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Sarcófago: pioneirismo, polêmica e death metal

Por Eliton Tomasi
Em 07/07/08
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Impossível falar de Death Metal e não citar o Sarcófago. Não apenas um importante nome para o cenário nacional, o Sarcófago significa pioneirismo em termos de Death Metal mundial.

Capa Valhalla Edição 10
TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA 10ª EDIÇÃO DA REVISTA VALHALLA EM JULHO DE 2001.

Na coluna ARQUIVO VALHALLA, Eliton Tomasi, ex-editor da revista VALHALLA, relembra as matérias e entrevistas que foram destaque nas páginas da revista durante os 12 anos em que ela esteve nas bancas de todo Brasil. Confira textos e fotos originais, além de comentários sobre os bastidores de cada produção textual e de todo ambiente de redação de uma revista de rock. Também confira novos artigos e entrevistas realizadas por Eliton exclusivamente para o WHIPLASH.

Leia também a entrevista exclusiva com Manu Joker.

Gerald e Wagner
Considerado uma banda de elite, o Sarcófago construiu uma carreira calcada nos seus interesses e objetivos como banda e nunca abriu mão de seus conceitos para adaptação no mercado capitalista. Já são quinze anos na estrada, seis álbuns, entre outros Eps, MCDs e participações em coletâneas, além, é claro, de inúmeras encrencas com outras bandas, radicalismo e declarações inusitadas à imprensa especializada.

Sua história começa no ano de 1985, na capital mineira de Belo Horizonte. O cenário lá era dos mais fortes. O Sepultura, que na época começava a trilhar seu caminho rumo à explosão mundial, tinha em sua formação o guitarrista/vocalista Wagner Antichrist. Wagner permaneceu na banda durante um ano, mesmo antes da banda ainda se chamar Sepultura. Brigas entre os integrantes causaram sua saída.

Quem pensa que a partir dai surgia o Sarcófago, engana-se. “O Sarcófago já existia. O Wagner foi convidado para entrar na banda pois havia acabado de sair do Sepultura. O Sarcófago comprava ai a briga com o Sepultura”, diz em exclusiva para a Valhalla o baixista Gerald Incubus. A partir daí estava criada a dupla que iria à frente do nome Sarcófago chacoalhar o cenário metálico mundial.

Após participar com duas faixas na clássica coletânea “Warfare Noise I” da Cogumelo Records, em 1986, saia o primeiro disco da banda pela mesma gravadora, intitulado “I.N.R.I.” O álbum, que hoje é considerado por muitos como um dos melhores discos de Death/Black Metal do mundo, trazia além da dupla em sua formação o guitarrista Butcher e o baterista D.D. Crazy. Nesta época, a banda usava um visual carregado. Maquiagem, pregos, rebites, cruzes de ponta cabeça, pentagramas e cinturões de balas. O visual da banda era muito criticado na época! Quem diria que hoje em dia, 9 entre 10 bandas do estilo optariam por um visual assim!

Sarcófago na época do INRI

Neste disco estavam clássicos como “Nightmare”, “The Black Vomit” (mais tarde re-gravada no “Laws of Scourge”) e “Satanic Lust” que abria o petardo!

Em 1989, saia o segundo trabalho da banda – “Rotting”. Neste disco a banda aparecia como um trio. Os dois membros anteriores deixaram a banda – D.D. Crazy mais tarde aparecia como baterista do Sexthrash. Este foi o álbum mais polêmico da banda, para começar pela capa que trazia a morte beijando Jesus Cristo. A partir daqui as coisas começam a acontecer! Um contrato com a Music for Nations colocava os discos nas lojas européias. Mais tarde, “Rotting” também estava disponível nos EUA, onde teve a capa censurada e substituída por dizeres que anunciavam que o Sarcófago era a banda de um ex-integrante do Sepultura. A banda se revoltou com a atitude da gravadora e chegou até a processa-los mais tarde, pois aquilo tinha sido feito sem autorização do grupo. “Rotting” trazia mais clássicos como a própria faixa título, a famosa “Sex, Drinks and Metal” e uma regravação para “Nightmare”, do primeiro disco.

