Fields Of Rock: A magia de Ozzy Osbourne

Resenha - Fields Of Rock (Goffertpark, Nijmegen, 18/06/2005)

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Por Thiago Sarkis
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.







A Europa é famosa por seus longos e gigantescos festivais musicais. Muitos deles já legendários alcançando décadas de existência, estendendo-se por dias todos os anos. Reais manifestações de arte e cultura, partes da história da música pop, com centenas de bandas disputando uma vaga para tocar frente a públicos maiores que seus tradicionais, mesmo que sejam obrigados a encurtar seu repertório.

Nestes termos, o Fields Of Rock é uma criança de colo. Iniciado em 2003 o festival holandês chegou a sua segunda edição agora em 2005, sendo realizado num único dia, durante, aproximadamente, onze intensas horas.

São quatro palcos: dois principais colocados lado-a-lado, um da MTV (bem pequeno), e o Tent Stage que, como o próprio nome anuncia, acontece numa tenda, de ótimas proporções e capacidade.

Neste ano foram relacionados vinte e três artistas, o que, obviamente, obriga-nos a optar entre um e outro, ou assistir quase todos apenas parcialmente, algo corriqueiro nas festanças européias.

Além da imensa quantidade de atrações, é necessário considerarmos a distância entre as arenas e a locomoção dificultada pela presença de cerca de quarenta e cinco mil pessoas. Está longe de ser o Rock In Rio do Brasil. Você não precisa perder tanto tempo no percurso até seu objetivo, pois a área é suficiente para que os presentes possam se acomodar à-vontade, com mínimo de higiene, tranqüilidade e campo de visão.

O local

A casa do Fields Of Rock é Nijmegen, cidade mais antiga da Holanda, que celebra exatamente 2.000 anos de existência em 2005. Os 157.000 habitantes param e acompanham de perto, anualmente, ou melhor, semanalmente, os inúmeros atrativos culturais levados pelo governo local. O Dynamo Open Air, famoso entre os fãs de heavy metal e ‘patrimônio’ de Eindhoven, também já foi lá realizado por duas vezes.

O clima hard rock que cerca o local, em especial o fascinante Goffertpark, onde a maioria dos eventos se efetiva, pode ser explicado pelo fato de ter nascido ali um dos filhos pródigos de Jan e Eugenia Van Halen, ninguém menos que Edward ou, como queiram, Eddie Van Halen. Naquela região ele viveu com o seu irmão Alex (natural de Amsterdã) cerca de sete, oito anos, depois rumou à Califórnia, e o resto da história todos conhecemos.

Panorama geral

O dia começou bem. Ainda do lado de fora, mais perdido que Jatobá em tiroteio, eu conseguia ouvir os acordes da guitarra de Kurdt Vanderhoof e o vocalista Ronny Munroe entoando os hinos do Metal Church. “Batallions”, “The Dark”, “Ton Of Bricks”, “Start The Fire” marcaram presença e detonaram numa apresentação espetacular deste conjunto que dificilmente escapa dos trilhos, principalmente quando sobe ao palco. A conseqüência é nítida no excelente público dedicado a eles.

Alter Bridge e Papa Roach dividiram as atenções na seqüência. Os ex-Creed provam que evoluíram bastante musicalmente, mas pecam na tentativa de soarem “metal”. A iniciativa parece partir, em especial, do guitarrista Mark Tremonti que segue homenageando Dimebag Darrell, carregando uma foto dele em seu instrumento. Apesar da boa voz de Myles Kennedy, as composições têm efeito mínimo na audiência, à exceção dos ‘hits’ “Open Your Eyes”, “Metalingus”, e a versão de “Rock And Roll” do Led Zeppelin. Já o Papa Roach agita muito os fãs na simplicidade absoluta de seu new metal, e através de muita falação, gritos, imaturidade completa. Alguns temas, contudo, tornam-lhes suportáveis por quinze minutos.

A próxima parada foi a título de pura curiosidade e terminou numa experiência traumática, devo admitir. O The Ga*Ga*s é louvado na mídia britânica, considerado a salvação do rock ‘n’ roll, e “patrocinado” pela MTV. A peste se alastra pelo velho continente, mas não dá outra; muita propaganda, som mal equalizado, bem barulhento, e mais nada. Platéia parada assistindo a armação ilimitada que, se bobear, chega em breve ao Brasil com a mesma reputação que recebe da imprensa no exterior. Medo!

