Detonautas: A presença da diversidade em Goiânia
Resenha - Detonautas (Centro Cultural Oscar Niemeyer, Goiânia, 20/06/2015)
Por João Paulo Lopes Tito
Postado em 28 de junho de 2015
Demorou bastante até eu conseguir ir pela primeira vez em um show do Detonautas. Não por falta de vontade – virei fã da banda em 2011, depois de escutar, meio por acaso, o segundo álbum deles, "Roque Marciano" de cabo a rabo. Chegou a rolar uma oportunidade no Festival GO Music Rock em 2013, em Goiânia, mas a péssima organização do evento deixou uma má impressão.
O Detonautas Roque Clube é o tipo de banda que, como muitas, acaba se destacando na mídia com hits que nem sempre representam bem o conjunto da obra. Músicas como "Outro Lugar" ou "Quando o Sol se For" (que não são, nem de longe, minhas favoritas – mas que, compreendo, terão sempre seu lugar cativo no coração de Tico Santa Cruz e companhia) formaram a primeira impressão a ouvintes do Brasil todo que, até hoje, insistem em classificá-los como banda de revolta/amor adolescente – sem parar para ouvir pérolas como "No Escuro o Sangue Escorre", "Sabemos Fingir" e "Conversando com o Espelho".
Mas quando Tico Santa Cruz, Renato Rocha, Dj Cleston (tiro, porrada e bomba! BUM!), Phillipe, Fábio Brasil e Macarrão entraram no palco no Centro Cultural Oscar Niemeyer, no dia 20.06.2015, em Goiânia, já dava pra ver que a vibe era outra. Pouco mais de 3.000 pessoas prestigiavam o Festival Paralelo da Música e testemunharam um verdadeiro terremoto.
Enquanto rolava a introdução instrumental da série Game of Thrones, a banda tomou seus lugares no set e, após, emplacou uma pesada performance de "Forever Alone", do último álbum ("A Saga Continua"). A letra, que dialoga com os cultuados "memes" das redes sociais, manda uma crítica direta à arrogância e insensibilidade que permeia os relacionamentos virtuais da atualidade. Performance na medida para levantar o público.
Em seguida, "Combate", mantendo a porrada constante e inserindo o já famoso elemento ativista, característico da postura politicamente ativa que a banda carrega. Emendando em "Ladrão de Gravata", na qual fazem uma jam com "No More Trouble", do Bob Marley, e uma variação bem sacada "Que País É Esse?", da Legião Urbana.
Um aspecto muito bom de Detonautas é a presença da diversidade. No decorrer de todo o show, é possível familiarizar-se com pontos de vista políticos, sexuais, artísticos e religiosos diversos, sem que um esteja necessariamente em contradição com outro. No meio da canção seguinte, por exemplo, "Seja Forte Para Lutar", Tico rezou a oração do "Pai Nosso" completa, em um clima de mantra. Em diversos outros momentos, dança como num terreiro de candomblé e faz passos de capoeira. Tudo em respeito absoluto a crentes e crenças, ainda que misturados.
Após, engatam "Quando o Sol Se For", "Você me Faz Tão Bem" e "O Amanhã", numa sequência de hits que consagraram a banda nacionalmente.
Terminado esse bloco de impacto inicial, a banda aproveitou para encaixar "Melhor Plantar o Bem", um reggae ainda não gravado oficialmente, mas já bastante trabalhado, facilmente lançável como single. Preferiram, entretanto, tratar a canção como um pequeno souvenir, exclusivo a quem teve a oportunidade de assistir ao show, ao vivo (De qualquer forma, merece uma versão de estúdio o mais rápido possível!)
Fizeram parte do repertório, ainda, a catártica "Send U Back", "O dia que não terminou" (sempre com presença marcante do guitar man Renato Rocha), "O Inferno São os Outros", a empolgante balada eletro-acústica "Só Nós Dois", "Quem É Você?", "Tô Aprendendo A Viver Sem Você", "Olhos Certos" e "Só Por Hoje". Menção especialíssima a "O Retorno de Saturno" (a qual, ao lado de "O Alienista", do último álbum, considero a obra-prima do repertório deles), levada só na voz e violão pelo frontman.