Depois de um hiato de quase dois anos, em 1991, a banda lança o que seria seu maior triunfo, o álbum “The Laws of Scourge”. Com nova formação, voltando a ser um quarteto, a banda trazia o guitarrista Fábio Jhasko e o baterista Lucio Oliver. Aqui os codinomes Antichrist e Incubus foram trocados pelos sobrenomes Lamounier e Minelli, respectivamente. “The Laws of Scourge” foi um dos primeiros álbuns de Death Metal técnico de toda história. Toda fúria e agressividade características da banda vinham nesse disco muito bem lapidadas e com um aperfeiçoamento técnico impressionante. Novamente a banda inova! Mais tarde, bandas fazendo Death Metal mais trampadão surgiriam aos montes na Flórida e no continente Europeu. Este disco proporcionou a primeira turnê Européia da banda, que foi muito bem sucedida e fazia do Sarcófago um importante nome no cenário mundial do Death Metal. “A experiência com shows no exterior foi muito boa. Adquirimos mais experiência e conhecemos muita gente”, lembra Gerald. Daqui também saiu o primeiro videoclipe para a música “Screeches from the Silence” (quem não viu este clipe rolando no antigo Fúria Metal da MTV, aquele mesmo com a Honda CG azul). A banda aqui apostava num visual ainda agressivo, porém mais bem cuidado, que já causou uma certa insatisfação de alguns que começaram a tacha-los de posers! Neste disco estão as melhores composições da banda, como a já citada “Screeches from the Silence”, “The Laws of Scourge”, “Piercings” e “Prelude to Suicide”. Era pura aula de Death Metal agressivo, pesado, mas muito técnico.

Formação do The Laws Of Scourge

Um ano depois a banda lançava o EP “Crush, Kill, Destroy” que trazia duas faixas inéditas – “Crush, Kill, Destroy” e “Little Julie” - e faixas do “The Laws of Scourge” remasterizadas. Neste ano, um fato inusitado também ajudou a trazer o nome da banda a tona. O D.R.I aportou por aqui para alguns shows. Na ocasião, a escolha da banda de abertura para o show de São Paulo ficou entre o Sarcófago e o Ratos de Porão. O Sarcófago foi o escolhido pela produção. A relação entre o Sarcófago e o Ratos de Porão já não era das melhores desde um show que o Ratos fez em BH e foi recepcionado com cusparadas pelo público. Segundo o próprio Sarcófago, Max Cavalera, do Sepultura, teria dito aos caras do Ratos que quem estava dando cusparadas na banda eram os membros do Sarcófago. A treta começava ai! Neste show com o DRI, segundo integrantes do Sarcófago, enciumados por não terem sido escolhidos como banda de abertura e pela treta rolada no show em BH, os caras do Ratos invadiram o camarim do Sarcófago armados de correntes e foi um quebra só. O pau comeu e até os caras do DRI acabaram entrando na treta! Resultado: um cara da equipe do DRI acabou quebrando o braço!

Wagner Antichrist
Mais dois anos se passam, muitas entrevistas polêmicas foram concedidas, e o Sarcófago aparece novamente, agora resumido a famosa dupla Wagner e Gerald. “Hate”, o novo disco, torceu o nariz de alguns fãs, pois ele trazia bateria eletrônica. Segundo a banda, esta decisão foi tomada pois não haveria humano na face da terra capaz de acompanhar a velocidade desejada por eles! Realmente seria uma tarefa difícil, pois ao mesmo tempo que empregou uma velocidade absurda, a banda vinha com um som menos técnico (se comparado ao “Laws of Scourge”). A bateria eletrônica causou um certo espanto inicial, mesmo assim não impediu que “Hate” fosse mais um grande álbum na carreira da banda. Na época deste disco, a banda decide abandonar todo o aparato visual utilizado até então, cortando inclusive os cabelos! “Qualquer playboyzinho curtidor de Pear Jam tem cabelo comprido hoje“ disse Wagner numa entrevista da época. A banda não faz nenhum show para promover “Hate”.

