Jason Becker: Uma estrela que ascendia como um mito

Resenha - Jason Becker - Perpetual Burn

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Por Rodrigo Contrera
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Quem tem acompanhado meus artigos sobre bandas e artistas do rock, assim como outros mais experimentais, deve ter percebido o quanto dedico de minha subjetividade para "analisar" cds que já ficaram para a história, especialmente a daqueles que começaram a curtir rock seriamente a partir dos anos 80. Pois eu viso, de forma consciente, por meio desses artigos, desentranhar subjetividades amarrotadas com o tempo e dar uma satisfação a meus gostos pessoais - que não só meus - para, a partir disso, olhar para a frente (o que venho conseguindo). Porque, se há alguma coisa que as primeiras obras de um Marty Friedman, de um Tony Macalpine, e de bandas em seus primórdios, como o Iron Maiden, fizeram em mim foi estabelecer critérios de gosto que balizariam todos os meus anos seguintes. Esses critérios eu quero trazer à tona, para daí sair e velejar.

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Pois agora me meto a comentar sobre a primeira obra solo de Jason Becker, Perpetual Burn, que - vim saber depois - veio depois de Cacophony, aquele experimento em que ele se meteu com o Marty já citado. Perpetual Burn, Queima Perpétua, que eu entendia - até há muito pouco - como Nascimento Perpétuo (erradamente), foi uma daquelas fitas k-7 que mudaram minha vida. Lembro-me bem de quando eu a ouvia sem parar no meu gravador de mão e de como imaginava aquilo a que ela se referia, com essas músicas estranhas, que andam e param sem parar, com influências claras de uma música erudita distante, mas também com um pé no brega e outro no rock mais pesado. Pois esse caráter anfíbio me subjugava, me fazia crer que era possível, e me fazia subentender uma música clássica que eu mal conhecia - e na qual iria depois, em obras mais alentadas, navegar.

Naquela época, eu buscava referências que pudessem me nortear musical e existencialmente. Porque eu já havia sido influenciado por diversos gêneros, desde a infância e passando pela adolescência, mas o que eu sentia é que não os havia ENTENDIDO. Por exemplo, hoje lembro de quando eu ouvia referências inescapáveis do Motown ou da era Disco. Mas era curioso que eu parecia não havê-las realmente compreendido. Não entendia em que medida o Motown significava uma revolução na indústria musical norte-americana, nem em que medida o Disco significava uma revolução de excessos. Nem conseguia fazer um link com o panorama comportamental e político, por exemplo. Tudo eram músicas isoladas, que faziam sucesso em mim pelo seu próprio mérito musical, e apenas isso. Já o rock eu já o compreendia parcialmente, por meio de bandas de rock como AC/DC e Scorpions, mas ele realmente só veio a me pegar integralmente pelas mãos do Iron Maiden, com suas histórias recentes e antigas, com sua remissão a mitologias que tinham um forte pé na realidade, com seu link com filmes e poemas, por exemplo. Mas não havia ainda, musicalmente falando, algo que me pegasse forte sob o prisma de minha atração pela música erudita, pelo rigor que ela assume, e por sua qualidade. Esse link eu iria pegar com os neoclássicos, como é óbvio. Mas com Jason era diferente.

Jason tocava bonito mas também fazia questão de não fazer isso. Abusava nos teclados para criar clima, em certas faixas, mas também insistia em não assumir-se nada simpático em faixas que abusavam de notas que não eram solos. Porque nele pareciam não existir os solos, tais como os entendemos. Nele, tudo era uma pegada só, em que notas se acavalavam tentando atribuir um outro ar àquilo que estava sendo dito. E seus temas eram realmente estratosféricos (afirmo isso quase formalmente), no sentido de se referirem a sensações ou fatos corriqueiros, como Altitudes e Ar, em duas faixas do seu CD de estreia que marcaram minha vida. Pois era, ao ouvi-lo, como se eu estivesse parindo todo um universo por meio da mera audição dessas peças complexas, barulhentas, algumas bastante feias (propositadamente), outras lindas de morrer, em geral com jogos de guitarras em duos, outras que pareciam deixar mensagens subentendidas, e assim por diante. Porque não era como em Marty, em que as faixas não deixavam mensagem, ou em Tony Macalpine, em que elas eram descritivas; em Jason, era como se as faixas tentassem descrever algo que não existia, algo que poderia existir somente em nossas mentes, mas que também não eram sonhos, mas realidades abertas, opcionais, alternativas. Como se, nele, a gente estivesse focando algo que jamais viria existir - mas poderia. Pois mesmo quando se referiam a questões concretas - como nas já citadas Altitudes e Air -, o potencial de subjetividade necessário para fazer a conexão era imenso, e entrando no clima, se a gente se abandonasse às faixas, poderia descobrir dimensões jamais imaginadas em questões absurdamente simples.

Claro que podem dizer que Jason bolou os títulos de diversas das músicas meio que irresponsavelmente, colocando qualquer coisa. Mas é curioso, porque sempre que as ouço percebo que não parece ser isso, não. O que imaginar de Fábula Fatal de Mabel, por exemplo? Com certeza, isso é algo bastante pessoal. Mas mais que isso não leva a nada em nosso interior. Mas a gente ouve a música e entendemos que algo realmente está ali. Que tudo remete a alguma coisa, mas também que não parece remeter a nada específico. Ou o que pensar de Onze Egípcios Azuis? Mera bobajada? Pois é, pode parecer isso mesmo. Mas a gente ouve a coisa toda e percebe que algo parece sério, e remeter a esse tipo de imagem. É estranho, quase sempre, notar como em Jason tudo parece sério demais para ser um mero joguinho de adolescente querendo brincar com palavras - e com notas. É como se ele buscasse referências inexistentes para dizer, com as mãos, algo também inexistente. Mas para se expressar, como jovem que iria posteriormente ser atingido por uma doença incapacitante - e lutar sem parar contra ela, para... se expressar.

Pois lhes digo que Perpetual Burn, de alguma forma, ficou. Como referência de algo sem referência, bebendo de diversas fontes para dizer algo que queria - e que ainda repercute. Claro que a tradição do rock como um todo não dá a mínima importância a arroubos desse tipo. Ocorre que muitas vezes são os arroubos que possuem, em si, a verdade.
Espero que tenham gostado.




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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