A hora de fazer a primeira escolha chegava, Mastodon ou Motörhead. Já que Lemmy Kilmister é figurinha carimbada, decidi acompanhar outro grupo bem-conceituado e que, ao menos nos álbuns, garante potencial para um bom show. Êpa, bom? É apelido. Com os ex-Lethargy Bill Kelliher (guitarras) e Brann Dailor (bateria), o conjunto americano traz um som inovador e intenso. Não dá nem pra piscar os olhos. Os riffs e vocais mudam o tempo inteiro em pontes executadas eximiamente com tanta ou mais energia que nos trabalhos de estúdio. Estes sim são promessas para o futuro, apesar de já terem presente e passado valiosos.

Rapidamente fui checar o gótico do Autumn que substituía o metalcore do Bullet For My Vallentine, infelizmente cancelado na última hora. Interessante performance com destaque para a cantora Nienke de Jong (ex-Her Enchatment) e o guitarrista Jens van der Valk (ex-God Dethroned). Caso não sucumbam em meio a inúmeras agrupações do mesmo estilo, podem alcançar bons resultados por aí.

De volta à tenda, uma banda que carregava muitas das minhas expectativas, The Dillinger Escape Plan. Após ter Mike Patton nos vocais do EP “Irony Is A Dead Scene” (2002), eles ganharam fama e a merecida atenção a seu grindcore misturado a jazz e metal técnico. A velocidade das músicas é incrível, porém, de estarrecer mesmo são as variações incessantes instrumentais guiadas por Benjamin Weinman, guitarrista influenciado por Mahavishnu Orchestra e Cynic (tá explicado!). Greg Puciato, na ânsia de substituir o ex-vocalista do Faith No More, fica desnorteado e faz de tudo pra chamar atenção. Sobe nas torres de apoio, vomita, tropica, se esparrama no chão. Não adianta, Patton é Patton e ponto final. Apesar do candidato a “Jackass”, e dos exageros também dos demais integrantes, a única maneira de classificá-los ao vivo é chamando-os de espantosos. Um baita time!

O After Forever, mesmo concorrendo com o fortíssimo e aguardado Velvet Revolver, obteve foco. Floor Jansen & cia. conseguem atrair os apreciadores do gótico assim como os de hard e metal. As evoluções acertadas e refrões pegajosos fazem do show dos holandeses um dos mais consistentes da atualidade. Por esse motivo têm o reconhecimento dos conterrâneos, comprovado no Fields Of Rock.

Os ex-Guns ‘N Roses com Scott Weiland deram gás nas três primeiras músicas que tocaram, “Sucker Train Blues”, “Do It For The Kids”, “Big Machine”. Porém, caíram de rendimento nas duas canções posteriores, o que me levou ao After Forever. A queda do hard rock bem legal praticado por Slash, Matt Sorum e Duff McKagan parece provir de repetição. A galera animada vai murchando até que voltem os sucessos mundiais “Set Me Free”, “Fall To Pieces” e “Slither”. Estranha sensação de ver uma equipe que se conecta, mas ainda precisa de ajustes.

O Audioslave viria logo depois, no palco ao lado, e se mostrou bem mais entrosado que o Velvet Revolver. A combinação Rage Against The Machine e Soundgarden dá a impressão de funcionar melhor que a de Guns ‘N Roses e Stone Temple Pilots, sobretudo ao vivo. Precisamos considerar, no entanto, o tempo maior de casamento de Chris Cornell, Tom Morello, Brad Wilk e Tim Commerford. De qualquer maneira, o fato é que eles se saíram muito bem. Sobra energia, qualidade, presença de palco, espaço para criar, e inventar. Adicionando “Black Hole Sun” semi-acústica, e “Killing In The Name Of” – após pout-porri do RATM na guitarra de Morello – a um set list já bem potente, incluindo composições de seus dois CDs, o Audioslave levanta o público. Levanta... até a voz de Cornell começar a ratear. Fica evidente o tanto que ele vem forçando as cordas vocais. Se continuar assim, em curto período vai ter que diminuir muitos tons ou passar a tocar violão de maneira intimista nos bares da vida.

O infalível Slayer

“Diabolus In Musica” e “God Hate Us All” me decepcionaram. Acredito que o mesmo se sucedeu com a maioria dos admiradores da seqüência aniquiladora de “Hell Awaits”, “Reign In Blood”, “South Of Heaven” e “Seasons In The Abyss”. Isto posto, eu pouco esperava do Slayer. E eles realmente não trouxeram nada de novo. Quer saber? Tá ótimo assim.

Quando Tom Araya, Kerry King, Jeff Hanneman e Dave Lombardo participam de um festival, seja qual for a proporção, tem-se a certeza de que um dos melhores momentos, senão o destaque maior, será deles. O quarteto toma conta da cena com irresistíveis ataques da velha escola como “Chemical Warfare”, “Angel Of Death”, “Dead Skin Mask”, “Raining Blood”, etc.

