Caetano Veloso: MTV bota essa porra pra funcionar

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Por Thiago Sarkis
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Informações sobre a coluna: O título "associação livre" se refere a uma das mais importantes concepções da técnica psicanalítica. Num dos primeiros apontamentos sobre este método, Freud, em "Estudos sobre a histeria" (1895), faz a seguinte observação sobre sua paciente Emmy von N.: "As palavras que [ela] me dirige (...) não são tão inintencionais como parecem; reproduzem antes com fidelidade as recordações e as novas impressões que agiram sobre ela desde a nossa última conversa e emanam muitas vezes, de modo inteiramente inesperado, de reminiscências patogências de que ela se liberta espontaneamente pela palavra." Partindo desta noção, mas não nos prendendo a ela, e trazendo-a em outras perspectivas, objetivo nesta coluna dirigir palavras e tópicos também não tão "inintencionais" quanto possam parecer, e suscitar questões e impressões que emanarão, de fato, inesperadamente, sem uma determinação exata daquilo que será lembrado, elaborado, re-elaborado e / ou preparado para cada trabalho.

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A imprensa em geral chamou de chilique um dos melhores momentos da televisão brasileira nos últimos tempos. Porém, acho faltou-me a devida contundência nesta afirmação. Afinal, com Gugu Liberato, Fausto Silva, João Kleber e Márcia Goldschmit no páreo, não é muito difícil se destacar com um mínimo de qualidade. Deixe-me então refazer tudo isso.

No dia cinco de outubro de dois mil e quatro o senhor Caetano Veloso saiu de sua redoma tropicalista e após décadas caminhou contra o vento de maneira convincente, propiciando pequenos instantes de magia para os telespectadores da emissora por ele próprio 'alcunhada' de "EMETÊVÊ". O que aconteceu todos já sabem, mas a pergunta tem de ser feita: chutem o que se sucedeu ao instante de luz de Caetano? É óbvio, e nem precisava ocorrer para sabermos. Momento bom na TV brasileira é sinônimo de ser imediatamente ou, pouco depois, "tirado do ar". Dá até para montar uma equação matemática.


Pois bem, assim foi. Irritado com a microfonia e o som da MTV, os quais impediram-no por duas vezes de executar "Nothing But Flowers" ao lado do ex-Talking Heads David Byrne, um dos maiores nomes da música popular brasileira bradou frente ao gringo e a uma platéia atônita: "MTV bota essa porra para funcionar. Toma vergonha na cara, vamos começar do começo". As palavras do baiano ecoaram e suas cordas vocais moveram-se e ganharam o alcance de um megafone. Não pelo fato de haver gritado, ou lapidado sua técnica vocal, mas sim por dizer ali o que milhares de pessoas pensam todos os dias.

Sem sequer aperceber-se da magnitude de seu curto discurso, Caetano, de cara feia pediu respeito ao telespectador que, essencialmente, na "Music Television" quer ouvir, ora bolas, música. A discussão é tão séria que já não importa qual estilo está liderando as paradas de sucesso da emissora. No começo, houve a dedicação ao rock, não há como negar. "Money For Nothing" do Dire Straits diz tudo. Porém, chegamos a um ponto em que não podemos requisitar rock ou metal à MTV, por uma razão óbvia: da antiga proposta de televisão de música só sobraram vinhetas.

A programação pseudo engajada cultural, sócio e politicamente, e repleta de animações que vão do non-sense ao futurístico (às vezes ambos), não fracassa em raríssimas exceções como nos trabalhos do apresentador Carlos José de Araujo Pecini, o Cazé. Mesmo assim, não há música. Só se for de fundo ou para abrir os programas.

A ausência de notas e acordes, e o fato da figura de grande compositor e virtuoso da emissora estar no VJ Edgard Piccoli talvez nos dê razões suficientes para sustentarmos que, por enquanto, pedir por rock ou coisa do tipo é um sonho descabido.

A "casa" está comemorando seus quatorze anos com o seguinte slogan: "14 anos. Idade de turbulência hormonal, excitação em excesso, instabilidade de emoções e crise. Deu pra entender? Então agüenta". Inegavelmente estão sendo sinceros com sua audiência.


