Entre o eletrônico e o acústico, brinca a MPB!

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Desculpem-me os fãs de musica tecno, eletrônica, etc, etc, mas acontece que ao mesmo tempo em que sinto uma imensa necessidade de ouvir trabalhos novos, arejados e inéditos (como se isso fosse plenamente possível), também me incomodam alguns recursos tecnológicos modernos como samplers, pro-tools, guitarras sintetizadas e tudo o mais que signifique uma distância maior entre o músico de carne e osso e os instrumentos que o mesmo utiliza.

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Essas premissas fizeram-me adotar um preconceito muito forte em relação à esses gêneros, o que naturalmente me faz torcer o nariz para essa corrente evolutiva da música em geral que, afinal, faz parte da história da cultura ocidental assim como a Internet e o forno microondas. Além do mais, fazer música nova no âmbito da música popular é impossível, como já opinei nesta coluna anteriormente, mas assim mesmo é sempre saudável ouvir as propostas e idéias recicladas de músicos jovens e desbravadores, sejam eles adeptos de uma formação instrumental rústica (e acústica, para fazer trocadilho) ou eletrônica. O mais notável é captar o artista no afã de experimentar, ousar e arriscar, e tais características geralmente se imprimem naqueles que circulam nos selos independentes, e que escapam, felizmente, do "controle de qualidade" (sic) das grandes gravadoras e dos egos inflamados dos próprios músicos, conseqüência de um súbito sucesso e exposição intensos na mídia. Esses dois sentimentos –surpresa por romper um preconceito e satisfação pelo novo-, pegaram-me de cheio quando ouvi o mais recente CD do grupo paulistano de música eletrônica Bojo e da maravilhosa Maria Alcina, "Agora" (Outros Discos, 2004). Se você é daqueles que odeiam qualquer artista que nunca fora rotulado como "roqueiro" e sempre pareceu limitar-se à um só gênero (no caso, MPB de salão ou música carnavalesca), pode mudar de opinião; Maria Alcina não é só aquela cantora de voz grave e trejeitos "a lá Carmem Miranda" que invadiu os palcos de festivais e programas de TV nos anos 70 com a canção "Fio maravilha". É na verdade uma grande artista e uma cantora despojada de preconceitos, cuja voz transcende qualquer limitação, adaptando-se brilhantemente a qualquer estilo de música. O Bojo, por sua vez, está na estrada há 6 anos e partiu dos princípios da música eletrônica sem limitar, no entanto, suas possibilidades criativas apenas nesta esfera. No ponto onde a monotonia e a frieza eletro podem deixar o ouvinte num mundo pintado com cores metálicas, maquinais e repetitivas, o grupo -formado por Maurício Bussab (teclados e voz), DJ Fe Pinatti (efeitos), Kuki Stolarski (bateria) e Du Moreira (baixo)- imprime diversidade e criatividade, jogando aqui e ali com fórmulas melódicas delicadas e um instrumental dividido entre o acústico e o eletrônico ("Nervokalm") e MPB setentista forrada com ritmo quase hipnótico ("Sangue Latino", dos secos & Molhados) e na inspiradíssima "Kataflan", além de outros excelentes momentos. Há, na entonação de Alcina e nas letras do grupo uma ironia fina que jamais beira o exagero ou um deboche agressivo; em algumas faixas o rumo parece ausentar-se um pouco e as batidas tecno persistem, mas nada que comprometa o resultado final, revelador de uma musicalidade exuberante com conseqüências benéficas ao vasto horizonte desenhado entre o primitivo e o moderno no terreno do pop nacional.

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Bem, outro dia um amigo que se dedica a garimpar o mercado de discos independentes me emprestou um CD de uma certa Alda Rezende, uma cantora mineira de voz quente e encorpada como a de Maria Alcina, que lançou, no já longínquo ano de 2001, o álbum "Samba Solto", com apoio da empresa de telefonia de Minas e da prefeitura de Belo Horizonte. O título já diz tudo, ou seja, Alda transita no terreno mais familiar da MPB criada a partir do Clube de Esquina, sem esconder um timbre vocal e um estilo em alguns momentos parecidos com os de Zélia Duncan e Nana Caymmi. A moça tem um vozeirão quentíssimo, de arrepiar! O que me deixou interessado, além deste precioso detalhe, foi o rigor dos desenhos melódicos das canções, coisas fortíssimas como "Movediça" (de Kristoff Silva e Renato negrão) e "O Cego" (Cristiano Vianna e pedro Portella), sem falar das composições emprestadas por John, do Pato Fú ("Ínsistência" e "a Faca"), e a inevitável versão de uma faixa de Milton Nascimento ("Pai Grande"). Os arranjos e execuções instrumentais privilegiam a sonoridade acústica, suave, cheia de sons da natureza, arranjos de cellos, tablas e instrumentos exóticos como ‘unhas de lhama’, sem transformar o resultado em algo linear e monótono como uma produção que simplesmente reproduz texturas sonoras padronizadas, pois cada canção tem sua própria roupagem e clima. Em um ou outro trecho de música, há um solo sombrio e denso de cello ou violino que quebra a doçura do clima, trazendo uma súbita e interessante tensão ao resultado final. Em "Samba do Desenredo", vibrafone e marimba de vidro contrastam lindamente com a voz rouca de Alda e com o ritmo de samba levado pelo surdo e pelo tamborim. Enfim, um fino produto de MPB com arranjos fortes e músicos competentes como o mesmo Kristoff Silva (violões), Décio Ramos (percussões), Daniela Rennó (vibrafone) e a cantora paulistana Ná Ozetti, entre outros. resta conferir se Alda já lançou outros discos e se continuou nesta trilha que se mostrou promissora com "Samba Solto".

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