Detonautas: A presença da diversidade em Goiânia

Resenha - Detonautas (Centro Cultural Oscar Niemeyer, Goiânia, 20/06/2015)

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Por João Paulo Lopes Tito
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Demorou bastante até eu conseguir ir pela primeira vez em um show do Detonautas. Não por falta de vontade – virei fã da banda em 2011, depois de escutar, meio por acaso, o segundo álbum deles, “Roque Marciano” de cabo a rabo. Chegou a rolar uma oportunidade no Festival GO Music Rock em 2013, em Goiânia, mas a péssima organização do evento deixou uma má impressão.

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O Detonautas Roque Clube é o tipo de banda que, como muitas, acaba se destacando na mídia com hits que nem sempre representam bem o conjunto da obra. Músicas como “Outro Lugar” ou “Quando o Sol se For” (que não são, nem de longe, minhas favoritas – mas que, compreendo, terão sempre seu lugar cativo no coração de Tico Santa Cruz e companhia) formaram a primeira impressão a ouvintes do Brasil todo que, até hoje, insistem em classificá-los como banda de revolta/amor adolescente – sem parar para ouvir pérolas como “No Escuro o Sangue Escorre”, “Sabemos Fingir” e “Conversando com o Espelho”.

Mas quando Tico Santa Cruz, Renato Rocha, Dj Cleston (tiro, porrada e bomba! BUM!), Phillipe, Fábio Brasil e Macarrão entraram no palco no Centro Cultural Oscar Niemeyer, no dia 20.06.2015, em Goiânia, já dava pra ver que a vibe era outra. Pouco mais de 3.000 pessoas prestigiavam o Festival Paralelo da Música e testemunharam um verdadeiro terremoto.

Enquanto rolava a introdução instrumental da série Game of Thrones, a banda tomou seus lugares no set e, após, emplacou uma pesada performance de “Forever Alone”, do último álbum (“A Saga Continua”). A letra, que dialoga com os cultuados “memes” das redes sociais, manda uma crítica direta à arrogância e insensibilidade que permeia os relacionamentos virtuais da atualidade. Performance na medida para levantar o público.

Em seguida, “Combate”, mantendo a porrada constante e inserindo o já famoso elemento ativista, característico da postura politicamente ativa que a banda carrega. Emendando em “Ladrão de Gravata”, na qual fazem uma jam com “No More Trouble”, do Bob Marley, e uma variação bem sacada “Que País É Esse?”, da Legião Urbana.

Um aspecto muito bom de Detonautas é a presença da diversidade. No decorrer de todo o show, é possível familiarizar-se com pontos de vista políticos, sexuais, artísticos e religiosos diversos, sem que um esteja necessariamente em contradição com outro. No meio da canção seguinte, por exemplo, “Seja Forte Para Lutar”, Tico rezou a oração do “Pai Nosso” completa, em um clima de mantra. Em diversos outros momentos, dança como num terreiro de candomblé e faz passos de capoeira. Tudo em respeito absoluto a crentes e crenças, ainda que misturados.

Após, engatam “Quando o Sol Se For”, “Você me Faz Tão Bem” e “O Amanhã”, numa sequência de hits que consagraram a banda nacionalmente.

Terminado esse bloco de impacto inicial, a banda aproveitou para encaixar “Melhor Plantar o Bem”, um reggae ainda não gravado oficialmente, mas já bastante trabalhado, facilmente lançável como single. Preferiram, entretanto, tratar a canção como um pequeno souvenir, exclusivo a quem teve a oportunidade de assistir ao show, ao vivo (De qualquer forma, merece uma versão de estúdio o mais rápido possível!)

Fizeram parte do repertório, ainda, a catártica “Send U Back”, “O dia que não terminou” (sempre com presença marcante do guitar man Renato Rocha), “O Inferno São os Outros”, a empolgante balada eletro-acústica “Só Nós Dois”, “Quem É Você?”, “Tô Aprendendo A Viver Sem Você”, “Olhos Certos” e “Só Por Hoje”. Menção especialíssima a “O Retorno de Saturno” (a qual, ao lado de “O Alienista”, do último álbum, considero a obra-prima do repertório deles), levada só na voz e violão pelo frontman.

Outra característica muito boa da banda é a sessão de covers. No setlist da noite, teve “Tempo Perdido” (sempre um hino dos e aos legionários!) e “Tudo o que Ela Gosta de Escutar” do Charlie Brown Jr; a porrada do “Killing In The Name” (do Rage Against The Machine) e uma versão nervosa de “Highway To Hell”, com o Phill nos vocais. Eu não sabia que o moleque cantava tanto! Excepcional.

O encerramento foi com “Outro Lugar”, o xodó da turma. O repertório foi bastante parecido com o apresentado no João Rock Festival de Ribeirão Preto, e no Kazebre Rock Bar, em São Paulo, algumas semanas antes. E eu saí de lá devidamente exorcizado.

Tendo assistido a uma performance fantástica, segura e convincente, fico me perguntando como e por quê ainda existe certa resistência da mídia e, muitas vezes, de parte do público em reconhecer o Detonautas como uma das grandes bandas brasileiras em atividade. Todos os elementos estão lá! É triste perceber que o público do rock nacional sobrevive embriagando-se de pérolas do passado para aguentar a pobreza do presente, enquanto bandas tão boas quanto esses caras matam um leão por dia para proporcionar uma apresentação fantástica como a que eu vi.

São quase 18 anos de estrada, muitas apresentações memoráveis (Rock In Rio, Planeta Atlântida, João Rock, Japão, um acústico, etc), álbuns cada vez mais sólidos (PsicodeliaAmorSexo&Distorção é excelente, do início ao fim!) e uma carreira construída ao reverso do que a indústria do entretenimento prega (do primeiro encontro em chats de internet, foram parar na Globo, vindo a ser, hoje, um dos raros casos de banda absolutamente independente e com presença constante na mídia de alto alcance).

Dentre outras, uma conclusão que chego é que, talvez, a primeira impressão deixada pelo Detonautas no público brasileiro não tenha sido a ideal. Ou já tenha se esgotado há muito tempo – lá atrás, na época do Tribalistas e CPM22. Muito mais amadurecidos atualmente, provavelmente se fizessem como os Beatles ou Foo Fighters, inventassem um nome psicodélico e saíssem tocando anonimamente por repúblicas estudantis e pubs selecionados país afora, estourariam de novo. Dessa vez, como a salvação do rock nacional. Enquanto isso, sorte de quem souber aproveitar!

Saravá!

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