Desde o momento em que vi o selo encartado na promo anunciando “o melhor álbum de heavy metal de 2005, com...” – e aí a lista de convidados – foi impossível evitar a desconfiança de que se tratava de mais um argumento oportunista visando ocultar uma provável qualidade duvidosa, utilizando-se de participações especiais apenas para chamar a atenção. É natural que o estimado leitor tenha essa indisposição prévia.
Nota: 10 









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“Forgotten Time” corrobora uma suspeita que te assombrara na primeira faixa: Renato Tribuzy consegue ser, de fato, o maior destaque dum álbum que conta com Bruce Dickinson, Michael Kiske e Matt Sinner, sendo uma pena que Ralf Sheepers apareça apenas nos backing vocals. Não somente aqueles que não conheciam seu trabalho prévio no Thoten (incluindo este imprudente jornalista), como os que já tinham noção de sua competência, certamente ficarão abestalhados com a indescritível atuação presente aqui. Agudos altíssimos perfeitos, tons baixos de uma agressividade cerebral e emotiva, entonações certeiras, nuances e backing vocals valorosos. Atributos conjugados numa interpretação maravilhosa. E além de todos os predicados, Tribuzy se destaca justamente por interpretar, de forma profunda, sincera e natural.
Definir o estilo de uma obra assim é ingrato, mas, se três palavrinhas a definem, estas são heavy, prog e thrash. Como prova “Divine Disgrace”, bateria tipicamente prog, solo totalmente thrash e linha vocal de heavy metal. Claro, as referências vão além e claro, tudo está sincronizado e definido adequadamente.
“Absolution”, com seu início swingado de baião (que de alguma forma me lembra muito “Change Of Heart”, música solo de Bruce Dickinson), tem, em seus nove minutos, um duelo interessante entre um Tribuzy inspirado e um Michael Kiske resignado, ainda tentando se desvencilhar de seu passado na música pesada. Momento recompensado pelo turbinado solo de Roland Grapow, esmerilhando nas seis cordas, fazendo o que se espera de um guitar hero quanto este consegue captar a “veia” da música, na hora e do modo certo.
“Nature Of Evil”, cover da (banda) Sinner, não por acaso, tem todo aquele jeitão Primal Fear de ser, uma certa cadência nos riffs, um clima ascendente no bridge e a explosão melódica no belo refrão. Excelente trabalho de Matt Sinner, Tribuzy, Ralf Sheepers e Kiko Loureiro.
Até as composições mais medianas, como "The Attempt", “Lake Of Sins” e “Web Of Life”, por exemplo, são anos-luz melhores do que a maioria do que é feito por aí, e num nível tão alto como este, é engraçado dar um destaque morno para estas faixas – isto porque a primeira tem um refrão bacana, a segunda texturas criativas e a terceira um solo de Grapow, que, pqp!.
Imagine que você tenha a sua disposição o melhor vocalista de heavy metal em todos os tempos. Pois é. “Beast In The Light” é a prova final (e desnecessária) da inteligência de Tribuzy, que, ao contrário de Arjen Lucanssen em seu Ayreon (e mesmo de Steve Harris, já mal acostumado), cônscio da magnitude da situação, aproveita o convidado com o respeito de um fã e a qualidade de um ótimo compositor. Assim como fez em “Absolution” e “Nature Of Evil”, o brasileiro se adapta soberbamente ao estilo do companheiro, merecendo muitos pontos por isso. A música em si, e digo isso ciente do que falo, não só é a mais instigante do álbum, como também uma das melhores coisas que Bruce Dickinson colocou sua voz nos últimos anos. Roy Z (incansável trabalhador e um dos guitarristas mais eficazes que conheço) aliado a Kiko Loureiro, dão o brilho final aos solos, que arrancarão faces contentes e realizadas dos ouvintes.
“Agressive”, mais sugestiva impossível, é perfeita com todas as sílabas, um heavy/thrash mais intenso e pesado do que o praticado pelo Iced Earth – o que dá uma noção bem próxima do que realmente é - e rebuscado como merece.
A produção, a cargo do próprio Tribuzy e de Dennis Ward, é o ponto de referência ideal pelo qual se apóia a diversidade da música. Tudo soa pesado, equilibrado e utilizado com atenção: os timbres de guitarra, a microfonação da bateria, a ênfase em certas linhas vocais, o suporte do baixo, os backings preenchendo as lacunas, o volume dos instrumentos, a mixagem, enfim, coisa de mestre. E a banda de apoio, Gustavo Silveira e Frank Schieber nas guitarras, Ivan Guilhon no baixo e Flávio Pascarillo na bateria, óbvio, possui todos os requisitos exigidos para uma execução sem falhas.
Este review pode parecer apenas um compêndio de elogios hiperbólicos. Não é. Quando estes são justificáveis, nada mais prazeroso para um crítico do que concedê-los a quem merece.
Não sei se, como afirmou meu colega Ricardo Seelig, chega ao top 5 do metal nacional em todos os tempos. Se sim ou não, é irrelevante. O certo é que rodará intermináveis vezes em seu aparelho de som e ficará, com todos os méritos existentes, entre as melhores obras de metal deste século que se inicia.
"Now we live our lives in the execution times!".
Site Oficial: www.tribuzy.com
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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