Sepultura: os paradigmas quebrados por "Chaos A.D."
Resenha - Chaos A.D. - Sepultura
Por Guilherme Vasconcelos Ferreira
Postado em 03 de junho de 2008
Rupturas, inovações, quebra de paradigmas. Qualquer pessoa ou quaisquer grupos de pessoas, em qualquer campo social, que ousem desafiar regras e modelos já bem estabelecidos e consagrados sofrem, obrigatória e inevitavelmente, resistência e reações adversas. É da própria natureza humana abraçar o velho e sua segurança e repudiar o novo e suas mudanças e incertezas. Entretanto, não é e nunca foi do DNA do Sepultura, banda cuja música é, por definição, explosiva e contestatória, se acomodar e se prender a fórmulas bem-sucedidas. A ousadia e a inquietude sempre foram marcas registradas do quarteto mineiro.

Em 1993, depois do sucesso retumbante de "Beneath the Remains" e "Arise", álbuns calcados em um thrash/death metal vigoroso e visceral com explícitas influências de Slayer, o Sepultura resolveu arriscar em "Chaos A.D.". E, apesar da polêmica inicial, a aposta foi exitosa. Ao misturar a brutalidade e selvageria metálicas, características que notabilizaram o grupo desde os seus primórdios, com percussão, batidas e ritmos tribais, os belohorizontinos criaram uma linha musical de vanguarda. Em uma verdadeira antropofagia musical, o Sepultura apimentou e incrementou um gênero musical estadunidense – thrash metal da Bay Area, em San Francisco – com influências próprias da cultura tupiniquim, tornando-se, ao mesmo tempo, uma banda de fácil identificação e de difícil classificação e rotulação.
Em "Refuse/Resist" e em "Territory", músicas que soberbamente abrem "Chaos A.D.", o grupo já deixa claro aos mais desavisados e xiitas que os andamentos mais acelerados e os riffs palhetados, apesar de ainda darem as caras em significativa quantidade, não são mais os principais ingredientes de sua música. Em contrapartida, se uma boa parcela dos riffs está mais técnica, cadenciada e trabalhada, a agressividade – emanada principalmente dos vocais guturais absurdamente poderosos de Max Cavalera –, o peso e a crueza, para alegria dos fãs mais puristas e para desespero dos ouvidos mais delicados de porcelana, continuam lá, inabaláveis e intocáveis. É nessa composição/mescla de novas nuances com elementos já tradicionais que reside o grande mérito e o grande trunfo de Chaos A.D. Prova disso é que, em um mesmo álbum, convivem harmonicamente canções tão díspares quanto "Kaiowas" – música instrumental, de acentuado caráter tribal, em homenagem aos índios brasileiros da tribo homônima que, segundo consta no encarte, "cometeram suicídio em massa como protesto contra o governo que estava tentando se apropriar de suas terras e de seus costumes" – e "Biotech is Godzilla", faixa thrash/hardcore raivosa que poderia facilmente fazer parte de "Arise" ou de "Beneath the Remains".
Individualmente, os principais destaques são, obviamente, os irmãos Cavalera: o coração, o cérebro e a alma do Sepultura. Max, além da já elogiada performance vocal, foi o grande responsável por trazer elementos tribais ao som do Sepultura – fato que ficou inteiramente corroborado após a sua deserção em 1996, quando esses traços foram progressivamente desaparecendo até serem totalmente eliminados em "Roorback" e em "Dante XI" – e escreveu quase todas as letras de "Chaos A.D.", com menção especial a "Refuse/Resist", uma crítica à proliferação de conflitos e guerras mundo afora, e a "Manifest", um protesto contra a truculência governamental e policial no episódio conhecido como massacre do Carandiru, uma verdadeira chacina de presidiários.
Igor Cavalera, por sua vez, mostrou em "Chaos A.D." que não era "apenas" um baterista pesado, rápido e preciso, como ficou evidenciado nos primeiros trabalhos do grupo, mas era também dono de um arsenal bastante variado e intrincado. As linhas de bateria de "Territory", "Slave New World" – outro petardo thrash – e "Kaiowas", por exemplo, além de memoráveis, inventivas e antológicas, elevaram Igor a um patamar de respeitabilidade internacional, sendo considerado até hoje como um dos melhores bateristas do Brasil e do mundo.
Romper barreiras e quebrar paradigmas é, via de regra, uma tarefa complicada e, por vezes, traumática. Gera insatisfações e pode deixar seqüelas irreversíveis. Se foi em "Roots" – outro álbum altamente recomendável – que o Sepultura aprofundou e levou ao extremo as influências tribais, foi em "Chaos A.D." que essas novidades vieram à tona e revolucionaram tudo aquilo que era conhecido como metal no início da década de 90. O Sepultura mostrou, enfim, que, apesar do abismo histórico que os separa e da barreira imposta pelos headbangers mais conservadores, o moderno e o plugado – o heavy metal – e o antigo e o desplugado – a cultura e a música indígenas – poderiam conviver pacificamente em uma simbiose cultural e musical altamente enriquecedora. Foi assim que o quarteto mineiro rompeu, inovou, quebrou velhos paradigmas e assegurou seu lugar na eternidade.
Indispensável.
Outras resenhas de Chaos A.D. - Sepultura
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O melhor compositor de rock de todos os tempos, segundo Elton John
A banda de rock que lucra com a infantilização do público adulto, segundo Regis Tadeu
O melhor álbum conceitual da história do metal progressivo, segundo o Loudwire
Como está sendo a adaptação de Simon Dawson ao Iron Maiden, de acordo com Steve Harris
Por que não há músicas de Bruce Dickinson em "Somewhere in Time", segundo Steve Harris
Prefeito do Rio coloca Paul McCartney e Bono em vídeo sobre megashow em Copacabana
O guitarrista favorito de todos os tempos de James Hetfield do Metallica
Baterista Jay Weinberg deixa o Suicidal Tendencies
Por que o Pink Floyd recusou proposta de US$ 250 milhões por reunião?
A melhor música de heavy metal lançada em 1986, segundo o Loudwire - não é "Master of Puppets"
Rodox sugere que deve voltar com Rodolfo (ex-Raimundos) e fãs vão a loucura nas redes
A música do Aerosmith que Steven Tyler ouviu e achou que era de outra banda
O clássico do thrash metal que fez Prika Amaral, da Nervosa, querer tocar guitarra
Playlist - Uma música de heavy metal para cada ano, de 2000 a 2025
O clássico do rock que mostra por que é importante ler a letra de uma música

Sepultura: em 1993, banda alcança o topo do mundo
10 grandes álbuns de bandas dos anos 1980 lançados nos 1990s segundo o Metal Injection
O disco do Motörhead que Max Cavalera acha extremamente subestimado
O motivo do desentendimento de Silas Fernandes com Andreas Kisser, segundo Silas
O grande problema dos australianos, brasileiros e ingleses, segundo ex-roadie do Sepultura
O primeiro encontro de Max Cavalera com Lemmy Kilmister - que não foi dos mais amigáveis
A lenda do metal nacional cujo apelido veio após arrancarem suas calças
O álbum dos Titãs que foi entregue a Mike Patton do Faith No More na casa de Max Cavalera
O que Max Cavalera não gostava sobre os mineiros, segundo ex-roadie do Sepultura
A música do Motörhead que marcou Derrick Green, vocalista do Sepultura
Max, Andreas, Fernanda e Prika falam sobre Lemmy; "Esse cara fuma 40 cigarros de uma vez?!"
Metallica: "72 Seasons" é tão empolgante quanto uma partida de beach tennis