Dez anos se passaram e a Cogumelo, gravadora que acompanhou a banda durante todo esse tempo, decide lançar uma coletânea trazendo os melhores momentos da carreira do grupo. “Decade of Decay” reunia clássicos do grupo como “Nightmare”, “Midnight Queen”, “Rotting” entre outras. “The Worst” (1996), próximo trabalho do grupo, trazia um Sarcófago mais ameno na questão velocidade, apesar da bateria ainda ser eletrônica. A técnica de “Laws of Scourge” foi resgatada em pequenas doses. A temática lírica continuava a mesma. Títulos como “God Bless the Whores” (Deus abençoe as vadias) nos certificavam disso. “The Worst” era um bom disco, mas não conseguiu trazer o nome do Sarcófago em voga. Isso pode ter ocorrido pelo fato da dupla se negar a dar entrevistas e a divulgar a banda. Eles realmente não tinham mais nenhum objetivo em viver financeiramente da banda, o que eles queriam e sempre quiseram era fazer Death Metal ao estilo deles, sem se importar com o mercado e com as modas. A banda também não fez nenhum show para promover o disco e também declarou que não mais estava interessada em se apresentar ao vivo.

Após quatro anos de silêncio, o grupo retorna ao cenário com o MCD “Crust” que, segundo a banda, seria um aperitivo ao próximo disco de estúdio a ser lançado ainda este ano. “Crust” é tosqueira pura! Desde o encarte que é escroto no último, até as composições, que trazem novamente a bateria eletrônica em velocidade extrema e vocais quase inaudíveis! A música “F.O.M.B.M.” (Fuck Off the Melodic Black Metal) critica as atuais bandas do cenário Black Metal interessadas em trabalhar com um som mais bem elaborado. O Sarcófago continua o mesmo!

A Cogumelo lança uma coletânea com o melhor de seu cast e o Sarcófago sem sombra de dúvidas era presença indispensável. Aparecem aqui com a faixa “Satanic Lust”. A gravadora prepara atualmente um tributo à banda que deve ser lançado ainda este ano.

Sobre o futuro do Sarcófago, ninguém sabe, nem mesmo Gerald. “Quanto ao futuro não posso falar nada, pois não sei o que vai rolar, mas o Sarcófago é o de sempre: porrada, porrada. Falem bem ou mal, mas lembrem-se: o pior esta por vir!”.

Mesmo com um futuro incerto e com um passado polêmico, a banda deve ser lembrada no presente e para o resto da vida como a banda que revolucionou em termos de Death Metal, a banda que sempre manteve-se fiel aos seus conceitos, a banda odiada e amada por todos, a banda que se chama SARCÓFAGO!

Leia também a entrevista exclusiva com Manu Joker.

Discografia: Warfare Noise I (1986); INRI; (1987); Rotting (1989); The Lost Tapes of Cogumelo – Coletânea Cogumelo (1990); The Laws of Scourge (1991); Crush, Kill, Destroy – EP (1992); Hate (1994); Decade of Decay (1995); The Worst (1996), Crust – MCD (2000); Coletânea Cogumelo Records (2000).

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Sobre esta seção: Arquivo Valhalla

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Sobre Eliton Tomasi

Eliton Tomasi é produtor cultural e jornalista. Por 11 anos a frente da revista Valhalla / Rock Hard – que foi uma respeitada publicação especializada em rock do Brasil – se tornou um dos mais experientes críticos de rock do país. Sua experiência vai além do setor editorial já que por 15 anos também atua como produtor de shows e eventos tendo já realizado desde pequenas gigs até produções internacionais de grande porte. Também sempre atuou como empresário e assessor de bandas e artistas nacionais e internacionais, tendo realizado turnês pelo Brasil e Europa. Atualmente trabalha com as bandas Hellish War, Uganga, Andragonia, Banda do Sol, Imagery, Kappa Crucis e a gravadora Hellion Records.

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