Neil Young: o trovador de alma punk
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 01 de outubro de 2016
'Trovador: que ou aquele que divulga, cantando ou declamando, poemas próprios ou alheios .'
NEIL YOUNG, a respeito de seu processo de composição, disse: 'Algo vem junto e você tem que entrar dentro e fazê-lo. Você não pode parar até que seja feito.' Representante de uma geração pós (ou ainda) pré-apocalíptica, foi um domesticador de palavras; um homem que, a seu termo, refletiu cada época vivida e, em um indomável gênio, converteu a angústia de seu tempo, em um compêndio de cinquenta anos de carreira; isso tudo em meio a insatisfação e angústia que transformariam o jovem DYLAN em um zangão polinizador e transformaria um pensador ainda em formação como LENNON em um crítico audaz (mas sublimático) de sua própria época.
Quando questionado em uma das edições de 'That Metal Show', qual seria o maior representante do metal canadense (fora o RUSH), SEBASTIAN BACK, foi enfático: 'NEIL YOUNG'!. Questionado a manter o debate entre o heavy/hard rock foi categórico: 'Ninguém é mais metal que NEIL YOUNG'. Detentor de uma discografia inominável (em termos classificatórios) , YOUNG transitou entre o folk / Hard /noise com a fluência de RIMBAUD na literatura: duro, áspero, apartidário ( mas nunca apolítico), destrinchou os dilemas de uma sociedade pluricultural, trazendo em seu bojo a falência de um sistema que procurava uma utopia igualitária entre entes desiguais.
' Naquela época, as pessoas fecharam os olhos e ouviam música. Hoje há um monte de imagens que vão com a música. Muitas dessas músicas são uma porcaria , tudo comercial e as imagens estão todas tentando vender o registro', declarou no início dos anos 80. YOUNG entendia a anacronicidade de registros clássicos como 'After Gold Rush', quando as preocupações se transferiram de um Vietnã que tentava ser politizado, para uma era 'american dream' proposta pela volta do 'espírito americano' de REAGAN. Imbuído de um espírito presencial (e, portanto, atento), o canadense via a transferência cultural de um status libertário da geração hippie para um modelo liberal e ultra consumerista da geração yuppie. Como em elo inquieto entre gerações, YOUNG traduziu (e, porque não dizer, prenunciou), a transmutação da mensagem intelectualizada (mas digerível) da contestação para o conformismo imperante das últimas décadas.
Em resenha recente ( a respeito da controvérsia envolvendo a composição de 'Broken Arrow de 1966), afirmei: 'Duas coisas sobre NEIL YOUNG são axiomáticas: ele é tão genial quanto difícil. Antes do segundo registro do BUFFALO SPRINGFIELD, YOUNG surtou e abandonou o barco: "Eu estava ficando louco: amávamos e nos odiávamos o tempo inteiro. Comecei a me sentir como se não tivesse que responder ou obedecer a ninguém. Eu precisava de mais espaço'. Entretanto, antes das gravações, o canadense voltou a banda (de onde sairia no ano seguinte), e efetuou o registro, repleto de metáforas sobre confusão e abandono.
Mas como STEPHEN STILLS diria, com ar confessional, tempos depois:"Estávamos da idade em que você pode facilmente adquirir a 'síndrome de diva´ antes de ser efetivamente algo- e foi isso que aconteceu naquela época.' Evidentemente, não retiro uma palavra do que disse: YOUNG não é, (tampouco um dia foi,) uma figura de fácil trato: 'É melhor queimar do que se apagar aos poucos'- frase citada por todo mundo depois dele- externa uma característica gritante em sua personalidade: a naturalização do processo de envelhecimento e que, é válido lembrar que foi conclamada pelo THE WHO quando professou: 'Prefiro morrer antes de ficar velho'. Mas também é válido lembrar que o mesmo, anos depois, proclamava: 'Eu tenho tantas opiniões sobre tudo isso só sai durante a minha música. É uma batalha para mim. Eu tento não ser enfadonho. Isso é um perigo real.' Ótimo: continue perigoso. Como você mesmo disse: 'Quando as pessoas começam a pedir-lhe para fazer a mesma coisa repetidas vezes, é quando você sabe que está muito perto de algo que você não quer estar perto.'
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