Titãs: Disco sério demais mesmo quando quer parecer debochado
Resenha - Nheengatu - Titãs
Por Daniel Junior
Postado em 21 de maio de 2014
Nota: 6 ![]()
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Talvez com um gap de mais de 10 anos, os Titãs voltam com um disco com o texto mais pesado e contestador. Pelo menos após as inúmeras audições, a impressão é de que a banda tenta retomar um fôlego mas já dá sinais de cansaço criativo. Mesmo com canções interessantes, Nheengatu, décimo segundo álbum de uma carreira discográfica iniciada em 1984 com disco homônimo, não fornece aquela beleza melódica dos tempos em que Arnaldo Antunes ainda pertencia à formação original. A última participação do músico como vocalista foi em Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, de 1991.
Ainda temos Branco Mello fazendo as letras quase infantis como em "República dos Bananas", onde se misturam personagens da vida real com outros criados. Os riffs simples e tocantes lembram o áureo início da banda que com seu simplismo técnico, onde superava as principais carências com muita criatividade. No entanto ao invés de nos surpreender os Titãs voltam à fase que os consagrou nos idos da década 80.
Mesmo assim é muito bom ouvir novamente Sérgio Britto com sua voz rouca brincando com as palavras como em "Fala, Renata". E não falta aquela brincadeira harmônica com os ritmos nordestinos misturado ao rock, tentativa que deixou a banda evidente em Õ Blesq Blom (1989). No entanto o disco parece que falta alguma coisa, mesmo que as músicas não possam ser consideradas ruins ou sem inspiração como aconteceu em Sacos Plásticos (2009).
Talvez contagiados pelo período conturbado do país, Nheengatu tem um tom meio deprê. Pra baixo, o disco tem bons momentos (mais uma vez com Britto) em "Cadáver Sobre Cadáver" ou "Pedofilia" – em que a banda sugere depoimento de vítimas do crime hediondo – mas na maioria das faixas o que vemos é uma banda antenada com arranjos menos "titânicos" como em "Canalha", onde temos Branco Mello, afinado, mas sem dizer a que veio, com uma música pesada mas anti-climax.
A escolha por temas pesados como o assédio sexual à crianças ou mesmo uma espécie de ‘mea culpa’ com "Fardado" (uma antítese do texto de "Polícia", de 1986, pertencente ao disco "Cabeça Dinossauro"), deixa o disco irregular. Mesmo a ideia de re-construir de maneira bem humorada a visão de Pedro Álvares Cabral ao chegar ao Brasil como acontece em "Chegada ao Brasil (Terra À Vista)". Falta diversão, sem trocadilho. O disco é sério demais mesmo quando quer parecer debochado.
A banda decidiu não colocar nenhuma "balada" mas falta verdade à produção. Falta isso e algo mais. Ninguém pode reclamar de que o disco privilegia as guitarras, mas será que é só isso ? Quantas bandas de rock brasileiro que nós não suportamos escutar um só disco? Quando Frommer era vivo, havia mais criatividade e uma parceria de responsabilidades divididas. Belloto não tem a mesma pegada, embora mereça parabéns pelas ideias variadas no disco. Também não dá para negar, que tanto (Paulo) Miklos e (Sérgio) Britto contribuíram com suas ideias de guitarra para o disco, como se viu em pequenos vídeos durante a confecção deste álbum.
Titãs comemoram 30 anos de carreira a partir do primeiro disco lançado em 1984 e talvez seja por isso que tenha retornado a uma sonoridade mais crua mas a falta de sentimento do álbum deixa muito clara que a banda precisa repensar sua vasta história e continuidade.
Os músicos já disseram que estão longe de um fim de carreira e a turnê deste disco (algumas canções já vinham sendo executadas ao vivo) deve dar continuidade à regular discografia de uma das sobreviventes do movimento BRock.
Nheengatu – Titãs (Som Livre, 2014)
01 – Fardado
02 – Mensageiro da Desgraça
03 – República dos Bananas
04 – Fala, Renata
05 – Cadáver sobre Cadáver
06 – Canalha
07 – Pedofilia
08 – Chegada ao Brasil (Terra à Vista)
09 – Eu Me Sinto Bem
10 – Flores Para Ela
11 – Não Pode
12 – Senhor
13 – Baião de Dois
14 – Quem São os Animais?
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