Focus: é possível fazer prog sem ser pretensioso e chato
Resenha - Focus (CIEE, Porto Alegre, 07/03/2010)
Por Alcio Mota
Postado em 09 de março de 2010
Esqueça aqueles conceitos maldosos sobre o rock progressivo. Hermetismo, pretensão, elitismo, chatice mesmo, sempre foram termos que os detratores usaram para dilapidar a imagem do rock progressivo. Assisti com meu filho o show da banda holandesa Focus no dia 07/03/2010, no Teatro do CIEE em Porto Alegre, que mais uma vez comprovou que é possível fazer prog com criatividade e grande qualidade técnica, sem ser pretensioso e chato.
A postura do Focus no palco faz a gente repensar alguns conceitos. A produção não pode ser mais espartana. Nenhum cenário, telão ou efeitos de luz sofisticados. Os instrumentos são resumidos ao mínimo necessário. Os instrumentos de Thijs van Leer são "apenas" um órgão Hammond B3 com sua caixa Leslie, uma flauta e uma escaleta, nada daquelas pafernálias ao estilo Rick Wakeman. Niels van der Steenhoven usa apenas uma guitarra, assim como Bobby Jacobs, que só usa um baixo. A bateria de Pierre van der Linden é tradicional, somente com os acessórios básicos. Não há desfile tecnológico nem exposição de instrumentos valiosos, mas quando começa o show, sai de baixo.
O show do Focus é um show de música. Música pura, sem perfumarias. A entrada de van der Steenhoven e Jacobs, ambos oriundos da escola holandesa de jazz e jazz-rock, além de ter dado uma injeção de juventude na banda, fortaleceu o suingue do som do Focus, que é uma característica que a banda sempre teve e ajudou a diferenciá-la de contemporâneas suas, como o Yes e o ELP. O som flui em alternâncias de momentos viajandões, rockeiros e jazzísticos, com algumas pitadas de música clássica, tudo isto regado com o bom humor de van Leer, que agita a galera com suas vocalizações doidas e yodels.
Thijs van Leer decididamente é um dos maiores showmen do mundo rock, embora não seja devidamente reconhecido pela grande mídia. Ele brinca o tempo todo com o público e valoriza os músicos, faz performances inusitadas com a voz e com um copo de vinho. Não pára nunca. Seu Hammond é operado com maestria, imprimindo climas na medida e fazendo pausas repentinas para dar destaque à bateria em mini-solos frenéticos de van der Linden, uma das marcas do Focus. Na flauta, van Leer introduz uma alternativa melódica vigorosa à guitarra de van der Steenhoven, em solos que transitam pela música medieval e clássica, mas tudo nos tempos certos, sem cansar ninguém com improvisos intermináveis. Sua comunicação com o público e simpatia são um tapa de luva em estrelas que "se acham" e se escondem em redomas. Quando ele anunciou que no final do show haveria um "handshake" com a banda no foyer do teatro, algo que ninguém esperava, a galera veio abaixo.
O guitarrista Niels van der Steenhoven é um show em si. Extremamente técnico, formado no jazz, entrou na banda em 2006 e absorveu muito bem a veia rockeira do Focus. Quem tem saudade do Focus da fase de Jan Akkerman não tem porque se lamentar. Van der Steenhoven não é apenas um substituto à altura, ele impôs características suas que casaram muito bem com o som do Focus, só ouvindo para entender. Isto sem desprestigiar de forma nenhuma a qualidade da contribuição de Akkerman, até porque grandes hits da banda foram escritos por ele, como "House of the King" e "Hocus Pocus" (em parceria com van Leer).
O já conhecido baterista Pierre van der Linden, juntamente com van Leer um dos dois membros originais, continua em plena forma. Incansável, consegue conciliar a velocidade e a técnica dos bateristas de jazz com a explosão e vigor dos bateristas de rock. Como já foi dito, seu mini-solos incidentais continuam sendo uma marca forte do Focus, sacudindo temas mais lentos. Aliás, no geral esta é outra característica da banda, alternar dentro de uma mesma música momentos mais viajandões com trechos de pegada mais rock'n'roll.
Outro membro recente é o baixista Bobby Jacobs, que em parceria com van der Linden forma uma cozinha irretocável. As linhas de baixo que saem de seu Fender são presentes e inventivas. É um baixo que se ouve e o que se ouve agrega muito na música. Como estava na segunda fila, próximo às caixas, sentia no peito o choque da pulsação das ondas graves de van der Linden. Fora a competência instrumental, várias músicas recentes do Focus são creditadas a Jacobs.
No setlist estavam as clássicas esperadas "House of the King", "Eruption", "Sylvia", "Harem Scarem" e "Hocus Pocus", além de várias mais recentes mas também excelentes, como "Sylvia's Stepson", "Aya Yippie Hippie Yee" e "De Ti O De Mi". Fora "Hocus Pocus", que foi um "gran finale" apoteótico, para mim o ponto alto do show foi "Harem Scarem". Além deste tema ser um arraso por si só, os solos especiais de guitarra e de baixo foram colocados no meio. Que solos espetaculares! Van der Steenhoven e Jacobs não tiveram piedade dos mortais.
Havia dúvidas se van Leer iria encarar o vocal yodel de "Hocus Pocus". A voz dele obviamente não é a mesma dos anos 70. Não está pior mas está diferente, bem mais grave. Mas, como além de tudo ele é inteligente, a solução foi encontrada na platéia: ele faz a parte mais grave do vocal e quando chega a parte aguda ele pede ao público que faça por ele. O resultado é ótimo, e todo mundo fica feliz por ter ajudado, aumentando ainda mais sua empatia com os fãs.
Depois de praticamente 2 horas e meia de show, o bis foi com "Neurotika" do penúltimo CD, "Focus 8". Foi ótima, mas a esta altura estava todo mundo louco para sair e entrar na fila no prometido "handshake" no final. Compramos o CD duplo "Live in Europe", edição limitada ("for fans only"), e entramos na fila para tentar conseguir os autógrafos. É difícil descrever a emoção de se chegar perto de ícones da música como van Leer. Fiquei meio abestalhado e não consegui falar quase nada, mas cumprimentei os caras e consegui os autógrafos. Estupidamente, não levei minha câmera. Tiramos algumas fotos com o celular do meu filho, mas não ficaram boas. Tudo bem, estas coisas viram folclore mas o importante mesmo foi ter estado lá.
Sobre o Teatro do CIEE: inaugurado em 2008, dentro de um complexo administrativo e centro de convenções, é um espaço excelente. Moderno, com tamanho médio (407 lugares), acústica, ar condicionado e conforto visual perfeitos. Um lugar adequado para um show de nível como este do Focus.
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