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(Publicado na revista “Burrn!” de agosto de 2002)
Antes do início da primeira apresentação do Angra no Japão com sua formação renovada, era possível divisar na platéia torcedores da seleção brasileira com a camisa canarinho, e também bandeiras brasileiras, aumentando o calor da expectativa. Às 20:23 horas, da mesma forma que em “Rebirth”, o primeiro álbum do renascido Angra, começa a soar “In Excelsis”, provocando vibração e aplausos e concentrando olhares entusiasmados sobre os membros que vão aparecendo no palco. Então começa “Nova Era”, e depois “Acid Rain”. A presença de palco imponente do Angra, que é muito mais popular e célebre no Brasil do que imaginam os fãs japoneses, conseguiu conquistar instantaneamente os olhos e os ouvidos da platéia.
A voz fluida e com grande alcance de Edu Falaschi, a técnica diáfana e ímpar de Kiko Loueiro e Rafael Bittencourt, a movimentação ágil de Felipe Andreoli no seu baixo de seis cordas, a estabilidade de Aquiles Priester batendo compenetrado e poderosamente a bateria, tudo demonstra essa fase atual do Angra. A banda, que superou o risco de acabar-se para reiniciar a sua jornada, já superou o Angra que existia antes da divisão, e já começa a demonstrar de maneira ainda mais generosa a originalidade dessa banda de Heavy Metal.
O crescimento do Angra, e a união dos membros ficam claros não em músicas representativas do início da carreira como “Angels Cry”, nem em músicas como “Metal Icarus”, tão simples que não parece integrar o repertório de uma das bandas que demonstrou desenvolvimento mais evidente e se tornou uma das bandas com o maior espírito musical dentre as que estão em atividade. Essas características ficam nítidas quando o “antes” passa de uma só vez a ser “atual”, em momentos como este: Rafael, após ter cantado Reaching Horizons, a “música que há muito tempo atrás, foi a primeira a ser gravada pelo Angra” e assumido os seus vocais, passa o microfone na última frase da música para Edu, que aparece sutilmente por trás dele. O desenvolvimento da banda fica também nítido no vocal de Edu, pleno de confiança, cantando com emoção acompanhado unicamente pelo piano de Kiko .
Acima de tudo, porém, a personalidade do Angra fica evidente na introdução da de “Hunters And Prey” e na própria música em si, quando todos os membros tocam instrumentos de percussão. O ritmo da percussão latina, que faz o corpo balançar expontaneamente, bem como a identidade da banda, que é transmitida para o ouvinte acompanhada de largos sorrisos, estão vivos e pulsantes. O “groove” delicado proporcionado pelas síncopes, o dinamismo que literalmente é composto de várias partes que, se entrelaçando-se, formam um fluxo único que atinge diretamente o corpo humano, também estão presentes de uma maneira que chega a ser emocionante.
Creio que não são poucos os fãs que perceberam que o ritmo do Angra, não só em composições como “Unholy Wars” e “Hunters And Pray”, mas em todas as músicas, sobretudo ao vivo, apresentam um “groove” diferente das outras bandas. Não foi a primeira vez que todos os membros apresentaram-se com instrumentos de percussão, e certamente muitos fãs vieram ver essa performance. Afinal, o Angra, banda de músicos que nasceram, cresceram e se aprimoraram no Brasil, hasteando com orgulho ideais musicais elevados, é a banda que fascina esses seus fãs.
Naturalmente a dramaticidade, evidente em “Running Alone”, e o respeito pelo Heavy Metal tradicional em músicas nas quais é impossível ficar sem cantar junto, são parte importante da abordagem musical do Angra.
Todavia, não podemos esquecer o fato de que o potencial dessa banda chamada Angra e seus cinco músicos, constantemente tem superado as expectativas e previsões dos fãs. Esse potencial embasado pela busca incessante da originalidade foi um dos fatores que provocaram o racha na banda e, ao mesmo tempo, proporcionou um foco ainda mais nítido dos ideais musicais para o Angra pós-cisão.
Depois de encerrada a apresentação, os membros desceram até o pit dos câmeras para chegar o mais próximo possível dos fãs. Não satisfeitos, Kiko e Edu fizeram stage diving sobre a platéia, que os apoiou. Os fãs sustentam Angra em seus corações, vivem a mesma época que eles vivem, compartilham com a banda os momentos do show, sentem no Angra de hoje o fascínio e as características únicas que fazem essa banda se impor sobre as demais. Sem sombra de dúvida esses fãs continuarão a apoiar o Angra. Sem sombra de dúvida, segurarão em seus braços a banda de Rock que supera todas expectativas e previsões, orgulho do Brasil.
(Publicado na revista “Young Guitar” de agosto de 2002)
A Lenda retorna à ativa
Os relacionamentos pessoais negativos que minavam a banda nos últimos anos vieram à tona e provocaram a divisão no Angra que, com a entrada do cantor Edu Falaschi, do baterista Aquiles Priester e do baixista Felipe Andreoli, literalmente renasceu com o álbum “Rebirth”. As novas forças da banda, que preencheram o requisito de conhecerem a música do Angra e seus conceitos – banda de Heavy Metal que incorpora elementos de música clássica e brasileira -, não demonstraram qualquer insegurança em relação a outro atributo fundamental do Angra, que é a parte técnica. Levando em conta que trouxeram ar bom e puro para a banda, podemos dizer que o Angra se tornou uma banda muito mais criativa do que antes.
Porém, acho que Kiko e Rafael, que são o núcleo da banda, devem ter pensado que não seria possível conhecer o verdadeiro potencial da banda sem colocá-la no palco. A turnê japonesa foi uma oportunidade ideal para constatar isso.
O maior destaque foi a personalidade e a estabilidade vocal de Edu. A presença de palco como a que tinha seu antecessor Andre Matos deve ir aparecendo naturalmente no futuro. Mais importante do que isso, no estágio atual, são dons como a habilidade e o carisma, elementos nos quais ele fez notar que é um enorme talento. O cantor, acima de tudo, é o rosto da banda. Por esse ponto de vista, pode-se dizer que o Angra fez uma escolha sábia e sem igual.
Com relação ao que interessa ao leitor - os guitarristas, a técnica do Kiko continua absurda. Muitas pessoas devem ter ficado boquiabertas com o DVD encartado na edição de janeiro, mas quando ele toca para valer em palco, não há nada mais a fazer senão gritar em assombro. Durante o show, até deu uma canja (?) no teclado e, no geral, demonstrou tranqüilidade e imponência em tudo que fez.
Quem mais supreendeu, porém, foi Rafael. Sua habilidade repentinamente aprimorada em “Rebirth” já havia chamado a atenção; desta vez, ele demonstrou na prática que ele realmente é bom. Para ser sincero, não achava que ele fosse um guitarrista tão bom... perdão!
Em pleno mês de junho, quando o arquipélago japonês estava mergulhado de cabeça na Copa do Mundo, o Angra, tal qual outra seleção canarinho acompanhando a marcha irrepremível do futebol brasileiro, fez perceber de maneira concreta todo o potencial da banda. A impressão que fica é que este é o verdadeiro começo.
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