Marcelo Nova: O melhor e mais recente vôo de um iconoclasta

Resenha - 12 Fêmeas - Marcelo Nova

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Por Ronaldo Celoto
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O magnífico "12 Fêmeas" é um dos discos fundamentais de MARCELO NOVA, se não for o mais fundamental, pela poesia e maturidade. Desde “Blackout” (1991) ele não fazia algo tão espetacular e consistente. É o melhor dentre todos os discos de músicas inéditas, se me permitem, que foram lançados em 2013. Um mergulho nos pesadelos e nas fantasias de um ícone da música, passeando pela lisergia de ALLEN GINSBERG, e, vez em quando, flertando com BOB DYLAN, DYLAN THOMAS, TOM WAITS, CHET BAKER, violoncelos, folk, blues, carregado de uma assombrosa e magnífica cortina de lirismo ácido.
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Permito-me falar um pouco de suas canções, antes que elas se evaporem na eternidade dos clássicos. Vamos juntos.

E o álbum começa em grande estilo. A poesia fantástica da canção “Claro como a Luz” é latente, o desejo e a conspiração mental tomam forma no coração deste guerreiro solitário, entre goles narcóticos de uma quase casa de campo, a observar uma lareira que estranhamente nunca se apaga:

“Ao norte da escuridão
Ouço os coiotes uivando
E ao som da tentação
Eu ouço a sua voz me chamando”
.

São lampejos de breu e alucinação, ou apenas um simples blues de um homem que resolveu prestar tributo às mulheres em toda a sua divindade, ressaltando, ao invés da figura dos doze apóstolos de Cristo, doze fêmeas.

“Mas minha língua esta cheia de veneno
Minha alma repleta de buracos
Minhas veias intupidas de rancor
Meu sótão está lotado de macacos”.

Enquanto isto, o violoncelo de ANTONIETA MINELLA e adiciona, aos ruídos que parecem ressurgidos de um bandolins, uma poesia dramática.

Na sequência, “Inverno Impiedoso” carrega um blue despretensiosamente DYLAN, mas não um BOB qualquer, e, sim, um ébrio trancafiado em seu quarto, um ALEX (Laranja Mecânica) que sabe que não abrir a janela e saltar simplesmente. Esta música poderia muito bem chamar-se “Blues Para o Diabo”.

E enquanto você, ouvinte, pensa estar dentro de uma tragédia previamente anunciada, surge a música seguinte simplesmente chamada “Eu Lhe Vejo Em Sonhos”, lírica com requintes de southern rock dos melhores.

“Sempre penso em você quando vou me deitar, pois só no mundo dos sonhos posso lhe encontrar”, diz MARCELO, acompanhado pelos meninos DRAKE NOVA (guitarras e violões), LUIS DE BONI (piano e órgãos, contrabaixo), AIDAN DRUMMOND (gaita de fóles), ANTONIETA MINELLA (violoncelo), GOBA WANGKA (percussão), LEANDRO DALLE (bateria) e CÉLIO GLOUSTER (baixo), que dão a tona instrumental por todo o álbum.

E a rouquidão explícita do amor confesso prossegue:

“Eu lhe vejo em sonhos
Voando bem acima do caos dessa cidade
Acordo excitado, você do meu lado
Acho que não sei mais distinguir
Sonho de realidade”.

Em seguida, nasce a melódica “Anjo Doce Anjo” dramatiza de forma exponencial a sonoridade, maravilhosamente. Belíssimo momento de MARCELO a rasgar toda a sua dor em forma de prece. Há muitos requintes de pérolas épicas como “A Ferro e Fogo” em todo o disco. Esta é mais uma delas.

“A dor ainda é a mesma
Ela só aumentou de nível
Como uma faca cortando
O pescoço do seu bom rapaz
Como um verme corroendo
Tudo que for capaz
Como uma ilha de ódio
No seu oceano de paz”.

É um embrião ainda híbrido, prestes a explodir e lançar fogo. Genial, diga-se de passagem! E com belo trabalho de guitarras lisérgicas!

“A Minha Inveja” é uma carta romântica que inaugura uma preciosa parceria entre MARCELO e DRAKE. Nela, temos um PABLO NERUDA em momentos de erotismo, travestido de HENRY MILLER em nuances de adultério com ANAÏS NIN. Afinal, a inveja também é uma forma de amor. E, não por acaso, MARCELO diz:

“Eu invejo o sol
Que derrete seu gelo
Faz seus dias mais longos
Aquece seus pelos
Faz seus pranto secar
E faz transpirar
Ilumina seus passos
Na sua noite um farol.
Eu invejo o vento
Que sussurra em seus ouvidos
Ele arrepia as coxas
Suspende seu vestido
Afasta seus medos
E sopra os cabelos
Afaga seus lábios
Varre seus pensamentos.
Eu invejo a chuva
Que você tanto gosta
Roçando sua nuca
Desce pelas suas costas
Que toca sua língua
Banha os seus olhos
Ele molha as mãos
Caindo como uma luva”

É uma ode balzaquiana, também. Além de navegar no rio do erotismo, também permeia-se entre as pernas de toda e qualquer mulher, sem idade, sem frescuras, apenas direta, numa densidade holográfica quase narcótica.

