Tribuzy: Fãs no palco, Bruce na bateria, e clássicos no show de BH

Resenha - Tribuzy (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 13/11/2005)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Maurício Gomes Angelo
Enviar Correções  












Renato Tribuzy é um cara esperto, muito esperto. Sua estratégia publicitária é pensada e certeira.

Todos já haviam se impressionado com o time de feras do metal mundial que o brasileiro conseguiu agrupar para gravar o excelente álbum "Execution". Kiko Loureiro, Roland Grapow, Mat Sinner, Ralf Scheepers, Chris Dale, Roy Z, Dennis Ward, Michael Kiske e (pasmem!) Bruce Dickinson. O resultado foi uma das obras mais aclamadas pela crítica musical (inclusive por este escriba) do ano de 2005. O que teve de gente se roendo de inveja por aí...

Fotos: Maurício Gomes Ângelo e Thiago Sarkis

Como ele conseguiu tanta moral? De onde veio tanto crédito? Por que tantos músicos de renome o apoiaram? Essas são perguntas que intrigaram e continuam intrigando a muita gente. Duas palavras que podem começar a responder isto são trabalho e competência. Ninguém se arriscaria a dar suporte ao sujeito se seu projeto fosse ruim. Ele provou em "Execution" que é um ótimo compositor e também vocalista. Ao vivo ele assegura seu posto como o novo candidato a melhor lead singer do país, devendo incomodar André Matos e Eduardo Falaschi (geralmente apontados como tal) nas próximas listas de "melhores do ano".

Ainda com tudo isso, acho que ninguém esperava que o mesmo time (com exceção de Michael Kiske) que gravou o álbum em estúdio, viesse acompanhá-lo em sua turnê brasileira. Até Mr. Air Raid Siren. E aí reside a GRANDE jogada da coisa toda, o trunfo, o coringa infalível que lhe garantiria o sucesso. O cartaz já anunciava em letras garrafais: "IMPERDÍVEL! – Bruce cantará clássicos do Maiden!". Não é novidade para ninguém dizer que o lendário vocalista da Donzela de Ferro foi o principal chamariz de público. Assim como não seria exagero afirmar que, no mínimo, 75% dos presentes estavam lá por causa dele. E que ele foi, igualmente, o responsável pelo bom número de pagantes mesmo com o preço dos ingressos acima da média belo-horizontina. Bem, para cariocas e paulistas, a quantia de 50 reais para ver um show de metal soa corriqueira e até atraente, mas, para uma cidade como Belo Horizonte, onde os valores giram entre 20 e 30 reais, 50 paus acaba sendo bem além do esperado, deixando este show como o mais caro do ano até agora (em termos de metal). Apenas como comparação, o último concerto de música pesada neste valor foi o do mainstream Nightwish, em 2004. Todavia, acho que nenhum dos – aproximadamente – 1.400 pagantes, saiu insatisfeito após 1 hora e meia de espetáculo.

De uma pontualidade assustadora, na verdade até cinco minutos antes do horário previsto, Tribuzy sobe ao palco trazendo abrindo com "Agressive", simplesmente a faixa mais pesada de "Execution", funcionando tremendamente bem como forma de impressionar o público, em especial àqueles que achavam que Dickinson seria o único destaque da noite. E os desavisados se renderam de vez perante "Divine Disgrace", uma música que representa com propriedade os elementos thrash, heavy e prog utilizados na concepção do álbum, enaltecendo a ótima banda de apoio, com Gustavo Silveira e Frank Shieber nas guitarras, Ivan Guilhon no baixo e Flávio Pascarillo na bateria, sem esquecer da participação constante do guitar-hero tupiniquim Kiko Loureiro. Algo a se destacar é a intensa presença de palco de todos os integrantes. Poucas vezes vi tanta empolgação, suor e interação como o apresentado aqui, intensificando a eficiência do fator "ao vivo" com que as composições foram criadas. "Forgotten Time" nos permite observar o desempenho satisfatório do sistema de som do Chevrolet Hall. Embora os microfones tenham falhado constantemente, ele se comportou bem melhor que em outras vezes. Méritos para a produção.

Aí começaram as participações especiais. Mat Sinner adentra a arena para dividir os vocais com Tribuzy em "Nature Of Evil", ótimo exemplo do metal-europeu-pesadíssimo-porém-melodioso-de-linhas vocais pegajosas que Sinner costuma compor. O grandalhão Ralf Scheepers – frontman de respeito em todos os sentidos – junta-se à banda para executar "Absolution", fazendo os vocais que originalmente eram de Michael Kiske, alcançando um resultado satisfatório sem muitas dificuldades. Como mais longa e climática faixa da noite, é impressionante que "Absolution" tenha funcionado tão bem ao vivo, especialmente quando explode no final no segundo ato, culminando no excepcional solo de Roland Grapow, eficiente como de costume – mas muito tímido no restante do show. E, aproveitando a oportunidade, Scheepers permanece para cantar "Final Embrace", música símbolo do álbum "Jaws Of Death", do Primal Fear, que propiciou a primeira vinda dos alemães ao Brasil, ainda em 1999.

