Bee Gees: Doses desiguais de experimentação e conservadorismo

Resenha - To Whom It May Concern - Bee Gees

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Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
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Nota: 8

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Sem aviso prévio, uma penca de gravações dos Bee Gees desapareceu na neblina. Por trás dos astutos homens de negócios, um catálogo profundo se estende do fim dos anos 1960 a 2002. Para quem se interessar, há mais segredos nas vidas dos três românticos do que Disco Music.

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“Run to Me”. A simples afirmação dos irmãos Gibb trouxe complexidade às planícies emocionais. Dedilhando o violão que seguraria até seu último single “This is Where I Came In”, Maurice desliza por um arranjo etéreo de cordas. A dor de Robin atravessa melodias Country emprestadas para refrães Soul tão imediatos que machucam sem querer. Com vocais de apoio assustadores, Barry torna o combo mais denso. Entre balada e reflexão de cantores-compositores, um hit.

Pinceladas psicodélicas só aparecem de vez em quando, mesmo assim “We Lost the Road”. Longas melodias cedem espaço para moinhos vocais. Apesar de lembranças Country visíveis, a força da performance advém de um refrão massivo. Através das teias de aranha tecidas por Maurice e Alan Kendall, Barry se move nas batidas profundas de dores do persistente amor.

Uma balada Country orquestrada, pode haver uma? Perspectivas de morte e amores rompidos se arrastam pelo cenário acústico, à medida que Robin canta a jornada introspectiva. “Never Been Alone”. Empatia morosa destila a atenção ouvinte, não muito mais que um desfile linear adornado por uma seção de metais irônica, ainda assim afetiva.

Facções da corte Pop consideraram os Bee Gees herdeiros ao trono dos Beatles. Em nenhum outro lugar eles soaram tão perto de ser “Fab Three” quanto em “Paper Mache, Cabbages and Kings”, mini-suíte misturando vaudeville, psicodelia e o padrão hermético de Abbey Road. Barry e Maurice vocalizam como John Lennon em “A Day in the Life”. Um final enigmático (“Jimmy had a bomb but the bomb went bang”) soa tão desconfortável em seu nonsense primário (pensando em fazer barulho) quanto “I Am the Walrus” soava charmosa. Mérito dos irmãos, a suíte soa como uma declaração emocional coesa. Da aceitação sedada de Maurice à agonia teatral de Robin (imitando Paul McCartney em “Golden Slumbers”) chegando aos la-la-las sensoriais (que lembram outro clássico dos Bee Gees, “Holiday”), a colagem se segura melhor do que “Happiness is a Warm Gun”. Se as músicas dos Beatles prenunciaram o Rock Progressivo, em 1972 a faísca do pioneirismo se evade da performance imaculada. A suíte dos Bee Gees soa um tanto quanto retrô em meio a Tarkus, Close to the Edge e Meddle – e perturbadoramente exótica.

Canções sobre o travesseiro ficam mais suaves em tempos de saudade. O número solo de Barry “I Can Bring Love” traz tudo que ele tem: acenos acústicos de sinceridade Country. Não muito distante dos confessionais de McCartney (a mesma intimidade casual, separados por anos-luz de produção).

“I Held a Party” e ninguém veio. Maurício com um órgão Moog, Robin ao microfone com Barry na retaguarda dessa psicodelia britânica, mais linear do que os devaneios anteriores. Sinfonia de bolso estimulada por refrães vagos se afunda no éter.

“Please Don’t Turn Out the Lights” traz o Gospel-Soul orquestrado dos Rolling Stones para a relva melancólica de Elton John. Uma queimadura breve do vibrato de Robin basta para tornar a vinheta de Abbey Road uma pequena joia contra o pano de fundo de um coral ondulante.

Barry e Robin se encontram estoicamente em “Sea of Smiling Faces”. Vocais bonitinhos se afundam nas cordas em piloto automático. Ontem era história, às vezes remédios adocicados não levam a um novo mundo. Nostalgia velada quase ultrapassa o refrão.

Enfim guitarras, num boogie Glam surpreendente (e descuidado). “Bad Bad Dream” funde o refrão de “Day Tripper” com a malemolência do T-Rex. Tremulando como “Jet” (dos Wings), sem vergonha como o Slade (e sem refrães e riffs), resta aos metais roubar aos Mods relevância. Robin/Barry craques, Maurice/Kendall (solos inclusos) dão para o gasto, Clem Cattini sacal na bateria. Sweet demais estraga o prato.

Acima de todas as excentricidades, o chiclete elegante de Maurice. “You Know It’s For You” quando uma produção imaculada dessas funciona dentro de tímidos Mellotrons. A primeira música composta para o disco (Junho de 1971) era discreta em comparação com suas colegas suntuosas. Maurice toca tudo menos a bateria (por Geoff Bridgford), enfatizando o minimalismo (um pouco menos que Barry e nem tão depressivo quanto Robin). Simplicidade alimenta a sinceridade. Isso não é necessariamente verdade, apenas ouça.

Quando os Bee Gees entraram em atrito com a vaidade teimosa no começo dos anos 1970, conquistaram terreno para pequenas melodias desconcertantes. Eles deviam estar indo para algum lugar, mesmo que os fins não sejam tão fáceis de ver (apenas vislumbrados). Após o pontapé inicial do piano ganchudo de Maurice, “Alive” ergue em cascatas de inquietude uma performance de suprema confiança do desesperado Barry e do imperturbável Robin – que se arrastam por excessos.

“The Road to Alaska” parece longe demais. Robin canta com um gemido afetado que subitamente convida à depressão. Todos os envolvidos se atracam violentamente à melodia. O resultado parece improvável. Mas dificilmente imprevisível. Os Bee Gees eram artesãos do risco. Muitas idas e vindas depois, de algum modo eles chegam muito perto de um Country Rock de arrepiar os pelos do braço.

Maurice soa assustador durante a introdução de Mellotron. “Sweet Song of Summer” rasteja estranhezas – um PINK FLOYD com vocais mais apurados (não muito mais que “Set the Controls for the Heart of the Sun”). Se for o canto do cisne de suas inclinações Prog, o fará com estilo: percussão enterrada na natureza e o espectro de Barry deixando a Terra, ao invés de se conectar aos Beatles. Acústica de aquário trai as baladas dos Gibbs. Vocalizes bizarros virados do avesso por Robin numa ausência de referência para além de tropos Prog-Psicodélicos (Gong até o fim) tornam mais difíceis as coisas para uma audiência Pop já conquistada.

To Whom It May Concern (#35 nos EUA) traz doses desiguais de experimentação e conservadorismo. As tentativas de inovar cautelosamente dão certo ao longo do esforço de ir além das fórmulas. A soma de novas e velhas notícias é recompensadora.

Tracklist:

(9) Run to Me (#9 no Reino Unido)
(8) We Lost the Road
(7) Never Been Alone
(8) Paper Mache, Cabbages and Kings
(8) I Can Bring Love
(7) I Held a Party
(8) Please Don’t Turn Off the Lights
(7) Sea of Smiling Faces
(7) Bad Bad Dreams
(9) You Know It’s For You
(7) Alive
(7) The Road to Alaska (lado B do single “Run to Me”)
(9) Sweet Song of Summer

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