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Il Cerchio d'Oro: A Itália sempre produzindo excelente rock progressivo

Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 10 de julho de 2018

Il Cerchio d'Oro tem excelente desculpa para soar como rock progressivo italiano dos anos 70: foi formado em 1974, em Savona, e embora tenha sido popular e constante no circuito de shows, jamais conseguiu gravar álbum enquanto o prog rock desfrutava de apreço crítico e (certa) popularidade. Exceto alguns singles, nada de álbum até este milênio e mesmo assim, nada muito interessante, porque o material resgatado da época tem até coisas meio disco music.

O negócio começou a ficar sério e interessante, a partir de 2008, quando um reformado Il Cerchio d'Oro lançou seu primeiro álbum de verdade.

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Il Viaggio Di Colombo é conceitual e foca o percurso marítimo do genovês descobridor de nosso continente, mas não homenageado em seu batismo. Como a ênfase é no longo e desolador período em que os navegantes passam perdidos no oceano, as letras em italiano refletem seu estado emocional, da empolgação do início, passando pelo desespero dos dias à deriva e o agradecimento pelo descobrimento.

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Sonicamente, há equilíbrio entre guitarras e teclados e até espaço pro baixista e baterista, de vez em quando. Embora os arranjos não formem muralha compacta - longe disso, há bastante espaço para respiro - há momentos em que o som fica mais incisivo, mas nunca hard prog ou prog metal. Il Viaggio di Colombo é típico prog italiano dos 70’s, com produção moderna. Tem teclados vintage e atuais e os entremeios das canções são sonorizadas por ruídos de embarcação, assobios e amarras. Tudo bem melódico e com temas bonitos se repetindo, como deve ser num álbum conceitual, onde muitas vezes o instrumental reflete a letra, como a abertura andina da canção final, quando a América já estava no papo dos europeus. Se as canções tivessem menos espaço entre si, a ideia de álbum conceitual reforçar-se-ia ainda mais.

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De modo geral, remete a Le Orme, Genesis, Banco e Gentle Giant, em um momento muito especial de harmonia vocal. O vocalista dá umas espremidas de vez em quando, mas na maioria do tempo apresenta aquela expressividade que sempre destacou o rock progressivo italiano para as plateias anglo-ianque-germânico-escandinavas.

A versão em CD traz duas faixas-bônus. Embora jamais reclamemos de excesso da canções boas, elas não se encaixam ao conceito e mesmo à sonoridade geral do resto. Mas, como enjeitar duas plangentes composições na linha de Pink Floyd e Moody Blues? Basta lembrar que Il Viaggio di Colombo termina em Conclusione (Il Ritorno)

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Em 2013, o quinteto voltou com Dedalo e Icaro, oito excelentes faixas sobre o mito grego do construtor do Labirinto e de seu filho que quis acercar-se demais ao sol e espatifou-se contra o solo. Movendo-se da História para a mitologia, os italianos estão mais prog setentista do que nunca, tanto em som, quanto em tema.

Dedalo e Icaro tem arranjos bem mais concentrados do que seu antecessor. Sem ser prog metal ou mesmo metalizado, guitarras e teclados podem ficar apimentados a ponto de agradar fãs de grupos como Osanna e talvez até Deep Purple. Contando com convidados que tocam sax, flauta e bandolim, Dedalo e Icaro praticamente não tem como errar em seduzir fãs de rock progressivo italiano. Que fã de prog clássico consegue resistir a Uma Nuova Realtá, com seu órgão delirante em interplay com guitarra e bateria?

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Il Cerchio d’Oro foi fundado pelos irmãos Gino e Giuseppe Terribile, respectivamente baterista e baixista, então, apesar de teclados e guitarras chamarem mais a atenção do ouvinte casual, a força condutora está na cozinha. E que cozinha! Note como em Labirinto, a coesão é dada pela costura do baixo e que em La Promessa, há locomotiva baterística por detrás das aparecidas guitarras plangentes e órgãos vintage.

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Il Cerchio d’Oro é caprichoso em tudo, inclusive, nas capas, verdadeiras obrinhas de arte do prog contemporâneo. São miniquadros marcantes e no álbum do ano passado, Il Fuoco sotto la Cenere, não foi diferente, com o vermelhão do fogo brilhando na capa.

Embora não possua tema unificador tão óbvio como a viagem colombiana ou o mito cretense, Il Fuoco sotto la Cenere (O Fogo Sob as Cinzas) é sobre várias formas de violência contemporânea, disfarçadas/camufladas/adormecidas/politicamente e corretamente edulcoradas, mas que quando eclodem, espalham brasa pra todo lado.

Bem executadas, as sete canções não se destacam em seus todos, contendo passagens e momentos interessantes, funcionando mais como pop-rock progressivo, com trechos meio pesadinhos à Purple ou psicoprog à Floyd.

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A faixa-título tem mais de nove minutos, mas fica sinfonicamente prog apenas depois do oitavo minuto. Aí está o chave: Il Fuoco Sotto La Cenere não é pra fãs de prog sinfônico; é mais para admiradores de retro-prog ou prog eclético, talvez para os de hard prog. De volta à faixa-título, está é para os cinquentões que porventura ainda se lembrem da abertura do seriado da Mulher Maravilha: notem como a melodia final se parece com o tema de Diana Prince!

I Due Poli ensaia clima meio sci fi com seus teclados e o teremim sempre dá ar outromundista.

Com composições menos sensacionais, as limitações esganiçantes dos vocais ressaltam, então Il Fuoco fica ainda menos interessante.

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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário e edita o Blog do Albino Incoerente desde 2009.
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