Ian Anderson: os 40 anos de "Thick As a Brick"
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 23 de janeiro de 2015
1972: uma banda de folk progressivo lançou ambicioso álbum conceitual com apenas uma faixa. Na era em que tínhamos que mudar o vinil de lado, o grupo resolveu a questão colocando som de vento no final do lado A e no começo do B pra fingir que era fim e começo de música. Fracasso comercial? Pelo contrário, Thick as a Brick, dos britânicos do JETHRO TULL não apenas se tornou pedra lapidar do movimento prog, como alcançou o topo da resistente parada norte-americana. Outros tempos...
Os 44 bombásticos minutos da canção-álbum são recheados de instrumentos e variações de ritmo e andamento. IAN ANDERSON – líder inconteste do JETHRO – gaba-se de que o projeto é uma paródia aos meagalomaníacos álbuns conceituais de bandas prog, como o YES. Só que em 72, o grupo de JON ANDERSON ainda não lançara álbum conceitual. Pode até ser paródia, mas a menção ao YES – se não for invenção da imprensa – é farpa de diva.
IAN ANDERSON criou uma personagem, o garoto-prodígio Gerald Bostock, que, aos 8 anos, ganhou um concurso literário com intrincado poema épico, pra em seguida ser desclassificado devido a seus supostos problemas mentais. A letra de Thick as a Brick seria o poema desse "pequeno Milton" (alusão a John Milton, de Paradise Lost), adaptada pela banda. Pra completar o pacote, a capa do álbum era uma réplica dum jornal de interior, contando a história do garoto, do uso de seu poema pela banda etc. Tudo com fotos e anúncios.
Monumental, Thick as a Brick, traz um IAN ANDERSON caprichando nas letras e incendiando na guitarra e na flauta, tocada ao vivo com o músico apoiado numa única perna. Com sua barba e cabelo fartos, parecia o Tom Bombadil, de Tolkien.
A era do CD pôs fim à inconveniência de lados A e B e podíamos ouvir a faixa-álbum em sua grandeza ininterrupta. O mesmo pode ser feito via You Tube, onde Thick as a Brick encontra-se integral:
2012: sem cabelo ou barba, IAN ANDERSON saiu-se com uma continuação pro álbum. Também sem o JETHRO TULL, pois o maior criador de salmão da Escócia decidiu que Thick as a Brick 2 – Whatever Happened to Gerald Bostock fosse lançado como trabalho solo. Na era de estrelas pop de nomes como Ke$ha e will.i.am, o álbum ficou conhecido como TAAB 2. Puristas não devem se assustar: esse é o único laivo de contemporaneidade admitido pelo bardo prog.
ANDERSON se perguntou o que teria acontecido ao agora cinquentenário Gerald Bostock e bolou possibilidades, exploradas ao longo das 17 faixas de TAAB 2. A multiplicidade temática determinou a picotagem da forma, afinal agora é o narrador falando de diferentes Geralds e não mais o poema do menino.
Gerald pode ter se tornado um banqueiro ganancioso, um homossexual sem teto, um combatente na guerra do Afeganistão, um pastor evangélico dinheirista ou o dono duma pequena loja. Mais pro final do álbum, essas identidades se (con)fundem, pra revelar seu denominador comum: a solidão.
Na metade de sua sexagenaridade, ANDERSON cria um futuro desiludido pro pobre Gerald. Musicalmente, o roqueiro está bem menos bombástico, embora TAAB 2 não descambe pra sacarinose. Pelo contrário, há ótimos momentos de duelo entre flauta e guitarra, só que agora, o tom é mais soft rock. As referências de música folk inglesa e música erudita permanecem.
TAAB 2 começa onde Thick as a Brick terminara em termos de melodia. É realmente como se ouvíssemos a continuação da obra. E acaba com os mesmos versos do início do primeiro, com o acréscimo dum discreto "two".
Pra completar o pacote, novo jornal fictício de província foi criado, inclusive com a notícia de que uma "velha estrela do rock" abriria um show no ginásio da pequena cidade.
TAAB 2 provavelmente não angariou muitos novos fãs pra IAN ANDERSON e até desagradou alguns velhos admiradores que esperavam um álbum tão exuberante como o de 72. Pouco realista querer que alguém permaneça igual depois de 40 anos, quando nós mesmos mudamos tanto.
Longe de ser básico como o álbum do apogeu do TULL, TAAB 2 demonstra que IAN ANDERSON ainda tem lenha pra queimar.
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