Bob Margolin: Compêndio das variadas facetas do guitarrista

Resenha - My Road - Bob Margolin

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Por André Espínola
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O guitarrista de blues Bob Margolin é uma conexão direta com o passado; um passado, diga-se de passagem, bem majestoso. Entre 1973 e 1980, Margolin foi o guitarrista da banda de ninguém menos que Muddy Waters, durante uma fase de grande sucesso comercial para Waters, com a parceria com Johnny Winter, produzindo dois grandes álbuns, Hard Again, de 1977, e I’m Ready, de 1978, ambos vencedores de Grammys. A partir da década de 90, “Steady Rollin’” Bob Margolin, como também é chamado, passou a consolidar uma carreira solo com álbuns sempre muito elogiados e explorando os limites do gênero blues (Not Alone, de 2012, e em parceria com Ann Rabson, In North Carolina, de 2006, Up & In, de 1997 e My Blues & My Guitar, de 1995, são alguns itens de sua discografia que vale muito a pena conferir). Em 2016, Margolin lança mais um disco, chamado My Road, que destaca a trajetória desse guitarrista que tem muito que contar e muito mais ainda a oferecer com seu talento. Em várias das doze faixas do disco, Margolin adota o tom autobiográfico para falar um pouco da sua relação com o blues. A banda é enxuta, sem muito refinamento, o que provoca algumas canções “simplistas”, mas memoráveis.

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“My Whole Life” resgata sua trajetória na vida e no blues, que o levou ao momento em que se encontra agora. É um blues direto, bem no estilo de Muddy mesmo, repleta de solos de guitarra alternados pela gaita. “For every note I play there are 50 years of shows, 2 million miles of highways and a passion that just grows”. Uma declaração ao blues. Na romântica “More and More”, Margolin adota a voz mais melódica, enquanto o som fica mais enxuto, sem a gaita e apenas a guitarra, baixo e bateria, assim como em “I Shall Prevail”.

A simplicidade atinge um nível memorável em dois claros momentos: em “Goodnight”, um belíssimo blues rural de raiz tocado e cantado por um inspirado Margolin. Um dos pontos alto do disco, sem dúvida, a ser somado com “By By Baby”, de Nappy Brown, na qual o dueto entre Margolin e Chuck Cotton é acompanhado apenas pela gaita. Um trabalho de harmonia magnífico entre os dois. Perfeito. “Low Life Blues” a coisa fica animada mais uma vez, com Ted Walters tocando gaita do jeito do mestre Little Walter no melhor estilo do Chicago Blues. No final da letra, uma grande lição para todos os amantes do blues: “well, you can call me a low life, but i’ll leave the high life too, cause if I’d never hit bottle, wouldn’t know all the things I do”. Tocou bem na essência, Mr. Margolin.

“Young and Old Blues” é uma divertida visão sobre o choque de gerações, sobre envelhecer. A imagem que Margolin utiliza é ficar impressionado com B. B. King, um homem tão velho, tocar e cantar o blues como ele toca e canta. Em seguida, sua banda estava tocando tão alto numa escola para um monte de adolescentes que eles nem conseguiam conversar. Como Margolin diz, o novo e o velho depende de que lado você olha. É coisa pra quem gosta de música de velho, como se diz. Já “Ask Me No Question” lembra um pouco Johnny Cash, principalmente com a voz grave de Margolin. É o momento de depressão antes da festa de sábado a noite, que não tarda a chegar com “Feelin’ Right Tonight”. Hora de curtir, não importa o que lhe digam. Já “Devil’s Daugher” é para depois da farra, arrastada, cheia de solos de slide, sombria, deixando no ponto para uma dança com a filha do capeta.

“Heaven Mississippi” é um show à parte, para deixar todo fã de blues emocionado, pela quantidade de referências a essa terra que é tida como o Berço do Blues, o “paraíso”, o segregado, o racista Estado do Mississipi, que forneceu as condições para as experiências compartilhadas pela comunidade negra, que acabaram potencializadas no blues. Como bom conhecedor, Margolin acerta em cheio nas referências, pagando tributo especial a seu mentor, Muddy Waters, que é quem o guia nessa jornada: “Heaven Mississippi, the blues i love was there, heaven, heaven Mississippi old school blues fill the air”. Robert Johnson, Pinetop Perkins, Muddy Waters, Hubert Sumlin, Jimmy Rodgers, Willie “Big Eyes” Smith, Junior Wells, Freddie King, é por causa de todos esses e muitos outros, que Margolin enfim atesta: “in heaven Mississippi the blues will never die”.

My Road é um álbum que atinge o seu objetivo: mostrar um pouco da carreira desse guitarrista que já tem onze discos solo, inúmeros projetos e participações especiais e está num momento especial em sua vida, sendo uma figura respeitável na cena do blues, com uma agenda frequente de shows e consistentes álbuns lançados. Ou seja, My Road é um compêndio das variadas facetas desse grande guitarrista do blues, mas mantendo-se sempre na sua maior paixão: o bom e velho blues.

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Sobre André Espínola

André Espínola, recifense, estudante de História e apaixonado por música, quer levar um pouco de sua paixão para os outros, resenhando sobre novos lançamentos e pagando tributo aos clássicos e às nossas raízes musicais, sobretudo o Blues, Rock e Jazz, cuja missão básica é dizer aos quatro cantos: "a boa música nunca morrerá!". Possui o blog Filho do Blues, onde escreve e edita textos sobre as novidades musicais do mundo do rock, indie e blues.

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