Resenha - Capital Inicial (Alto da Serra, São Bernardo do Campo, 23/03/2003)

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Por Leandro Testa
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O reduto country Estância Alto da Serra mais uma vez foi tomado por um público um tanto diferente do que “está acostumado”; porém, desta vez, com um núcleo não tão saudosista como o foi quando o Creedance Clearwater Revisited veio ali fazer um show histórico.
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A atração da noite foi precedida de dois ou três conjuntos que esquentaram a galera mais hardcore, a exemplo de quando o Barba Trio iniciou seu set com “Killing in the Name” do RATM. Aliás, apesar de terem se apresentado na parte coberta, “aquecer-se” era necessário, pois a insistente garoa parecia querer arruinar os planos de quem desejava se aproximar do palco principal.

Felizmente, os chuviscos deram uma trégua e a aglomeração à frente do elevado se intensificou quando as luzes deram indícios de que o Capital Inicial estava por vir. E chegaram bem, musicalmente falando, abrindo com “220 volts”, mas pecaram por não terem feito uma entrada mais triunfante... Simplesmente vieram andando, cada qual pegou seu instrumento, sem se beneficiarem da máquina de fumaça que estava disponível. Alguém deve ter esquecido de avisar-lhes que aquela não era uma turnê do disco acústico...

Não obstante, tão logo havia começado, o carismático Dinho Ouro Preto tinha as fãs em suas mãos, porque a multidão predominantemente feminina cantava com afinco o empolgante refrão de “Algum dia”, logo emendada com “À sua maneira”, certamente a mais conhecida até então. O pique do início deu oportunidade ao vocalista para conversar com a multidão, e foi assim que ele começou a se divertir, desferindo seus típicos palavrões, mais engraçados do que ofensivos, aumentando ainda mais o sorriso estampado no rosto. Disse ser um prazer tocar “em casa” e alertou aos presentes que se preparassem “para uma longa noite de rock ‘n roll”.

Bem, isso não aconteceu logo em seguida, pois lá vieram “Tudo que vai” e “Eu vou estar”, mencionando nesta o nome duma antiga amiga de colégio, Zélia Duncan... Depois, aproveitou para fazer uma média com os municípios adjacentes, felicitando os moradores do ABC, já que ali “é o berço do rock ‘n roll brasileiro”, com “as cidades mais rockeiras do Brasil”, lembrando de grandes momentos em Santo André, no Clube Aramaçan.

Muito se falou em “rock”, mas o Capital precisava mostrar serviço, e ele talvez veio na forma de “Quatro vezes você”, um sucesso atual contraposto por uma das antigas, "Fátima", rememorando “uma das primeiras bandas de punk” por estas terras, o Aborto Elétrico e “o incomparável Renato Russo”. Fizeram um andamento ‘slow-motion’ de sua versão “O passageiro”, com direito a uma viagem “Jim Morrison” de Dinho, misturado com Ney Matogrosso (he, he) e imagens bem ligadas ao tema sendo projetadas nos três telões ovais.

Mantendo a face calma, e tendo o baterista Fê Lemos mais próximo da pista, mandaram a grudenta “Cai a noite”, seguida da frase “chega de balada!” e do mais novo vídeo-clipe, “Mais”. O violonista Fred Nascimento veio à passarela, para anunciar a contagiante “Todas as noites”, e, adiante, desenterraram outra dos primórdios, a autêntica punk “Veraneio Vascaína”. Tocaram depois outra composição de Pit Passarel, “O mundo”, e “Tudo é possível” antecedeu a vinda já esperada do parceiro Kiko Zambianchi para a execução de “Primeiros erros”, “Independência” e o hino de um outro grupo brasiliense, “o maior de todos os tempos”, com “Que país é este”, não sem que antes, Dinho desse nome aos bois, execrando aqueles que afundam a nossa nação. Deni Conceição veio ao local de destaque e detonou com força sua percussão, enquanto a geral delirava ao som da Legião Urbana.

“Natasha” chegou acompanhada de uma boneca inflável gigante, que um roadie ficava balançado, para dar a idéia de que a protagonista estava dançando (coisa que o Bon Jovi há tempos já fazia, mas antes ainda idealizada pelo Pink Floyd, com seu porco). Foi dada ali a despedida, os votos de vida longa ao estilo, e os mais desavisados, desconhecendo a existência de uma coisa chamada ‘bis’, foram se retirando do recinto. Em seu curto intervalo nem deu pra curtirem um cigarro inteiro, e voltaram com a cover “Other Side” do Red Hot, ao contrário do que os espectadores, digamos, mais “ligados à área” haviam pedido, com o coro “Hey! Ho! Let’s Go”, já que o guitarrista palmeirense Yves Passarel esteve o tempo todo trajando uma camiseta do Ramones.

Finalmente, para encerrar, a clássica “Música Urbana”, na qual apresentaram todos os integrantes, enquanto o baixista Flávio Lemos, beneficiado pela equalização de seu instrumento sempre muito audível, segurava a barra com a inesquecível marcação de “Running Free” do Iron Maiden. Dinho, que é são-paulino, incitou os torcedores futebolísticos a gritarem repetidamente “Uh! 2ª divisão!”, quando chegou a vez do fanático homem das seis cordas, a fim de provocá-lo.

Terminava assim o desfile de simpatia, interação, energia e uma coleção impressionante de hits, tanto velhos como mais recentes, sendo a única reclamação, unânime, a ausência da indefectível “Fogo”. Eu, na qualidade de conhecedor do trabalho de Yves, poderia até querer “um pouco” mais, como, por exemplo, que ele entoasse o Theatre of Fate (Viper) na íntegra (nota: como se isso fosse possível...), mas uma “Mickey Mouse em Moscou” já estaria de bom tamanho...

Recomendo, pois vale a pena assistir ao Capital.

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