente a última música do álbum, que fecha tudo com chave de ouro.

"Eclipse" surgiu da necessidade de terminar as apresentações ao vivo com algo mais do que improvisos após "Brain Damage". A faixa termina o disco de forma otimista, aparentemente, mas o que é este otimismo?

Essa faixa pode ser interpretada como uma disputa entre o bem e o mal. Tudo tem um lado bom e um lado ruim. No final, uma voz diz "There is no dark side of the moon, really. Matter of fact, it's all dark." (Não há lado escuro da lua, de verdade. Na realidade, ela é toda escura). O Sol e a Lua são símbolos, onde o Sol é a luz, o bem, a vida, já a Lua é o que cobre essa luz em determinados momentos, gera escuridão, o mal, a morte. Essa frase final dá a impressão de que, independente do que façamos, do quanto aproveitamos tudo o que está ali, em algum momento, a morte vencerá.

Ao mesmo tempo que esse pessimismo é passado, ouve-se um coração batendo novamente, como no início do disco, criando-se um loop que liga essa faixa à "Speak To Me". Algo semelhante à isso é feito novamente pelo grupo em "The Wall", 6 anos depois. De certa forma, a existência deste loop pode ser encarada como uma mensagem otimista.

Esse loop pode ser uma desculpa para se escutar o disco pelo menos outras 2 vezes. Algo que eu, particularmente, recomendo.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Espero eu que este texto tenha conseguido fazer uma análise razoável do signifi-cado que este álbum tem para mim quanto ao seu conteúdo e, além disso, sobre a importância deste não só para o rock, mas para toda a música ocidental e qua-lidade de produção técnica.

Na fonte desta resenha estão contidas artes internas do encarte, uma seção voltada a curiosidades entre outras coisas que julgo valer a pena dar uma conferida! Isso pode ser conferido aqui: http://www.regenciacoletiva.com/2014/07/the-dark-side-of-moon-o-classico.html

Tracklist:

01. "Speak to Me"
02. "Breathe"
03. "On the Run"
04. "Time"
05. "Breathe (Reprise)"
06. "The Great Gig in the Sky"
07. "Money"
08. "Us and Them"
09. "Any Colour You Like"
10. "Brain Damage"
11. "Eclipse"


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