O investimento da MTV concentra-se, em considerável escala, na contratação de modelos, cuja compreensão musical é similar à reflexão de uma paca sobre sua existência. Exemplos plenos: Fernanda Tavares e Daniela Cicarelli. Sem dúvida competentes no que fazem fora da telinha. Aliás, não apenas profissionalmente, pois devemos ressaltar a velocidade no gatilho, especialmente da última mencionada; de deixar Marlon Brando com inveja. Contudo, o que fazem essas moças numa televisão que diz dedicar-se à música?

No domingo, a tática para responder ao futebol ou aos "riquíssimos" programas da tarde é bastante clara: mais futebol, mas sem chuteira. Desde que garantiu o golaço da história da emissora, Cicarelli tornou-se uma overdose de final de semana. Sua voz roufenha é mais escutada que a de Amy Lee do Evanescence, Alanis Morissette, Dido, Shakira e Celine Dion (na época de "Titanic"!).


Programas como "Dance O Clipe" e "Daniela No País da MTV" são degradantes, auto-promocionais, e totalmente infrutíferos. Todavia, chega de tanto foco na mineira. Ela é a mais irritante simplesmente por ter a imagem super explorada. De toda maneira, existem piores.

O "Missão MTV" comandado por Fernanda Tavares consegue superar a inutilidade de seus fortíssimos concorrentes. Um buraco negro surge na tela a cada vez que o programa vem ao ar. Quem, em sã consciência, vai gastar energia com eletrodoméstico para ver uma modelo-governanta? Se Fernanda quiser arrumar alguma casa, deve começar por sua própria emissora.

Há também aquela que não é alta e esguia para os padrões da moda, mas segue o ritual reflexivo das pacas e suas reflexões existenciais, Sarah Oliveira. Durante os já longos e penosos anos em que vem substituindo Sabrina Parlatore, a paulistana mostrou uma qualidade: saber ler. Quando tenta ir um tiquinho além do "script", retorce, confunde, enlouquece. Parece o filho de Elis Regina, João Marcelo Bôscoli, transmitindo o Rock In Rio em 2001, durante o qual soltou pérolas como "Sally" para a música "Don't Look Back In Anger" do Oasis, e "Spins Like Teen Spirit" ao invés de "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana. Tudo bem, ele pelo menos tinha alguma noção do que estava falando, Sarah, nem isso.


Marina Person, apesar de "Meninas Veneno", salva-se ao lado de Adriana Golombek Wagner, a Didi. Ambas cumprem bem suas funções e geralmente trabalham a música além da vinheta de seus programas. O "Cine MTV" aparece como um dos melhores da programação, certamente.

Penélope teve um caminho tão bom que a emissora preferiu deixar o Riff sem VJ. Provavelmente a imagem dela associada à do pai, Marcelo Nova, traga um pouco de contravenção interessante que é novamente super explorada pela MTV, com programas como o "Ponto Pê".

A ala masculina da emissora é bem mais produtiva. Enquanto as apresentadoras têm de ser bem encorpadas, os homens devem primar pelo seu lado palhaço. Eles têm a função específica de fazer você rir para não chorar. É o caso de Paulo Bonfá e Marcos Bianchi, Hermes e Renato, João Gordo e também, algumas vezes, Cazé. São eficientes na função que foram colocados e alguns conseguem ultrapassar os limites editorias da emissora.

O vocalista do Ratos de Porão é um bom exemplo de sucesso. É disparado o melhor do Brasil em sua função. O egocêntrico Jô Soares vai pro espaço frente ao cru e direto Gordo da MTV. Não só faz rir, como informa e fala de música. Finalmente achamos alguém.

Rafa é nitidamente um cara bem intencionado e de conhecimento musical maior que quase todos os seus companheiros. No entanto, perde-se na proposta comercial, tendenciosa, e modista de seus chefes. Thaíde também entende do que fala, mas aí já não é comigo também.

Voltamos, no final das contas, à bela exposição de Caetano Veloso: "MTV bota essa porra pra funcionar". Essa porra se referindo ao som. Seja uma radiola, um DVD, um CD Player, o que for, coloca música direito nessa joça. E "vamos começar do começo" trazendo à baila a idéia que parece perdida em algum lugar do passado... de que MTV significa MUSIC TELEVISION e originalmente deveria dedicar sua programação à música, vídeo-clips, e não à promoção de modelos, governantas, marinheiros de primeira viagem, viajantes já experientes (Gabriel Conti Moojen no Mochilão), cabeleireiros & cia.

Uma boa saída seja talvez nem discutir mais. É simplesmente saudável desligar a televisão ou, já que eles primam tanto pela imagem, deixá-la no mute.


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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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