A gafe de Gilberto Gil que criou a rivalidade entre Titãs e Paralamas do Sucesso
Por Gustavo Maiato
Postado em 15 de dezembro de 2025
Nos bastidores do rock brasileiro dos anos 1980, poucos episódios ilustram tão bem o encontro - e o choque - entre gerações quanto a gafe cometida por Gilberto Gil durante o evento "Gil, 20 anos-luz", realizado em São Paulo no fim de 1985. O show, que celebrava as duas décadas de carreira do cantor baiano, reuniu nomes importantes da música nacional, entre eles Titãs e Paralamas do Sucesso. O que era para ser uma festa acabou marcando o início de uma rivalidade que atravessaria boa parte daquela década.
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Naquela época, os Titãs viviam um momento conturbado. Arnaldo Antunes havia sido preso sob acusação de porte de heroína, e o grupo, abalado pela ausência de um de seus principais compositores, teve doze shows cancelados. A banda enfrentava não só dificuldades financeiras - já que os cachês das apresentações pagavam os honorários dos advogados -, mas também um boicote de produtores que temiam associar seus nomes a um grupo envolvido em polêmica.
Em meio a essa fase sombria, os Titãs aceitaram participar do evento de Gil. No palco do Palácio de Convenções do Anhembi, o anfitrião iniciou a noite com entusiasmo ao anunciar os Paralamas do Sucesso, grupo carioca que já despontava como um dos grandes nomes da nova geração do rock nacional. "Agora, com vocês, três caras que fazem um som com o peso de uma carreta!", bradou Gil, arrancando aplausos da plateia.
Mas o problema veio logo depois, conforme relato do livro "A vida até parece uma festa". Ao chamar os Titãs, que tocariam em seguida, Gil resolveu brincar com o nome de um dos primeiros sucessos da banda, "Sonífera Ilha". O resultado, porém, foi desastroso: - "E olha que curioso, esses oito que vêm aí fazem um som tão pequenininho quanto um radinho de pilha."
A plateia riu, mas os músicos não. A "brincadeira" soou como uma comparação depreciativa entre os dois grupos, especialmente por ter vindo de uma figura respeitada como Gilberto Gil. Os Titãs, já fragilizados pela prisão de Arnaldo, entraram no palco cabisbaixos e contrariados. O episódio, como relata o livro Titãs: A Vida Até Parece uma Festa, deu início a uma rivalidade velada entre os Titãs e os Paralamas, alimentada por fãs e pela imprensa nos anos seguintes.
A ironia é que, pouco tempo depois, Gil seria também responsável por um dos momentos mais simbólicos da carreira dos Paralamas. Foi ele quem escreveu, por telefone, a letra de "A Novidade", clássico do álbum "Selvagem?" (1986). A parceria surgiu de forma inusitada: o produtor Liminha pediu a Gil que completasse uma música instrumental que Herbert Vianna havia composto. De Florianópolis, o baiano ouviu a fita, anotou versos inspirados e ditou a letra por telefone - um gesto que selou uma das colaborações mais importantes da história do rock brasileiro.
Em outras entrevistas, Gil deixou claro seu respeito pela cena roqueira da época. Em 1986, ele declarou à revista Bizz que concordava com a avaliação de Caetano Veloso, para quem o rock nacional era "forte, ainda que nem sempre qualificado". Para Gil, a força cultural do movimento importava mais do que o refinamento técnico. "Em certos momentos de reciclagem cultural, é importante que as coisas sejam fortes, e não necessariamente qualificadas", explicou.
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