Ziggy Stardust: David Bowie e a anatomia de uma obra-prima
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 11 de janeiro de 2016
Em sua autobiografia, Morrissey reclamou que hoje é fácil desconsiderar o impacto artístico-comportamental de David Bowie. Androginia e declarações bombásticas acerca de homo/bissexualidade são lugares-comuns em partes do hemisfério norte, mas quando o Camaleão começou a quebrar esses tabus no início dos anos 70, sua rebeldia escandalizou a Inglaterra. Imagine que para a capa de The Man Who Sold the World, seu álbum de 1970, o artista pousou com cabelão comprido – até aí nada demais no universo rock – e vestido, deitado num divã, num cenário super-Pré-Rafaelita. No mundo (aparentemente) macho do Deep Purple e Led Zeppelin isso era um ultraje.
Mas, ainda não era quase nada comparado ao que aprontaria pro álbum seguinte, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972). De cabelos curtos e vermelhos e com visual inédito no planeta Terra, o multimídia inventou uma personagem que o catapultaria ao estrelato e seria o primeiro de uma série de trabalhos e personas que o constituiriam num dos artistas mais influentes do século XX.

O excitante documentário David Bowie & the Story of Ziggy Stardust (2012) radiografa a concepção, execução e os desdobramentos desse feito sociocultural. Muitos reclamam que hoje os artistas são como produtos já em seu estágio final quando chegam ao consumidor, sem tempo para testar ideias e maturar. Bowie levou 10 anos absorvendo elementos - que passam pelo rock dos anos 50, teatro de vanguarda, mímica, ficção-científica, cenário underground gay e tanto mais – utilizados e ressignificados sob forma de tentativa e erro até explodir como um dos vulcões mais criativos e incendiários dos anos 1970.
O programa da BBC entrevistou músicos da banda Spiders from Mars, inventada para o projeto, e artistas como Elton John, Marc Almond e um dos Kemp do Spandau Ballet para atestarem o impacto do álbum. Aprendemos sobre o penteado, as roupas, as canções, suas aparições na TV e também sobre o lado menos bonito da histeria Ziggy Stardust, que iniciou o processo de esquizofrenia cocainada do Camaleão. Para quem se atém à idealização romantizada de que basta ter talento, David Bowie & the Story of Ziggy Stardust traz uma injeção de realidade ao explicitar o papel preponderante que um empresário endinheirado teve em sua ascensão, especialmente quanto à conquista do cobiçado e difícil mercado norte-americano.
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Tomara que a BBC dedique documentários a outros álbuns do Camaleão, afinal, ele passou os anos 70 preparando o terreno para o punk, pra maioria dos artistas oitentistas, pro Britpop e Lady Gaga.
Disponível no You Tube com legendas em espanhol.

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