“Blue Eyes” é um folk gostoso e simples, como que um marinheiro que mergulha em oceanos e nunca se afoga, a selva urbana que continua a estacionar-se nos portões da escuridão, a noite que não termina e o dia que não chega, as fronteiras que transformam o amor em distância, e, por fim, o naufrágio do mencionado marujo, que oceano algum conseguiu provocar, apenas os olhos azuis de uma bela mulher.

“O Nome do Jogo” revela antecipadamente, que a paixão é um jogo violento e perigoso. E não por acaso, um homem surge como narrador da canção, trancafiado em um quarto de motel barato, a descrever a sujeira urbana, enquanto lá dentro, há beleza em suas lágrimas, e, mesmo que esta beleza não seja pronunciada como alguns poemas clássicos, ela dói tanto quanto o ultra-romantismo.

“Paixão é um jogo violento e perigoso
Com seus arames farpados seu terreno pantanoso
Era verão eu esperei você voltar pra mim
Mas o sol apaga a dor de tudo enfim.
Você me fez vir, você me faz voltar
E eu sigo quebrando o que não sei consertar.
O sino da igreja bate lá fora
E ele chama seu nome a cada hora
Eu vejo o seu rosto quando anoitece
Então o sino para você desaparece”

E lá vamos nós, enxertados de melancolia, a uma anunciada “Temporada No Inferno”, nome da próxima canção. É a canção que rasga o ciúme e a saudade, e, ironiza, de forma domadora, o amor que quer dizer algumas verdades face a face para sua amada/amante.

“Jogue no lixo seus conceitos tão modernos
E bem vinda a outra temporada
No inferno
O que você lembra é mentira
E eu já esqueci da verdade
Então não vá acorda os mortos com o barulho
Da sua ansiedade
Só procure controlar
O seu pavor interno e bem vinda
A outra temporada no inferno”

Belo trabalho instrumental da banda, num formato “reggae acústico” bem embrulhado ao blues, e, enquanto a noite chega dançando, e, as mentiras e jóias tornam-se falsas, as 'nóias' não cessam, e, diante do espelho, surge uma total estranha, que de repente, a mulher a quem foi destinada a canção, parece conhecer de algum lugar, os desejos e enganos se igualam, e, todos se transformam na prova viva do imenso mal gosto de Deus. Eis a metáfora que MARCELO quer nos mostrar: viver é sobreviver. E isto é, algumas vezes, o inferno.

“O Ódio da Mão Que Afaga” é uma canção de amor limpa, autobiográfica e testamental. É uma carta recém-aberta, de uma alma que se coloca ao inteiro dispor, para recontar os erros e acertos, e, dizer: alô ou adeus, dependendo para qual caminho ambos querem seguir. Bela poesia de MARCELO. Senão vejamos.

“Aqui estão os desertos e areias do nosso passado
Aqui está minha sede e o seu cantil furado
Aqui estão os rastros, pegadas da nossa dor
E a minha alma vazia, ao seu inteiro dispor
O que ontem achamos, hoje se perdeu
Alô, baby, e, então, baby, adeus
Aqui estão a esperança que ainda insiste em voltar
E o passado morto que você não quis soltar
Aqui esta o desejo na sua mais bela voz
Mas nada mais é tão belo para predadores como nós
E estão seus encantos, seus venenos e todas as suas pragas
E aqui esta o ódio da mesma mão que afaga
Aqui estão as taças, um brinde ao meu orgulho
E aqui estão nosso silêncio, que ainda faz tanto barulho”.

Tudo funciona perfeitamente como uma canção de reconciliação ou separação. As cartas estão na mesa. Não há mais segredos! Que bela canção acústica transtornada pelas guitarras e slides, distorções e vozes ocultas das cordas! E por fim, uma gaita de fole inspiradíssima, maravilhosamente encaixada com perfeição nesta canção!

E, ao dizer adeus, MARCELO ainda respira por aparelhos, e, o oxigênio que surge justamente é um blues despretensioso, chamado “Ela é Um Mistério Para Mim”. É a figura do voyeur encantado com uma mulher que, entre idas e vindas, lhe alucina, e, ao mesmo tempo, permanece um mistério sem solução. É o casamento perfeito entre TOM WAITS e ALLEN GINSBERG, previamente ocorrido em algum bordel fechado dos bons tempos do disco “Closing Time” (WAITS). E assim o blues correu, a dizer:

“O temporal no fim do dia
Perguntei o que havia
Disse se era assim que acabaria
O que um dia foi paixão?
Com a cabeça disse não
Mas acabou dizendo sim
Nada que esclarecesse
O seu mistério para mim
Com o coração partido
Me disse coisas sem sentido
Como se eu fosse um inimigo
Em quem não se pode confiar
Logo começou a chorar
E o garçom do botequim
Trouxe então uma dose dupla
Do seu mistério para mim”.

