Quem Foi Johnny Ace?

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Por Márcio Ribeiro
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Quem afinal foi Johnny Ace? Uma incrível estória sobre um rapaz que apareceu praticamente do nada para se tornar o primeiro artista negro de r&b a cruzar a fronteira da cor. E em uma serie de eventos incomuns e incoerentes, veio seu sucesso. Igualmente sem lógica e sem sentido, ele partiu.
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Seu nome de batismo é Johnny Marshall Alexander Jr. e ele nasceu no dia 9 de junho de 1929 na cidade de Memphis, Tennessee. Filho mais velho do Reverendo John Marshall Alexander, Johnny cresceria em uma casa com cinco irmãos e três irmãs. Como muitas outras crianças que cresceram na igreja, aprendeu a tocar órgão e piano desde cedo, além de cantar os hinos religiosos nas cerimônias administradas pelo seu pai. Estudou até o segundo grau e depois, aos dezesseis anos, optou por ir servir na marinha. Faltava pouco para o final da Segunda Guerra Mundial e a guerra acabaria com o rapaz ainda em treinamento básico. Johnny acabou servindo em Orange, Virginia, por dois anos, nunca atravessando o Atlântico. Ao deixar o serviço militar, logo se casou e com três anos de matrimônio já tinha um casal de filhos.

É interessante salientar que durante todo este tempo sua vida fora sempre simples e pacata. Johnny nunca sonhou em ser uma celebridade ou sequer cogitou em viver uma vida artística. Mas sua vida iria mudar radicalmente com a música. Em 1949, ainda aos vinte anos, conheceu um saxofonista chamado Adolpho Duncan, que ao ouvir Johnny tocando piano, o convidou para se juntar ao seu grupo. Este grupo de amigos aos poucos foram ganhando considerável prestigio local. Eram chamados de The Beagle Street Blues Boys e além de Adolpho Duncan no sax e agora Johnny Jr. no piano, a banda tinha um cantor chamado Robert Clavin Bland, conhecido como Bobby Blue e um guitarrista chamado Riley King, que os amigos chamavam de BB.

A popularidade do Beagle Street Blues Boys cresceu muito durante estes primeiros três anos, mas em 1952 Bobby Bland seria convocado para o exército e pouco depois BB King iniciaria sua carreira solo. Antes de Bobby Bland ir servir, ele gravou quatro músicas no estúdio de Sam Phillips e Johnny tocou piano nesta sessão. Um compacto, “Crying” / “Letter From a Trench in Korea”, chegou a ser lançado pela Chess Records. Mesmo sem Bobby Bland ou BB King, The Beagle Street Blues Boys continuariam a tocar com sucesso, sustentado por uma participação regular em um programa de rádio. Foi durante estas sessões de rádio que, depois de muita insistência por parte de outro membro da banda, Earl Forest, Johnny aceita cantar um número.

No momento que Johnny abriu a boca para cantar, toda sua sorte mudou. Pouco depois de cantar no rádio pela primeira vez, ele recebe um convite para gravar com Sam Phillips, uma sessão cujo material se perdeu. Curiosamente ninguém envolvido consegue se lembrar quando e o que exatamente foi gravado. A primeira grande oportunidade veio através de James Mattis, um disc jockey que acabara de fundar um selo, a Duke Records. Ao ouvir Johnny cantar, rapidamente o contratou para ser o primeiro artista de seu novo selo. Temendo prejudicar o seu pai, associando o nome do Reverendo a uma música que fala de desejos carnais, o bom filho Johnny Alexander Junior torna-se Johnny Ace.

Johnny gravou uma balada chamado "My Song" para seu lado A e um r&b bem agitado, "Following The Rule" no lado B. Então começa uma sucessão de fatos que deixam muita gente perplexa. Pode chamá-la de a magia de Johnny Ace. Este cantor de que praticamente ninguém ouvira falar, gravando um compacto lançado por um selo independente recém criado, de que também ninguém ouvira falar, fez um sucesso em proporções inesperado por todos, inexplicável para muitos.

"My Song" não só entra nas paradas de sucesso de r&b regional, como também na nacional, o que é um feito impressionante em si só. Como se não bastasse isto, a canção agradou o grande público chegando a No.1, e permanecendo nas paradas por um total de cinco meses! O compacto vendeu um total estimado de 500.000 copias, um número impressionante considerando que ninguém nunca tinha ouvido falar dele ou de sua gravadora antes.

Um feito deveras fantástico, a considerar probabilidades matemáticas! Mas você deverá estar se perguntando, e quanto ao fator talento? Bem, artigos e reviews antigos de suas apresentações descrevem Johnny Ace como sendo ainda bastante verde. Boa voz, bem aveludada, todavia cantava com pouca expressão ou entusiasmo. Este detalhe não impediu que seus discos vendessem. E venderiam seguidamente. Todos os seus lançamentos foram sucessos de vendagem, sempre entre os dez mais, vários chegando a No.1. Foram cinco hits em seguida, "Cross My Heart" (dez/52), “The Clock”(jun/53), “Saving My Love For You”(nov/53) e “Please Forgive Me” (mai/54). Seu repertório sendo perfeito para se namorar, cantando baladas que agradam principalmente às mulheres. Alguns dos lados B de seus compactos teriam um quê "rocker", mostrando que Johnny também tinha suingue. Mas é como cantor de baladas que reside sua popularidade.

Por volta de '53, um texano chamado Don Robey, dono da Peacock Records, comprou a Duke Records, tirando James Mattis dos negócios. Acabaria montando uma excursão pelo sul do país com os dois maiores nomes do selo, Johnny Ace e Big Mama Thornton. Big Mama acabara de gravar seu grande hit "Hound Dog", que iria inspirar Elvis Presley a ponto dele lançar a sua versão alguns anos depois.

