Retromania: sinal de esgotamento no metal?

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Por Paulo Severo da Costa
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"Me preocupa a curiosa lentidão com que avança essa década" (TIM FINNEY sobre a música dos anos 2000).

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Em 2011, Simon Reynolds lançou a obra (sem tradução nacional), cunhada "Retromania: o vício do pop em seu próprio passado". Para quem está familiarizado com a composição analítica desse crítico, sabe que Reynolds, em uma teia interdisciplinar, traça perfis sistêmicos sobre os fenômenos os quais se propõe a escrever- entrelaçando antropologia, sociologia, historiografia e filosofia como fios condutores de suas análises. Logo no primeiro parágrafo, o autor se vê as voltas com o seguinte recorte:

"Vivemos em uma era em que há um movimento intenso pelo retrô e repleta de um espírito de comemoração em torno disso. Bandas que voltam em turnês de reunião, álbuns tributos e lançamento de catálogos comemorativos, festivais de comemoração ao aniversário do álbum X e concertos de discos clássicos na íntegra: cada novo ano é melhor do que o anterior para consumir música de ontem".

Dias atrás, por curiosidade, procurei saber quais as bandas de hard/metal mais acessadas em sites especializados no mundo. Com pequenas variações de posição, GUNS, METALLICA, IRON MAIDEN, BLACK SABBATH, MEGADETH, aparecem sempre nos cinco primeiros postos. Entre as dez primeiras posições, nenhuma banda com menos de trinta anos de carreira. Por outro lado, nenhuma banda (partindo da concepção de um senso mais próximo à unanimidade) que tenha lançado um álbum tido como "clássico" nos últimos vinte anos. Há quatro anos atrás, eu mesmo publiquei uma resenha (Slash- a guitarra que gentilmente chora -24/07/12), em que começava dizendo: "Confesso uma coisa: estou ficando velho e cada dia mais chato. Sabe aquele tipo "não vi e não gostei": pouco interessado em saber qual o último lançamento de uma banda inglesa de "indie qualquer coisa" ou o derradeiro trabalho de uma das "atrações" do último Rock In Rio. Meus assuntos começam em bandas que tenham no mínimo vinte anos e no meu perfil está escrito que eu não dou a mínima para as críticas - ou seja- sou um chato". Afinal, somos nós os saudosistas ou o cenário anda realmente desolador?

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"A palavra retrô tem um significado específico: se refere a um fetiche autoconsciente pela estilização de um período que se expressa criativamente através de um pastiche ou de uma citação", explica REYNOLDS. Ocorre que, no caso, não estamos falando propriamnte de um revival de metal oitentista ou do blues rock dos anos setenta- estamos falando de bandas que ainda existem, continuam em atividade, continuam como headliners; mas cuja idéia de passado parece atrair mais a coletividade do que seus feitos recentes. Faça uma pesquisa rápida e constate o número de citações e resenhas referentes a "Master of Puppets (o disco)" x "Load", "The Number of The Beast" x "A Matter of Life and Death"; compare o número de acessos à matérias atuais sobre CLIFF BURTON em contraste com a mais recente declaração de COREY TAYLOR, repare quantas vezes o SCORPIONS ou OZZY fizeram a tour de despedida ou quantos regressos de bandas houve nos últimos anos.

"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente", disse Mario Quintana. Ao contrário de outros estilos (sempre ávidos por novidades que, em esmagadora maioria de vezes, independe de qualidade), fãs de jazz, blues, choro, rock n'roll são, segundo se possa deduzir (sem pretensões elitistas ou qualquer traço de cinismo), apegados às eras douradas: Invasão Britânica, Krautrock, NWOBHM, Pós-punk, Grunge, são rótulos em que engarrafamos nossos ídolos e gostamos de pensar neles assim: cristalizados, energéticos, jovens em seus auges. O espectador vai ao no show do JUDAS e ainda "vê" o HALFORD de "British Steel"; o hoje fã (que mal havia nascido quando o GUNS com SLASH e DUFF se esfacelou) vibra com a volta de algo com o qual ele nunca teve contato; fãs do PANTERA sonham com uma volta (!) - mais do que isso: esperam algo que supere a fase de "Cowboys From Hell a Far Beyond Driven".

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A respeito disso, pode-se teorizar sobre uma hipótese: as lacunas não estão sendo preenchidas. Depois da primeira fase do metal até o início dos anos 90, houve uma certa "sucessão": de HENDRIX a DIMEBAG DARRELL, de DIO a DICKINSON, de KEITH MOON a SCOTT TRAVIS. Após isso, houve um esgotamento criativo inevitável seguido- aí sim- de uma retromania (no pior sentido) com guitarristas no YouTube copiando nota a nota os solos de RANDY RHOADS (ou pior: acelerando-os à enésima potência sem nenhum critério) ou vocalistas tentando emular ROBERT PLANT: ou seja," caras-que-acabaram-criando-bandas-que-não-criaram-nada-de-novo". E assim, como em um loop infernal, vemos o aparecimento de bandas cada vez menos criativas (pra não dizer horríveis, de um modo geral), enquanto rezamos por um segundo bis com "Run To The Hills"e pagamos qualquer valor pela vigésima turnê de "adeus"de alguém.

Em prefácio a "Barulho Infernal: A História definitiva do Metal", SCOTT IAN disse: "As histórias desse livro abrangem mais de quarenta anos de metal e me dão a mesma empolgação boba adolescente que tenho quando estou no palco, olho para o público e percebo que eles estão sentindo a mesma coisa, independentemente se a pessoa tem 14 ou 15 anos (...) é isso que torna o metal tão especial- não importa o quanto você envelhece você nunca cansa dele". A minha pergunta é: e depois que os velhos se forem?




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Sobre Paulo Severo da Costa

Paulo Severo da Costa é ensaísta, professor universitário e doente por rock n'roll. Adora críticas, mas não dá a mínima pra elas. Email para contato: [email protected]

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