"Com o Angra é assim: ou você ama ou você odeia!"
Resenha - Angra (Claro Hall, Rio de Janeiro, 22/01/2005)
Por Rafael Carnovale
Postado em 22 de janeiro de 2005
"Com o Angra é assim: ou ama ou odeia!". Essa frase passou a fazer muito sentido para mim após o show do Angra no Claro Hall. Não pode-se questionar que a banda vive um excelente momento, com uma formação establizada e entrosada, e que os cd’s lançados ("Rebirth", "Hunters and Prey", "Live in São Paulo" e o recente "Temple of Shadows") são produtos de alta qualidade. Mas fato é, e atire a primeira pedra quem duvida disso, que ao vivo a banda sofre exatamente por ser eclética e investir em tantas misturas dentro do heavy metal. Antes de começar a me ofender, leia o que está escrito abaixo! ;)
Cerca de 2000 fãs compareceram ao Claro Hall num sábado quente e depois chuvoso, público de certo modo surpreendente pelo fato do show ter sido marcado em cima da hora (foram menos de 10 dias de divulgação plena) e se lembrarmos que a banda tocou a menos de dois meses no Rio de Janeiro, para um Canecão superlotado. Mas o público pareceu nem ligar para tal fato, e a promessa de um show especial motivou vários fãs a repetirem a dose. Este show foi organizado pela Rádio Cidade no Rio de Janeiro e pela 89 FM em São Paulo, num evento que tende a se repetir periodicamente, com bandas convidadas, sendo o Angra a primeira destas.
Pois bem. O show estava marcado para as 22:30. Passava das 22:45 quando as luzes se apagaram e uma música infantil começou a soar no Claro Hall. Era nada mais nada menos que o tema do Guerreiro "Daileon", do seriado japonês Jaspion. Reações diversas foram notadas entre os fãs: alguns riram, outros aplaudiram e alguns até vaiaram a "inusitada" musiquinha, que deu lugar a duas "intros": "Gate XIII" e "Deus Le Volt"... cá entre nós... sempre fui contra "intros" com mais de dois minutos, e essas extrapolaram o limite.
Passado o momento atmosférico do show, abrem-se as cortinas e vemos que o Angra trouxe tudo o que tinha direito a nível de produção de palco: pano de fundo, luzes, fumaça, decoração... ou seja, a banda fez por onde para justificar um grande espetáculo, e merece parabéns por isso. Os integrantes entram em cena e "Spread Your Fire" é executada, (sem os vocais de Sabine, do Edenbridge). "Waiting in Silence" vem na sequência, com um Edu Falaschi inspirado, com bom cotrole de sua voz, seguida por "Acid Rain"e a antiga "Nothing to Say". Vale citar que a banda, apesar de estar tocando pela primeira vez no Claro (modestamente a melhor casa de shows do Brasil) mostrava-se totalmente a vontade, com uma performance magistral. Edu de fato tem problemas para atingir os tons mais altos, mas não faz questão de esconder tal situação, ou tentar contorná-la. Já Rafael e Kiko são os guitarristas competentes de sempre, com Kiko sendo o "axeman" e Rafael o cérebro que cria todo o conceito por trás da banda. A cozinha de Aquiles e Felipe (que tem uma presença de palco discreta, mas se mostra um grande baixista) é precisa, e por sinal Aquiles estava em noite de gala, embora umas atravessadas possam ter sido notadas.
"Carolina IV" é tocada em sequência, na íntegra (com um belo jogo de luzes em verde e amarelo), e dá início ao grande problema de todo show do Angra: apesar de músicas bem feitas (e muitíssimo bem executadas), como "No Pain for The Dead", "Angels and Demons", "Wishing Well" ,"Millenium Sun" e "Late Redemption" (sem Milton Nascimento), tal momento mostra-se cansativo, devido ao excesso de virtuosismo e o nível intrincado das composições. São muitas passagens lentas e acústicas em demasia. Uma música mais reta, mais pesada, colocada no meio dessa sequência seria muito bem recebida. Mas não posso criticar a performance da banda, e nem a recepção da platéia, que cantava cada trecho de cada música. Mas para os fãs mais tradicionais é quase um suplício aturar uma sequência de músicas mais lentas como essas.
Para quebrar o tédio a banda emenda "Angels Cry" e volta ao momento cansativo com "Heroes of Sand" (que Edu dedicou aos soldados brasileiros que estão em missão no Haiti), e executa com muito talento "The Shadow Hunter" (com Edu vestido como um cavaleiro mascarado... alguém falou ZORRO???). "Rebirth" vem em seguida e a sensação de tédio novamente se apresenta, sendo aliviada por uma excelente "Temple of Hate", que fecha o "set" regular.
O primeiro "bis" é o mais conhecido de todos, já que os fãs já vinham pedindo "Carry On" desde o começo. A grande surpresa ficou para "Nova Era", que já se tornou um clássico da nova fase do Angra e que não perde em nada para o mateial antigo. Com a platéia nas mãos e vontade de demolir a casa, a banda executa um confuso "medley" instrumental de músicas do Pantera (com Edu nos bastidores grunhindo de maneira cômica), que só vale pela homenagem, seguida de uma versão bem interessante de "Sad But True", e fechando com uma execução apenas "mediana" para "Hallowed Be Thy Name" do Iron Maiden.
Se eu disser que foi um show ruim, estarei sendo injusto com uma banda que chegou ao seu ápice de novo, com um conjunto invejável e que se preocupou em fazer o melhor show possível, superando em muito (segundo opiniões colhidas no Claro Hall) o show anterior no Canecão. Mas novamente eu ressalto: a característica do Angra, de mesclar elementos ao seu heavy metal, torna parte de suas músicas um tanto cansativas, e o repertório precisa ser mais bem cuidado, mais bem elaborado. Eu diria que faltou estratégia no repertório. Mas foi um grande evento, e a banda merece parabéns pelo atual momento que vive. Essa nova formação (que de nova não tem nada) não precisa mais provar nada para ninguém, e garantirá muito futuro aos fãs do Angra. Mas duas horas e meia de show é dose prá "Daileon", quer dizer... leão!!!
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