A perfeita preparação de repertório impede altos e baixos. É direto ao topo e dali pra cima. O som não era o ideal e, ainda assim, foi destruidor. O dia que você fizer um festival lembre-se do Slayer, pois não há banda no mundo tão adequada a esse tipo de evento. A céu abertosó eles, Deus ou o Diabo, esta última decisão fica contigo.

A febre pelo Rammstein

Dias antes do festival, conversando com amigos de uma revista holandesa, perguntei qual seria a maior razão para a lotação máxima do Fields Of Rock. A resposta unânime foi “Black Sabbath com Ozzy Osbourne”, o que entrava em concordância com aquilo que eu imaginava. Quando anoiteceu e foi chegando a hora das duas bandas se apresentarem, percebi que havia certo engano em toda aquela convicção.

A quantidade de fãs de Rammstein era impressionante. Usando camisetas, vestindo-se como seus ídolos, levando faixas, eles vinham de todos os lados, fazendo de tudo.

Aos olhares atentos de praticamente todos os músicos que tocaram no dia, a banda adentrou o palco com roupas, aparelhagem, e produção de deixarem boquiabertos os que seguiram todos os exacerbos de investimentos em shows realizados nos anos oitenta ou na turnê POP do U2.

Pirotecnia, figuração robótica ensaiada e alinhada, dois andares para os integrantes se movimentarem, elevadores, escadas, e parafernália que não acaba mais. Facilmente o maior espetáculo do rock hoje em dia. Tecnicamente impecável!

Não tenha dúvida também que a pasmaceira diante daquilo tudo transforma músicas comuns em maravilhas, mas, sem dúvida, eles têm boas composições que funcionam perfeitamente quando de encontro ao público.

É uma atuação febril respondida por uma multidão fervorosa. Tudo em chamas para “Reise, Reise”, “Links 2-3-4”, “Amerika”, “Ich Will”, “Du Hast”, “Rammstein”. Sucesso compreensível e proporcional ao profissionalismo dos alemães, como músicos e artistas.

A magia de Ozzy Osbourne

Nem ‘reality show’ na MTV, ou as freqüentes delinqüências de Sharon acabam com o brilho de Ozzy Osbourne. Talvez seja verdade que os 45 mil espectadores do Fields Of Rock não tenham comparecido estritamente pelo Black Sabbath, porém, todos eles, sem tirar nem pôr, queriam ver os pais do metal com sua formação original.

Comparativamente, o repertório do Rammstein levou mais pessoas ao delírio que o de qualquer outro conjunto. No entanto, assistir Ozzy Osbourne ao lado de Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward é uma experiência única que nenhuma superprodução consegue superar. Quando tocam “Symptom Of The Universe”, “N.I.B.”, “Dirty Women”, “Into The Void”, “Paranoid”, “Sabbath Bloody Sabbath”, “War Pigs”, “After Forever”, “Children Of The Grave”, e outras, a sensação é de torpor. Inexplicável como aquele cara de falas emboladas e que mal consegue se locomover dentro de casa vira um maluco em cima do palco, tacando baldes de água no público, correndo e pulando como faz há trinta e cinco anos. Claro, não é a mesma coisa, ele envelheceu, mas, enquanto isso, alguns fãs foram juntos, outros cresceram, nasceram, ou estão a caminho.

As músicas são deslumbrantes, históricas, contudo, se você coloca um tampão no ouvido e olha para aquele cenário de monstros que criaram tudo o que está a seu redor, simplesmente não faz diferença. Basta enxergá-los.

Observando as pessoas ao meu redor percebi que a sensação era a mesma. Poucos pulavam, mexiam, faziam ‘rodinhas’. O desejo de todos era tão somente de vê-los, ou mais corretamente falando, vê-lo.

No backstage, assim que o Black Sabbath acabou o show, uma legião de artistas queriam tocar ou chegar perto daquela imagem ‘sagrada’. Brent Hines e Jacoby Shaddix, vocalistas de Mastodon e Papa Roach respectivamente, soltaram as seguintes frases assim que Osbourne passou: “É ele”, “Aí está O cara”. Músicos de Chimaira, Motörhead e The Ga*Ga*s também observavam-no. Além deles, astros que sequer tocaram no festival, mas foram visitá-lo, caso de Jimmy Page (Led Zeppelin) e Rudolf Schenker (Scorpions). Uma cena inesquecível.

Lembrando disso tudo, me esqueci de dizer o que já é óbvio e ululante após citar parte do set list do Black Sabbath; o show foi fantástico e Ozzy Osbourne, ainda hoje, mesmo que seja considerado mais um holograma vivo que qualquer outra coisa, segura a peteca, canta os clássicos de hoje e sempre, e indubitavelmente é o maior nome da história do heavy metal.

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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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