Titãs: Novo álbum traz protesto de mentirinha
Resenha - Nheengatu - Titãs
Por Diogo Azzevedo
Postado em 12 de julho de 2014
Acompanhar a trajetória dos Titãs nos últimos vinte anos tem sido um exercício interessante, em que não dá para saber se você sente pena ou se acha graça de tudo o que os caras vêm fazendo desde o álbum "Titanomaquia" – o disco "pesado" de 1993.
"Titanomaquia" até rendeu uma história hilária envolvendo a banda No Violence (leia aqui). Se com a saída de Arnaldo Antunes os Titãs perderam 50% do lirismo e, no auge da febre grunge, partiram de vez para o rock pauleira (cof, cof), foi com o lançamento do CD "Acústico MTV" (1997), cujo formato era febre na época, que o então sexteto descobriu a fórmula do sucesso fácil, já que não era preciso criar nada, apenas tocar os antigos hits de forma levinha.
Foi o bastante para a banda chegar aos quase dois milhões de cópias vendidas. E o que veio em seguida, meu amigo, foi alguns dos trabalhos mais constrangedores da música brasileira em todos os tempos! Ao se ligar do mico que estava pagando, Nando Reis (os outros 50% do lirismo que restavam) pulou fora, daí a coisa degringolou de vez, culminando no ponto mais baixo da carreira do grupo, o terrível "Sacos Plásticos" (2009), parceria com o "Grande Satã" do rock tupiniquim, Rick Bonadio, álbum que, de tão ruim, rendeu dois temas em novelas da Globo.
Mas os Titãs são caras "antenados", e aproveitando o atual momento político do país, resolveram fazer um novo registro, desta vez "malvado" e cheio de críticas às instituições. Lançado pela Som Livre (mais antissistema, impossível), "Nheengatu" é o tal álbum que, dizem alguns fãs alienados (me desculpem o pleonasmo), traz de volta as "raízes" da banda. Quem conhece minimamente os dois primeiros plays do conjunto ("Titãs" e "Televisão") sabe que esse papo é uma tremenda papagaiada. Nem era minha intenção ouvi-lo, mas como todos estavam falando como se tratasse de uma obra-prima, resolvi conferir, afinal, sempre fiquei com os dois pés atrás em relação a tudo que é recebido com unanimidade. Apenas para confirmar minhas suspeitas...
O que o agora quarteto (já que o baterista Charles Gavin também pediu para sair) tenta fazer aqui é emular a sonoridade do "Titanomaquia" e o "protesto" do "Cabeça Dinossauro" (1986), porém com aquela mesma revolta adolescente de quase trinta anos atrás, que até fazia sentido na época, mas que hoje, praticada por cinquentões abonados, soa mais como um manifesto burguês, tão contundente quanto uma matéria do CQC, vide as forçadas "Fardado" (escolhida como primeiro single), "Pedofilia" e a versão para "Canalha", de Walter Franco (sim, aquele que hoje é amiguinho do pessoal do ECAD). Mesmo os temas mais interessantes, como a debochada "Chegada ao Brasil (Terra à Vista)", que tem uma letra bem sacada, são ofuscados por canções bobinhas, caso de "Fala, Renata". A produção de Rafael Ramos também não é nada espetacular, mas talvez seja a melhor já feita em um álbum de "rock" dos Titãs.
Longe, muito longe, de ser um trabalho honesto, "Nheengatu" pode até soar como uma obra-prima – se comparado ao seu antecessor, claro. No final das contas, ainda não sei contra o que estes senhores bem-resolvidos tanto protestam neste álbum. Talvez seja a mesma indignação daquela gente super educada que vaiou a presidente na abertura da Copa contra o uso do dinheiro público na realização do evento, a corrupção e blá-blá-blá, mas que fez questão de comprar ingresso (nada barato) para estar ali, sendo cúmplice do "esquema". Vai entender...
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