Outra característica muito boa da banda é a sessão de covers. No setlist da noite, teve "Tempo Perdido" (sempre um hino dos e aos legionários!) e "Tudo o que Ela Gosta de Escutar" do Charlie Brown Jr; a porrada do "Killing In The Name" (do Rage Against The Machine) e uma versão nervosa de "Highway To Hell", com o Phill nos vocais. Eu não sabia que o moleque cantava tanto! Excepcional.
O encerramento foi com "Outro Lugar", o xodó da turma. O repertório foi bastante parecido com o apresentado no João Rock Festival de Ribeirão Preto, e no Kazebre Rock Bar, em São Paulo, algumas semanas antes. E eu saí de lá devidamente exorcizado.
Tendo assistido a uma performance fantástica, segura e convincente, fico me perguntando como e por quê ainda existe certa resistência da mídia e, muitas vezes, de parte do público em reconhecer o Detonautas como uma das grandes bandas brasileiras em atividade. Todos os elementos estão lá! É triste perceber que o público do rock nacional sobrevive embriagando-se de pérolas do passado para aguentar a pobreza do presente, enquanto bandas tão boas quanto esses caras matam um leão por dia para proporcionar uma apresentação fantástica como a que eu vi.
São quase 18 anos de estrada, muitas apresentações memoráveis (Rock In Rio, Planeta Atlântida, João Rock, Japão, um acústico, etc), álbuns cada vez mais sólidos (PsicodeliaAmorSexo&Distorção é excelente, do início ao fim!) e uma carreira construída ao reverso do que a indústria do entretenimento prega (do primeiro encontro em chats de internet, foram parar na Globo, vindo a ser, hoje, um dos raros casos de banda absolutamente independente e com presença constante na mídia de alto alcance).
Dentre outras, uma conclusão que chego é que, talvez, a primeira impressão deixada pelo Detonautas no público brasileiro não tenha sido a ideal. Ou já tenha se esgotado há muito tempo – lá atrás, na época do Tribalistas e CPM22. Muito mais amadurecidos atualmente, provavelmente se fizessem como os Beatles ou Foo Fighters, inventassem um nome psicodélico e saíssem tocando anonimamente por repúblicas estudantis e pubs selecionados país afora, estourariam de novo. Dessa vez, como a salvação do rock nacional. Enquanto isso, sorte de quem souber aproveitar!
Saravá!
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Com mais de 140 shows, festival Welcome to Rockville anuncia atrações para 2027
Os 50 artistas de rock e metal mais ouvidos de todos os tempos no Spotify
Aerosmith realiza primeiro dos dois shows comemorativos; veja setlist e convidados
A música do Lynyrd Skynyrd que Dave Mustaine colocou no Metallica sem Lars Ulrich perceber
Shows do Social Distortion no Brasil são adiados para 2027
O plano de Nicko McBrain para voltar ao estúdio no próximo álbum do Iron Maiden
O que Nicko McBrain pensava ao ver Bruce Dickinson no palco antes da saída
Korzus lança single/videoclipe "Blind Deaf Mute"
Tony Iommi considera injusto comparar Jorn Lande a Ronnie James Dio
A cirurgia que membros do Metallica, Slayer e Megadeth precisaram fazer, diz Hetfield
O único membro do Metallica que saiu por conta própria, segundo Lars Ulrich
Neil Peart, David Gilmour e Sid Wilson não concordam sobre o maior baterista do mundo
Rick Rubin achou que faltava Satanás no Slayer e pediu que a banda voltasse às raízes
Os dois guitarristas que Kerry King nunca conheceu após décadas no Slayer
Os oito discos essenciais do thrash alemão, segundo a Ultimate Guitar
O último grande álbum clássico do rock, segundo André Barcinski
30 músicas que definiram o rock/metal dos 1980s segundo Classic Rock e Metal Hammer
A música do Helloween que se tornou clássico, mas Kai Hansen considera boba

Black Label Society faz show histórico em Belo Horizonte e emociona fãs
Between the Buried and Me - um show especialmente feito para os metal geeks brasileiros
The Gathering - uma das turnês mais esperadas pelos fãs de vocais femininos
Ginger and the Peppers - O novo Rock pulsa na Casa de Cultura
Helloween - Em Porto Alegre, 2 horas e 20 minutos que pareceram passar em instantes
Maximus Festival: Marilyn Manson, a idade é implacável!
Como uma música de 23 minutos me fez viajar 500 km para ver uma das bandas da minha vida



