Ian Anderson: Competente no estúdio, constrangedor ao vivo
Resenha - Homo Erraticus - Ian Anderson
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 13 de abril de 2015
Pra quem diversas vezes alfinetou álbuns conceituais, IAN ANDERSON tem se valido da forma mais do que seria coerente. Em 2012, lançou continuação do clássico Thick as a Brick (resenhado aqui no Whiplash no endereço ao final e em abril do ano passado Homo Erraticus, onde em 50+ minutos historiciza a Inglaterra desde a Pré-História até o holocausto zumbi de meados do século XXI. Gerald Bostock – o menino-prodígio de Thick As a Brick e o homem de meia-idade com diversos destinos de TAAB2 – é o narrador da odisseia. Ele descobriu inéditos e subestimados manuscritos dum historiador amador num velho sebo de província e a partir deles escreveu as letras. Inter/intraconceitual e Anderson zoa o formato?!
Apresentando eu-líricos tão distintos quanto um ferreiro medieval ou o consorte da Rainha Vitória, Albert, Homo Erraticus é muito mais focado nas letras do que em longas passagens de virtuosidade prog. Isso não significa que a música seja desleixada, pelo contrário, a produção é límpida e os mais cínicos dirão que polida demais a ponto de tornar muita coisa parecida. Realmente, alguns trechos soam indistintos mais pro final, mas Homo Erraticus comprova que o escocês ainda domina seu ofício de menestrel.
Doggerland, abertura e clímax, sintetiza a sonoridade do trabalho: é como se um grupo de músicos medievais achasse uma guitarra e botasse pra quebrar. Medievo encontra hard-rock, prog rock início dos 70’s com solado de teclado analógico e folk. IAN ANDERSON abandonou o nome JETHRO TULL (mentira, ele usa sempre que lhe convém!), mas Homo Erraticus poderia tranquilamente ser catalogado como álbum da banda. E se fosse, seria o melhor em décadas.
The Turnpike Inn é outra faixa forte com grande trabalho de guitarra, acordeão e flauta, esta última, marca registrada de Anderson, presente em diversos solos ao longo do álbum.
Enter Metals, a canção do ferreiro, atesta sua perícia em compor fantasias folk-medievais. Madrigal delicado e com barulhinho representando suavemente o malhar na bigorna, ela também tem o insidioso poder de botar minhoca na cabeça: imagine que instigante se Anderson tivesse acompanhado a mudança dos tempos com alterações no ritmo das canções. Seria muito mais conceitual, mas daria mais trabalho pro sessentão, que faz o tipo de música de Homo Erraticus com o pé nas costas.
Trabalho de qualidade; prova de que IAN ANDERSON ainda bate um bolão no estúdio.
Ao vivo as coisas deterioram. Em agosto, o músico lançou Thick As a Brick – Live in Iceland. Louvável a garra pra lançar material, promover e excursionar. Com competentes músicos e criativo uso da tecnologia – participação de violinista via Skype (claro que pré-gravado) – a proposta era reproduzir o clássico de 1972 e a continuação de 2012 na íntegra o mais fidedignamente possível.
Instrumentalmente dá tudo certo, Thick As a Brick está mais longa que a original e tirando uns minutos tediosos de solo de bateria as passagens pastorais estão a contento e os diversos momentos de fúria flamejam. Anderson toca uma flauta louca; dá vontade de botar roupona medieval e segui-lo numa Cruzada. Considerando-se a faixa etária do roqueiro e da maioria de seus supostos fãs, o interlúdio incentivando o exame de próstata é compreensível, ainda que constrangedor.
A tarefa de executar ambos álbuns em sua completude seria desgastante pra qualquer vocalista, mesmo no topo de sua habilidade vocal. Imagine prum homem berrando rock and roll há 50 anos, portanto, com a voz devastada. É o próprio IAN ANDERSON.
A relativa calma e maleabilidade de TAAB2 (composto na sexagenaridade de Ian) disfarçam um pouco, mas a performance em Thick As a Brick desanima. Voz rouca, desafinada, quebradiça, que por vezes declama a letra, sempre auxiliada por um companheiro de banda (que nem canta bem). Tira todo o tesão do álbum.
IAN ANDERSON funciona bem com a mágica de estúdio; ao vivo não dá pra segurar a vibração dum monumento como Thick As a Brick.
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