Esta canção é daquelas que se toca em algum bar, e, todos, todos mesmo, tem vontade cantar e pedir mais uma daquelas sequências de intermináveis shots.

“Não Consigo Escapar de Você” abraça o romantismo, com um dedilhado acústico similar a “All Apologies” (NIRVANA), para permanecer no ritual ao qual MARCELO e seus amigos queriam que ela permanecesse: Garrafas, saudades, lembranças.

“Era o último minuto do ano
E os fogos bailavam no ar
Contemplei o espaço ergui meus braços
Mesmo sem ter ao que brindar
Então transbordei minha taça
Nesse ritual ao qual tentei me submeter
Na garrafa nem mais uma gota
E eu não consigo escapar de você
O tempo anda tão devagar
Quando se espera pela luz da manhã
Nesse outro planeta onde a luz é mais preta
Esse quarto escuro deve ser de satã
Talvez se eu sonhasse você se afastasse
Quem sabe eu pudesse não enlouquecer
Mais o sol não levanta, o galo não canta
E eu não consigo escapar de você”.

Poesia pura! Sem nenhum medo de escarniar a saudade ou a dor! Todos os livros neste momento poderiam ser rasgados. Menos o livro do coração! E, com coração, MARCELO ainda anuncia:

“A estação, a distância
Me lembrou da infância
Quis brincar com os vagões
Mas já é tarde pra isso
Você me tem submisso
E não importam as razões

(...)
Todos os trens já partiram
E eu não consigo escapar de você”.

E já é hora de levantar. Afinal, os requintes ébrios de todo e qualquer álbum de lembranças se resumem a palavras, fotografias esculpidas na memória, e, ressonar de beijos invisíveis. Mas, é preciso seguir. Mas, será que ainda não existem sinais na memória?

Sim, há “Sinais de Fumaça”, muito bem percebidos na última canção que leva este nome, e, abre com distorções e concessões uma ode ao rock, com as guitarras de repente plugadas em meio a um ribombar acústico que se estendeu por todo o disco, e, mais do que de repente, algo parece estar a queimar.

“Tem algo queimando baby
Que não me deixa dormir
Eu não consigo ver
Más certo posso sentir
As cores estão na janela
O leite na geladeira
O jornal por debaixo da porta
O relógio na cabeceira
Más tem algo queimando baby
Não sei se você percebeu
O que ontem estava aqui
Hoje desapareceu
Então eu segui a placa
Que indicava a direção
Cheguei num beco sem saída
Com o mistério da contra mão
Você tem suas razões
Fantasias vontades
E pensa que elas flutuam
Bem acima da realidade”

E o rock abraça o blues, e, o órgão transforma-se em um grandioso solo no lugar da guitarra, e, a mensagem suburbana do bom e velho iconoclasta chamado MARCELO NOVA responde, entre tantos soluços, que “a chuva não tem piedade...é a verdade nua e crua...existe um vexame no céu...e só uma fatia da Lua”.

E, em meio a esta danação eterna, a lamparina de DIÓGENES mostra sim, a grande luz para todo ano de 2013. E a poesia maldita se confirma:

“Más a ponte está em frente
Nos conduz a Babilônia
Então traga as suas máscaras
E sua água de colônia.
Lá tem pântanos feitos de luxuria
Muita lama e bruxas pequenas
Pra ouvir o canto do cisne
E a risada das siriemas”.

Desfecho melhor, impossível. Canção longa, que não perde em momento algum sua veia colossal. Sem dúvida, o melhor disco dos últimos 20 ou 30 anos do rock brasileiro! Nada mais do que merecido, para um andarilho tão especial, que continua a cantar sem cortinas ou ternos, a verdade, nada mais do que a verdade. MARCELO NOVA (foto), receba os nossos parabéns!

http://g1.globo.com/bahia/noticia/2013/07/gosto-do-ringue-da...

A seguir, ouça o álbum, na íntegra, e, verão as farpas de um herói que apenas precisa de uma Gibson CHET ATKINS, um papel em branco, uma caneta, e, uma garrafa enobrecida do melhor malte, para dizer muito mais do que é feito na convencional música dos dias atuais.

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Sobre Ronaldo Celoto

Natural do Estado de São Paulo, é escritor, professor, poeta e consultor em direito, política e gestão pública. Bacharel em Direito, com Mestrado em Ciência Política, atualmente cursa Doutorado em Direito, Justiça e Cidadania pela Universidade de Coimbra. Além destas atividades, dedica diariamente parte de seu tempo à pesquisa e produção de artigos científicos, contos, romances, matérias jornalísticas, biografias e resenhas. Seus interesses pessoais são: cinema, política, jornalismo, literatura, sociologia das resistências, ética, direitos humanos e música.

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