Alice In Chains e os limites da influência

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Por Thiago Sarkis
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A primeira questão sobre este artigo é: trata-se de um tributo ao Alice In Chains? A resposta: não. Então por quê o Alice In Chains como centro para abordar os limites da influência? A seguir tento responder a isso e também justificar o trabalho a ser desenvolvido.

Não me parece que em qualquer outro momento da história uma banda tenha adentrado tão profundamente aspectos pessoais e de uma natureza inexoravelmente avassaladora e depressiva. A maneira como Layne Staley, fundador do grupo ainda em seu colegial, inicialmente intitulando-o “Alice N Chains”, abordava fatos de sua vida cotidiana, com o apoio do guitarrista Jerry Cantrell, alcançava o gástrico. Letras, capas de discos, shows, tudo sangrava naquele conjunto.

Lembro-me bem de assistir o acústico do Alice In Chains e me perguntar seriamente: “como todos os integrantes dessa banda continuam vivos?”, tamanha a dor visível nos olhos - que mal se abriam - do vocalista. O mesmo aconteceu ao ver os clips de “Man In The Box” e “Angry Chair”. Assustador, horripilante, visceral!

Na sociedade atual – e isso nos fala de várias décadas -, quando encaramos Big Brothers, ou séries como Human Zoo, reality shows em geral, tendemos a acreditar que as pessoas simplesmente assumem “personagens”. É verdade que a idéia dos quinze minutos de fama não nos escapa, porém, mesmo durante este curto tempo, inexiste um ser humano capaz de passar imune, sem deixar escapar um pouco daquilo que verdadeiramente é ou imagina ser.

Apesar do behaviorismo de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) se candidatar como impulsor mister de uma parafernália psíquica nunca dantes vista, é difícil localizar com exatidão a origem da noção de nossos dias de que somos apenas um ‘resultado’, inertes às nossas próprias atitudes, que as pessoas e ídolos fazem de nossa personalidade o que querem, ou ainda que tratamo-nos de meras vítimas sociais inatas.

Quando Skinner afirma que “a sociedade ataca logo cedo, quando o indivíduo está desamparado”, e vai além dizendo: “não direcionei minha vida. Não a desenhei. Nunca tomei decisões. As coisas sempre vieram naturalmente e fizeram por mim. Assim é a vida”, é óbvio que sentimos um conforto inigualável. Afinal, faça o que quiser, não é de sua responsabilidade, trata-se apenas de um resultado natural de estímulo – resposta – reforço, puro materialismo epistemológico, exatamente como o autor mencionado fazia com seus ratinhos.

Burrhus F. Skinner
Burrhus F. Skinner

Layne Staley e o Alice In Chains, em uma década de existência (1987 até 1996, quando lançaram o acústico MTV), jogam as teorias de Skinner ralo abaixo, com a autenticidade da náusea que viveram, como indivíduos responsáveis por seus atos, dispostos a assumi-los, e a forma como tentaram seguir em frente transformando sofrimento humano em arte. Sem personagens ou figurantes, num piscar de olhos fechados, Staley faleceu após uma overdose de cocaína e heroína em Abril de 2002. Muito temos a falar sobre isso e a “sociedade dos inocentes” veementemente apoiada por Skinner, e outorgada pela genética.

A resposta principal: a imitação segundo Durkheim em “O Suicídio”

Emile Durkheim
Emile Durkheim

Um dos primeiros e maiores teóricos da sociologia, Émile Durkheim (1858-1917), com pioneirismo, em 1897, lançou um trabalho no qual estuda o suicídio – título também do livro – sociologicamente. Mais de quatrocentas páginas minuciosamente tratando de um problema que incomodava seus contemporâneos, e que obviamente persiste na atualidade. Não precisamos ir a fundo no estudo para observarmos uma outra perspectiva.

Em “A imitação”, um dos capítulos mais ricos de “O Suicídio”, Durkheim esbraveja contra o conceito de ‘imitação’ em sua época e a teoria das espécies sensíveis, e nos dá uma luz sobre a influência e seus limites. Basicamente demonstra a imensa responsabilidade que temos por nossos próprios atos. Se houve razões diversas para lutar contra a imprensa conservadora e irrefletida que culpou Dimebag Darrell Abott por sua própria morte, ganha-se um grande apoio nas palavras do sociólogo francês: “(...) as causas determinantes de nossa ação são razões que nos fizeram consentir, não o exemplo que nos foi dado observar. Nós é que somos os autores, mesmo que não a tivemos inventado”. Menos reconfortante que Skinner, não? Bem mais interessante, porém.

Talvez uma definição não seja relevante agora, mas, voltando a Layne Staley, cito uma acepção sucinta do suicídio feita por Durkheim: “o suicídio é toda a morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo ou negativo realizado pela própria vítima.” Ou seja, o indivíduo se implica realmente em seus atos. Poderíamos dizer, desta forma, que a morte de Staley estaria entre os “suicídios anômicos”, como definidos por Durkheim, provenientes de crises, instabilidades, desregramentos e, em especial, “de períodos que impedem o indivíduo de encontrar uma solução bem definida para os seus problemas”. A arte, particularmente a música, teria sido a saída tentada pelo vocalista do Alice In Chains.