O sexto compacto de Johnny, “Never Let Me Go”, foi o único a não entrar nas paradas. Curiosamente, é justamente esta a canção que Alan Freed tocaria em seu programa de rádio em Nova York. Para muitas pessoas, esta seria a primeira vez que iriam ouvir sua voz aveludada. A estrela de Johnny Ace continuava subindo e tudo apontava para que este rapaz fosse continuar a conquistar recordes de vendas.

O seu sétimo compacto se tornaria o seu maior hit. Gravado com o auxilio precioso do Johnny Otis Orchestra, a canção “Pleding My Love” fora gravada antes de Johnny Ace excursionar mais uma vez com Big Mama Thornton pelo sul do país. Foi lançada em janeiro mas Johnny não teve a oportunidade de ouvi-la pelo rádio. Em Houston, na véspera de Natal de 1954, Johnny Ace deu um tiro na cabeça e morreu minutos depois. A versão popularizada é de que ele estava brincando de roleta russa no camarim entre apresentações, mas existem muitas histórias atrás desta historia.

Conta-se que ele havia acabado de comprar um Oldsmobile novo, modelo ’55, menos de duas horas antes de morrer. Johnny Otis conta que certa vez em Tampa, Johnny Ace estava brincando no hotel com sua arma, um trinta e oito, apontando para as pessoas e deixando todos agitados. Otis tentou convencê-lo do perigo de sua brincadeira mas Johnny só ria e continuava bebendo enquanto apontava a arma. Big Mama Thornton, presente no camarim na hora de sua morte, confirma seu mau hábito, contando que Johnny estava apontando a sua arma para um casal. Aparentemente ele apontara a arma para a moça e o cavalheiro que lhe acompanhava se queixou dizendo que se ele queria apontar a arma para alguém, ele deveria apontar para si mesmo. Johnny Ace fez exatamente isto. Puxou o gatilho e encontrou um tambor cheio. O resto é presumível. Os cabelos do topo de sua cabeça ficaram em pé como um porco-espinho enquanto partes de seus miolos passaram a decorar a parede e o teto. Seus olhos imediatamente foram inundados em sangue enquanto o corpo passou a entrar em convulsão. Levou algum tempo até o corpo poder ser oficialmente pronunciado morto. O segundo show foi cancelado.

Existem outras versões, mas por enquanto, ninguém pode afirmar nada sem cair no risco de ser processado por difamação. Suspeitas tendem a presumir que havia alguma espécie de pressão que levou Johnny a passar a carregar uma arma sempre consigo. Como ele atraía muitas mulheres, inclusive mulheres brancas, pode haver todo um enredo ligado a ciúmes e preconceito. Pelo lado financeiro, existem perguntas que continuam abertas sobre qual o papel que pessoas como Evelyn Johnson, gerente do selo, ou Don Robey, dono de seu contrato, podem ter tido. Mas ninguém ainda oferece informações especificas, e o assunto tende a cair no esquecimento.

Embora nas décadas seguintes o nome de Johnny Ace tenha de fato sido praticamente esquecido, durante os primeiros meses após a sua morte, a mágica continuou. A canção "Pledging My Love" saiu em janeiro indo direto para as paradas de sucesso, em parte reforçado pelo fato que a canção era o último registro de um cantor falecido. Johnny Ace foi transformado em um espécie de Sinatra negro e não demorou muito para a canção se tornar seu último No.1. Com um mês de seu lançamento, "Pledging My Love" entra na parada de sucesso pop, a canção estacionando entre as vinte mais vendidas nos Estados Unidos no ano de 1955. O público branco também passou a comprar seus discos. Assim, Johnny Ace consegue fazer o impensável para a época, tornado-se o primeiro artista negro do pós guerra, a cruzar a espessa linha que divide o mercado negro do mercado branco.

Não demorou e o mercado muito naturalmente passou a tentar faturar em cima do nome Johnny Ace. Começou a surgir uma série de lançamentos "homenagens" ao cantor. Títulos como "Johnny Has Gone", "Why, Johnny, Why", "Salute To Johnny Ace", "Johnny Ace's Last Letter", "Johnny's Still Singing" e vários outros, foram todos lançados em 1955, antes de sua morte completar um ano. Don Robey conseguiria ainda lançar e vender uma gravação encontrado em arquivo chamada "Anymore", que como todas as demais gravações de Johnny Ace, se tornou um hit.

Não querendo largar o osso, Don Robey conseguiu convencer o irmão de Johnny, chamado Sanclair Alexander, a gravar com o nome de Buddy Ace. Ele lança em abril de 1956 a canção "Still Love You So", com resultados decepcionantes, encurtando sua. Sem querer desistir do pescado, Robey contrata outro pianista, Jimmy Lee, passando a vendê-lo como Buddy Ace até quase a década de sessenta.

Johnny Ace morreu aos vinte e cinco anos de idade, vivendo apenas cinco como músico. Destes, apenas dezoito meses de carreira comercial. Neste período de tempo, o rapaz fez mais do que a maioria dos que vieram antes ou depois dele. Difícil será ver outra subida ao sucesso tão rápida e tão persistente.

Vou fechar o texto com a letra de uma canção de Paul Simon.

THE LATE GREAT JOHNNY ACE

I was reading a magazine
And thinking of a rock and roll song
The year of 1954
And I hadn't been playing that long
When a man came on the radio
And this is what he said
He said I hate to break it to his fans
But Johnny Ace is dead
Well, I really wasn't Such a Johnny Ace fan
But I felt bad all the same
So I sent away for his photograph
And I waited until it came
It came all the way from Texas
With a sad and simple face
And they signed it on the bottom
From the late great Johnny Ace

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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