"Execution" – a música – trouxe um Tribuzy fidelíssimo aos desafiadores vocais registrados em estúdio e me fez pensar que o rapaz andou lendo muito o Whiplash!, já que as três músicas limadas foram justamente aquelas consideradas medianas na avaliação do álbum: "The Attempt", "Lake Of Sins" e "Web Of Life", escolhas acertadas e conscientes, deixando o set-list empolgante e efetivo do início ao fim.

E chegara a hora da entrada do rei. "Olê, olê, olê, olê, Bruce, Bruce..." era o que ecoava no Chevrolet Hall. Frisson absoluto, já que os mineiros esperavam por anos para ver alguém do Iron Maiden por estas terras (me parece que o "sonho" de ver a banda completa anda arrefecendo). E ele chega. Incredulidade e emoção nos olhos de todos. Com nítidas marcas da idade, descontraído e pateta – sob efeito do álcool, pra ser honesto – ele abre sua participação com "Beast In The Light", num belo dueto com Renato.

Devo admitir que Dickinson me consolou. Sempre achei que minha memória era fraca, até ver Bruce conferindo a letra de "Beast In The Light" inúmeras vezes durante a execução, isso depois de muito tempo de familiaridade e dois shows em São Paulo, sem contar que sua parte é reduzida. Um momento impagável.

O que temos a partir daí é um legitimo show de Bruce, contando com Chris Dale, seu baixista, e Roy Z, guitarrista companheiro de longa data. "Tears Of The Dragon", o maior sucesso de sua carreira solo, vem um pouquinho diferente da original, com arranjos levemente modificados e peso em maior destaque. Continua ótima, mas ainda prefiro a irretocável versão registrada no apenas mediano "Balls To Picasso", de 1994. Dando seqüência ao seu set-list próprio temos "Be Quick Or Be Dead", que apresentou os maiores problemas tanto no vocal de Dickinson – abaixo do esperado – como no instrumental. Esta poderia ter sido trocada por alguma outra faixa de abertura mais significativa do Iron Maiden, como "Aces High" ou "Where Eagles Dare" (embora, considerando o espírito "festivo" com que entrou, dificilmente seu desempenho em tais músicas seria aprovado). Contudo, "The Evil That Men Do" e "Bring Your Daughter...To The Slaughter" (quando várias fãs tiveram o acesso permitido ao palco) foram quase perfeitas, matando a sede por clássicos do heavy metal. Necessário dizer que a ovação foi total? Até se ele tocasse "Wasting Love", "The Angel And The Glamber" e "Back From The Edge" o resultado seria o mesmo...

Após um aparente final prematuro, todos os músicos voltam ao palco – muita, mas muita gente – e, em clima de festa, Bruce vai para a bateria, abrindo com "Highway To Hell", hino do AC/DC cantado com competência – mas muita sisudez – por Ralf Scheepers. Emendam com "Black Night", clássico do Deep Purple e, após Dickinson ameaçar "Run To The Hills" – cadê Nicko Mcbrain nessas horas? – fecham com "Smoke On The Water", uma das mais lendárias e míticas músicas do rock. Uma jam session privilegiada e de muito respeito, com clássicos escolhidos cuidadosamente e que, sem dúvida, marcaram a vida de todos.

Não há como duvidar que a "Execution Tour" consagrará Renato Tribuzy em nosso país. Seu desempenho vocal é ótimo e sua performance de palco também, estando no ápice da carreira, sem escorregar em nenhum momento.

Se ele teve o cacife de conquistar respaldo de tantos músicos respeitados, créditos para ele, pois os utilizou da melhor forma possível e produziu um dos melhores shows de heavy metal do ano.

As expectativas para o próximo trabalho são altíssimas, e ele sabe disso. Tomara que nos brinde com outra obra desta magnitude. Competência é, definitivamente, o que não falta.

Set-List:
01 – Aggressive
02 – Divine Disgrace
03 – Forgotten Time
04 – Nature Of Evil (Sinner)
05 – Absolution
06 – Final Embrace (Primal Fear)
07 – Execution
08 – Beast In The Light
09 – Tears Of The Dragon (Bruce Dickinson)
10 – Be Quick Or Be Dead (Iron Maiden)
11 – The Evil That Men Do (Iron Maiden)
12 – Bring Your Daughter...To The Slaughter (Iron Maiden)
13 – Highway To Hell (AC/DC)
14 – Black Night (Deep Purple)
15 – Smoke On The Water (Deep Purple)



Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Andre Matos: covers de Iron e Manowar com Dreadnox e Tribuzy em 1995Andre Matos
Covers de Iron e Manowar com Dreadnox e Tribuzy em 1995

Heavy Metal: 50 lições para ser um vocalista brasileiro do gêneroHeavy Metal
50 lições para ser um vocalista brasileiro do gênero


Punk Rock: seja feio, beba muito, e nunca penteie o cabeloPunk Rock
Seja feio, beba muito, e nunca penteie o cabelo

Metallica: Veja como fica seu nome com o formato do logo da bandaMetallica
Veja como fica seu nome com o formato do logo da banda


Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

Mais matérias de Maurício Gomes Angelo no Whiplash.Net.