O nó da indústria fonográfica
Por Thiago Sarkis
Postado em 25 de janeiro de 2005
Este artigo foi publicado há algum tempo atrás e estava por aí, perdido. Para uma restauração do trabalho feito e afim da devida publicação na "Associação Livre", realizei uma releitura do mesmo. Infelizmente, de lá para cá, só o nome dos programas de "file sharing" mudou, ou talvez a repressão a eles tenha aumentado somente. Não há indicativos de buscas por novas políticas, raríssimas exceções. Isto, por si só, é o bastante para deixar-nos ainda mais apreensivos. Péssimo sinal de que o bolso mais afetado ainda é o do consumidor.
Nunca a RIAA (Recording Industry Association Of America) registrou tantas denúncias de pirataria, e igualmente jamais havia processado tantas empresas, e até pessoas físicas por estarem fazendo downloads pela Internet.
A crise chegou ao limite extremo. Gravadoras, gigantes ou independentes e pequenas, sequer se agüentam em pé. Um sopro e já eram. Napster fora! AudioGalaxy fora! Qual será o próximo passo? Qual software atacar agora e como contornar a situação antes da falência eminente?
Resposta: se este for o caminho a ser seguido, a derrocada será geral. Na verdade, já o é, apenas se oficializará com o fim destes meios.
Para toda tranca há uma chave ou um modo saliente de se abrir. E cada tentativa da indústria fonográfica é um rolo a mais no nó que ela própria deu. Os monstros que hoje a destroem foram construídos por elas próprias e por suas filosofias do dinheiro a qualquer custo e do lucro exorbitante que obtiveram por décadas.
Não é questão de responsabilizar a sociedade capitalista, como de costume em qualquer manifesto semelhante a este. É simplesmente a tomada de consciência do que a alienação numa histeria capitalista pode causar.
O grupo do "colarinho branco" da música extrapolou em sua bandidagem, e enquanto se esbaldava em dinheiro e preocupava-se com meros bootlegs para fanáticos, não notou que suas atitudes e ambições levaram à criação de bandidos tão perigosos quanto eles próprios, os piratas.
Além da comercialização paralela e de uma maneira para sobreviver, esta segunda indústria, hoje tão forte quanto as gravadoras, ou melhor, mais potente que estas, virou uma espécie de herói, o Robin Hood da música. Rouba dos ricos e dá aos pobres.
Afinal de contas, os amantes da música não passariam toda a vida fazendo papel de trouxa, comprando a quarenta reais discos lançados no Brasil, cujos gastos para a produção e / ou distribuição mal chegam aos dez reais (e estamos exagerando).
A balela de que os CD-Rs estragam o som ou duram menos não pegou. Na verdade, mais curta que a suposta existência dos CD-Rs, foi a paciência dos compradores que hoje bancam conexões das mais rápidas, passam no máximo duas horas para pegar um álbum com som na qualidade de um CD e reproduzem suas músicas favoritas ao bel dispor.
Os vídeos também entram na roda. DVDs são facilmente produzidos, reproduzidos, colocados à disposição de milhares à baixíssimos custos. Ao invés de pagar 70 ou 80 reais pelas sonhadas imagens ao vivo ou vídeo-clips de seus ídolos, é simples baixá-los na Internet, fazer uma cópia e mandar rodar. O preço? Uns cinco ou seis reais no máximo.
Seria excelente desbancar os bandidos bem apessoados e renomados sem prejudicar os artistas. Porém, infelizmente, os maiores atingidos são os últimos citados. Além de, por várias vezes, lançarem compilações que nunca quiseram lançar, comporem músicas pra vender e terem que tratar seus fãs como débeis mentais, incapazes de ouvir algo mais complexo do que a batida das coxas de Britney Spears, ainda são obrigados a receber uma mixaria pelas vendas baixas de seus discos agora pirateados com a maior naturalidade.
Entre os piratas e bandidos (e olhe a conexão total entre as duas palavras) sobram feridos numa luta insistente para que o lucro de outrora renasça. Da forma como era antes, não irá acontecer.
As gravadoras e companhias em geral da indústria fonográfica precisam urgentemente mudar suas perspectivas, mesmo que pensem no mínimo lucro de seus trabalhos. Prosseguir desta forma não é possível, e os piratas já deixaram de ocupar o lugar de Robin Hoods. Atualmente prejudicam absurdamente, inclusive aqueles que os vangloriavam e adquiriam mercadorias em suas mãos. Também já vivem do gozo do lucro.
Boicote? Não funciona. Mudança certamente trará melhoras. O certo é que piratas e bandidos de fino trato se confrontam, sendo que os últimos imbecilmente persistem alimentando os primeiros, processando-os e com a preocupação de criar trancas, as quais ganharão sempre novas chaves mestras. É preciso pensar e imediatamente agir. Pode estar nos fãs a salvação ou melhoria, contudo, para isso, será necessário ficar em cima do muro, lidando com os bandidos de um lado, e os piratas do outro. Comprar a briga de um dos dois é assinar o atestado de óbito dos próprios bolsos para o futuro.
Associação Livre
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