O álbum dos Titãs que foi entregue a Mike Patton do Faith No More na casa de Max Cavalera
Por Gustavo Maiato
Postado em 01 de janeiro de 2026
Para entender como um disco dos Titãs acabou nas mãos de Mike Patton em pleno encontro na casa de Max Cavalera, é preciso voltar ao início dos anos 1990, quando o rock brasileiro passava por um processo de reinvenção.
Nesse ambiente em transformação, os Titãs eram vistos pelas bandas iniciantes não como lendas inalcançáveis, mas como uma referência prática. Como escrevem Hérica Marmo e Luiz André Alzer no livro "A Vida Até Parece Uma Festa": "Para os grupos iniciantes, os Titãs eram vistos mais como um exemplo do que como um mito."

O grupo, além de explorar caminhos autorais próprios, simbolizava uma postura empreendedora - especialmente por causa da autoprodução de "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" e pela abertura que davam a bandas menores em seus shows, algo raro para a geração dos anos 1980.
É nesse contexto que entra em cena Carlos Eduardo Miranda, figura chave da música brasileira nos anos seguintes. O produtor só passou a admirar melhor o trabalho dos Titãs após conviver com eles em estúdio. Até então, como relatam os autores, "musicalmente, até Titanomaquia, não curtia muito os futuros parceiros ('eles não cantam para mim', costumava dizer)." Ainda assim, Miranda possuía um único álbum da banda - exatamente "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" - que, segundo o livro, "focou apenas algumas horas em suas mãos, já que ele deu o álbum para Mike Patton, vocalista do Faith No More, num encontro na casa de Max Cavalera".
O episódio revela como Miranda circulava com naturalidade entre diferentes cenas musicais. Titãs, Faith No More e Sepultura - três universos distintos - apareciam conectados por esse gesto simples, nascido de uma conversa informal na casa de Max Cavalera. O presente oferecido a Patton, ainda que espontâneo, mostra como o disco mais experimental e ruidoso dos Titãs cruzava fronteiras muito além da música brasileira.
Os autores destacam que Warner e Titãs enxergavam em Miranda um aliado estratégico num projeto de renovação do rock nacional. E isso se devia principalmente à rede de contatos que ele cultivara desde que chegara a São Paulo em 1988. Como lembram Hérica e Alzer, "pouca gente no mercado possuía contatos tão quentes quanto o gaúcho que chegou em São Paulo em 1988 para assistir a um show de Iggy Pop e acabou ficando." A partir dali, a relação de Miranda com a cena dos anos 1990 se intensificaria - ainda que por motivos inesperados.
Diagnosticado com síndrome de Reiter, doença que dificultava seus movimentos, Miranda foi obrigado a buscar emprego fixo. Seu carisma e criatividade o levaram rapidamente a duas propostas: "Bia Abramo o chamou para trabalhar no Folhateen […] e José Augusto Lemos quis levá-lo para a Bizz. Ficou com a segunda opção." Foi na Bizz que ele se tornou peça central do surgimento de novas bandas - e onde sua inquietação acabaria gerando outra descoberta importante.
Ao perceber que as novidades brasileiras raramente chegavam aos jornalistas mais experientes, Miranda decidiu investigar o que acontecia no país musical afora. Mas, como relatam os autores, "foi um balde de água fria. Ninguém conhecia nada." Frustrado, ele procurou André Forastieri, que lhe ensinou uma estratégia para descobrir talentos nascentes - gesto que acabaria abrindo caminho para Raimundos, Planet Hemp e toda a chamada "Turma de 94".
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