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Bo Diddley: Já beirando os 73 anos de idade, ainda uma lenda

Resenha - Bo Diddley (The Bottom Line, Greenwich Village, 08/09/2000)

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Por Márcio Ribeiro
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A noite começa com uma agradável surpresa, a banda de Nova Orleans, Royal Fingerbowl. Um trio que se apresenta de terno e gravata e mais parece uma turma de executivos tirando um sarro como músicos. Isto é... até eles começarem a tocar. Depois de apresentar nove músicas, cerca de 40 minutos de show, a banda agradece, anuncia a estrela da noite, Bo Diddley, e sai.

Entre um show e outro, há um espaço ocioso de cerca de meia hora. A banda entra, anunciada como The Debby Hastings Band, e começa logo com a canção "Let The Good Times Roll." A imagem desta banda está longe daquela que se espera que acompanharia um negão que escreve canções que falam de proezas sexuais. Todos os membros são brancos, com a Debby Hastings tocando um baixo Fender vermelho e branco, de óculos e com um corpo grande de professora primária. Embora bem vestida, não instiga a libido de ninguém. Ela acompanha Bo desde 1987 e é o membro mais antigo desta formação. Do lado oposto do palco, pilotando, além de um Kurzwell PC88, um orgão de verdade (não aquelas coisas japonesas de plástico), com direito a uma caixa Leslie só para ela, está a talentosa Margo Lewis. Margo, que foi empresária de Bo em 1965, passou a tocar na sua banda a partir de 1998 e mais parece uma diretora de escola ou secretária do coordenador, fugindo totalmente do estereótipo de uma banda de boogie e blues. Na guitarra, um sujeito em típica roupa de cowboy, só faltando o chapéu, o ágil e simpático Jon Paris. No fundo, na bateria, Yoshi Shimada, que como Paris, está com Bo desde 1998.

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Dentro da letra de "Let The Good Times Roll" adicionam um verso que fala sobre a estadia de Bo Diddley na cidade, e a galera toda aplaude. Ao final do número sobe ao palco o homem, a lenda, o marco em pessoa, Mr. Bo Diddley, e o público de idades variadas se levanta para aplaudir. A casa, que comporta cerca de 400 pessoas, embora não estivesse lotada, estava cheia. Sua guitarra quadrada é um espetáculo em si: cor de cerejeira, com dois captadores e quatro reguladores para cada um, e aqueles quatro botões tradicionais que toda guitarra tem, além de outros botões no topo e no fundo do pitoresco instrumento.

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Bo, como sabem, é o primeiro artista a ter uma guitarra em formato alternativo, desde sua primeira guitarra quadrada, a sua guitarra com rabo de foguete. Em 1986 Bo subiu no palco com uma guitarra vermelha, quadrada, com diversas lampadinhas avermelhadas (leds) piscando seu nome. Esta guitarra, cheia de decalques colados, é uma de suas peças menos extravagantes. Bo utiliza a assistência de dois pedais. Vestido de preto, com uma camisa de cowboy ultra brilhante e um chapéu, ele sorri enquanto a banda já entra na sua famosa batida, o "Bo Diddley Beat", e entra logo na sua canção-apresentação, "Bo Diddley." E o público berra junto: "Hey! Bo Diddley! Oh! Bo Diddley!"

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Segue um tema mais suave, onde Diddley mostra que sua voz também serve para temas sentimentais, com sua guitarra agora apresentando mais reverb, soando dócil. Bo começa então com a pulsante "Judge Judy", onde ele brinca com uma letra que mistura legalidade e sexualidade. Pede a todos para ficar em pé e acompanhar batendo palmas e dançando.

Diddley, já beirando os 73 anos de idade, dá uma parada e passa a conversar com o público. Conta sobre sua ida para a França e sua surpresa em descobrir lá banheiros unissex. Diz brincando que sua batida é o "Bathroom Stomp", pois quem está apertado esperando a vez na fila do banheiro, geralmente fica dando pulinhos no mesmo lugar, e que seu ritmo vem destes movimentos.

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Alguém da platéia pede a canção "Pills" e Bo confessa que esqueceu a letra. "Eu tenho que esquecer essas coisas para abrir espaço para as novas. Afinal, minha cabeça não fica maior." Diddley continua explicando que escreveu "Pills" quando quebrou a perna esquerda no Brooklyn. No hospital, a sua maior lembrança é uma enfermeira portando uma seringa com uma agulha enorme, periodicamente avisando que estava na hora. Então ele canta um pedaço inicial da música, incluindo um palavrão que a versão conhecida não contém. Com todos ainda rindo, Diddley ataca com os primeiros acordes de "Road Runner," rock de sua autoria que já foi regravado muitas vezes por diversos artistas. Segue então com "I'm A Man", talvez uma de suas composições mais conhecidas. Ele inclui dentro da versão um pequeno teatro com a sua guitarra e a de Paris "conversando" sobre a baixista, como que dois caras falando sobre a menina presente, e ela, por sua vez, também com seu baixo, dá algumas "respostas". A versão termina com um excelente solo de órgão, realçado pela oscilação na caixa Leslie que nos é oferecido por Margo Lewis. Novamente sou tomado pela ironia desta musicista mais parecer uma organista de igreja metodista do que alguém mandando bala em um solo para uma música como "I'm A Man".

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A noite termina com "My Old Lady", onde Diddley canta/conversa, como quem esta discutindo com sua mulher. Em determinados momentos da música você percebe de onde surgiu o estilo "rap". O homem fez de tudo e com duas décadas de antecedência! Hey! Bo Diddley! A banda continua tocando enquanto ele deixa o palco; a platéia, novamente de pé, se despede de uma das poucas lendas vivas, ainda cheia de bala. Hey! Bo Diddley!

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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