O cara que é o "avô da música americana", segundo o lendário Bruce Springsteen
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de janeiro de 2026
Desde o início da carreira, Bruce Springsteen construiu sua obra a partir de histórias que pareciam simples, mas carregavam o peso de toda uma tradição cultural. Ao ouvir álbuns como Born to Run ou Darkness on the Edge of Town, fica claro que aquelas narrativas poderiam ser de qualquer pessoa comum. Springsteen passou a ser o porta-voz desse lado da América - mas sempre consciente de que estava caminhando por uma estrada pavimentada muito antes dele.
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Ao falar sobre suas influências, o músico nunca escondeu a reverência aos grandes contadores de histórias da música americana. No rock'n'roll, esse fio narrativo remonta a Chuck Berry, que já transformava angústias adolescentes e cenas do cotidiano em canções cheias de imagens vívidas. Essa tradição de "pintar quadros" com palavras foi absorvida por Springsteen, mas sempre com a exigência de que houvesse algo real, algo humano, por trás de cada verso.
Entre os artistas que moldaram essa visão estão Van Morrison, especialmente pela intensidade emocional de discos como Astral Weeks, e Bob Dylan, cuja sombra paira de forma evidente sobre os primeiros trabalhos de Springsteen. Antes de Born to Run explodir mundialmente, o Boss era frequentemente visto como uma espécie de "segundo Dylan", com letras longas, versos em cascata e canções que pareciam não querer terminar - lembrando obras como Blonde on Blonde.
Com o tempo, porém, Springsteen passou a olhar ainda mais para trás, para além de Dylan. Como todo grande compositor, ele entendeu que seus heróis também tinham heróis. E foi aí que entrou Woody Guthrie, figura central do folk norte-americano e referência máxima quando o assunto é dar voz ao trabalhador comum. Guthrie talvez não tenha eletrificado o folk, mas sua postura combativa e sua defesa do "cara pequeno" em músicas como This Land Is Your Land se tornaram, aos olhos de Springsteen, a essência da música americana.
Essa admiração foi verbalizada de forma cristalina pelo próprio Springsteen, em uma de suas declarações mais emblemáticas: "Eu sempre disse que Bob Dylan foi o pai do meu país, mas o Woody Guthrie foi o avô do meu país. Foi a primeira música em que encontrei um reflexo da América que eu acreditava ser verdadeira. Onde senti que os véus tinham sido arrancados e eu estava vendo o país real em que vivo, o que estava em jogo para as pessoas que são meus vizinhos e amigos". A frase resume por que Guthrie ocupa um lugar quase sagrado em sua formação artística.
Springsteen jamais afirmou ter alcançado o impacto histórico de Guthrie, mas é impossível não notar como ele aplicou essas lições à sua própria geração. Após os atentados de 11 de setembro, quando o país parecia sem rumo, músicas como "The Rising" e "My City of Ruins" buscaram unir pessoas feridas, ecoando o mesmo espírito de solidariedade que Guthrie espalhou décadas antes, em tempos igualmente turbulentos.
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