O ato, a palavra, a escrita, a arte (do rústico ao refinado)

Emile Durkheim, O Suicidio
Emile Durkheim, O Suicidio

A arte é uma das formas mais refinadas de expressão humana. Nada a ela se iguala.

Chame uma criança (dois, três anos) e peça-a para ficar a seu lado. Pegue um copo de água, fale para fazer mesmo. É bem provável que ela consiga repetir o seu ato com facilidade. Se tiveres um filho mais novo, de dezesseis a vinte e quatro meses, diga para ele repetir alguma fala sua. Certamente os níveis de desenvolvimento são diferentes para cada indivíduo, logo as capacitações de falar “mamãe”, “papai” também variarão, mas sem dúvida haverá uma dificuldade maior em repetir “impopularidade” do que imitar o pegar um copo d'água. A palavra já está um passo à frente do ato.

Se pegarmos a escrita então, mais obstáculos adiante, e tempo de dedicação redobrado.

Agora pegue um instrumento qualquer, comece a tocar a coisa mais simples que vier à sua mente. Todos já pensaram no riff de “Come As You Are”, imagino. Que seja, faça-o. Aquela mesma criança que conseguiu imitar seu ato, copiou sua palavra falada a trancos e barrancos, teve sucesso em alguns rabiscos ao tentar seguir a palavra escrita, provavelmente agora estará em transe, deixando os outros à sua volta também malucos com tanto barulho ao se engendrar pela arte. Não é só a coordenação motora em jogo ou o raciocínio simples e puro. Tudo anda junto, e há algo a ser expresso, mesmo no barulho que indubitavelmente faria qualquer um chamar Herodes.

O tratamento pela arte


Independentemente de sua profissão, do que faz no dia-a-dia, de ser artista ou não, a palavra ‘oficina’ está sempre presente. Geralmente usamo-la para descrever trabalhos desenvolvidos em centros de recuperação de criminosos, drogadictos, pessoas com problemas mentais, mas não seria exatamente uma oficina todo e qualquer exercício físico ou mental desenvolvido por um ser humano? Um complemento de espaço em nossa estadia chamada vida?

A arte é como qualquer realização pessoal, logo igualmente uma oficina, com o adendo de seu refinamento e da exposição que incide a todos os envolvidos.


Para Layne Staley ou Dimebag Darrell, seriam exatamente essas as funções de seus discos, músicas, apresentações. Personalidades completamente diferentes como podemos denotar em qualquer vídeo de Alice In Chains e PanterA / Damageplan, no entanto com a comunhão da busca de uma cura, que advém do interior e se consuma no exterior. Captação e interpretação da mensagem pelo outro, bom, de fato, estas não corroboram com os escritos, melodias e letras originais. Reflexões, introjeções, objeções, ações, falações, seres humanos são capazes de tudo isso. Nas palavras de Durkheim novamente: “a não ser por aproximações grosseiras, a intenção é algo demasiadamente íntimo para ser atingida do exterior; mesmo da observação interior ela se oculta”.

As composições, quadros, teatros, filmes e tantas outras formas artísticas não falam de mais ninguém além de seus próprios autores, e de como experenciaram momentos de suas vidas, até mesmo quando se referem a uma outra pessoa, um personagem, uma lenda, etc. Tudo o que falo, fala sobre mim. Nietzsche nos disse muito bem que “a arte é aquilo que nos protege do real”, e nenhum outro filósofo foi tão apaixonado pela música quanto ele. A arte é eficiente nessa busca de cura humana. Infelizmente, ela não é suficiente para alguns, e possivelmente este foi o caso do vocalista do Alice In Chains, e de tantos outros grandes ícones, autores de majestosas obras que se suicidaram, foram vítimas de overdose, do vício, enfim, de si próprios, e do fracasso mesmo nas tentativas mais poderosas de se curarem de suas próprias existências, cujas razões de fato inexistem.

Os limites da influência


As vítimas de suas próprias realizações costumam se transformar em deuses. É parte de nossa história, uma tradição cultural. Começou assim. Jesus se sacrificou por todos nós. Da mesma maneira, Layne Staley e Dimebag Darrell operaram milagres e foram sacrificados por cruéis Judas (a droga e Nathan Gale respectivamente). Ora, não nos cabe ver as coisas desta maneira, tampouco transformá-los em mártires. Excepcionais cada um à sua forma, a partir daquilo que dentro deles mesmo era necessário fazer para a sobrevivência.

O guitarrista em sua obra refinada, a arte, foi atacado por um rústico – para não dizer primitivo, e existem muitos por aí - o qual certamente também tentava se curar, porém, sem tantos artifícios como os que seu ídolo possuía, buscou sanar-se num ato enlouquecido.

Layne Staley em sua obra refinada foi atacado também por um rústico, aquele mesmo que tentou se safar com “Down In A Hole”, “Nutshell”, “Would?”, “We Die Young” (ele já avisava desde o início), “Rooster”, “Rotten Apple”, e tantas outras duras doses de realidade própria. Antes mesmo de “We Die Young”, já no nome, ele talvez nos falasse de uma Alice acorrentada, que não vive no país das maravilhas. Uma Alice que tentou se desacorrentar, mas que tristemente não conseguiu. Uma Alice que seria ele mesmo.

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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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