O álbum que é uma obra-prima tanto para Jimi Hendrix quanto para Kate Bush
Por Bruce William
Postado em 06 de dezembro de 2025
Na segunda metade dos anos 1960, os Beatles decidiram que não precisavam mais se preocupar em reproduzir ao vivo tudo o que gravavam em estúdio. Livres das turnês, se permitiram experimentar arranjos, efeitos e conceitos sem pensar se aquelas músicas caberiam num palco. Dessa fase nasceu um certo disco em que eles se inventam como uma banda fictícia, com direito a uniforme colorido na capa e repertório pensado como um grande espetáculo imaginário.
O resultado foi "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", rapidamente apontado como um dos pontos altos da história do rock. O curioso é que, enquanto muita gente lamentava o fato de aquelas canções nunca terem sido tocadas pela própria banda em turnê, outro guitarrista resolveu encurtar o caminho: poucos dias após o lançamento, Jimi Hendrix já estava abrindo um show com a faixa que inicia o álbum.

Na plateia daquela noite estava ninguém menos que Paul McCartney. Anos depois, ele lembrou com carinho do impacto de ver Hendrix atacar logo a música-título, recém-chegada às lojas. "Jimi abriu o show", recordou. "As cortinas se abriram e ele entrou tocando 'Sgt. Pepper', e o disco tinha sido lançado na quinta-feira. Aquilo foi o maior elogio possível."
Paul contou que ficou especialmente impressionado com a rapidez com que Hendrix incorporou a composição ao repertório, sem esperar testes ou ensaios longos, relembra a Far Out. "Ele devia estar muito envolvido com aquilo, porque normalmente você leva um dia pra ensaiar e ainda pensa se vai colocar a música no show", disse. "Eu encaro aquilo como uma das grandes honras da minha carreira. Tenho certeza de que ele não pensava assim, mas, pra mim, foi um baita empurrão."
Décadas depois, outra artista de perfil bem diferente confirmou o peso daquele mesmo disco. Ao comentar qual era seu álbum favorito dos Beatles, Kate Bush apontou justamente "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", definindo o trabalho como um "álbum de músicas excelentes". No caso de Kate, faz sentido imaginar que não foram só as canções isoladas que chamaram atenção, mas também a forma como tudo se encaixa num "teatro sonoro": personagens, clima, encadeamento de faixas.
Anos depois, ela própria lançaria discos com estruturas narrativas bem definidas como "Hounds of Love", em que o lado B é uma pequena história sobre uma mulher perdida no mar. A liberdade criativa que os Beatles buscaram em "Sgt. Pepper" virou referência para quem quis usar o estúdio como espaço para contar histórias de jeito diferente.
Entre a guitarra incendiária de Hendrix prestando tributo em tempo recorde e a admiração cuidadosamente declarada de Kate Bush, o mesmo álbum aparece, em duas gerações distintas, como exemplo de obra que vai além do pop de rádio e permanece na cabeça de quem vive de fazer música. Quando artistas tão diferentes param no mesmo disco e o chamam de obra-prima, fica mais fácil entender por que aquelas faixas de 1967 ainda são revisitadas, estudadas e regravadas tantos anos depois.
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