Resenha - Psychedelic Sounds Of 13th Floor Elevators - 13th Floor Elevators

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Resenha - Psychedelic Sounds Of 13th Floor Elevators - 13th Floor Elevators


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Roky Erickson era louco de pedra.

Roky Erickson tomou mais drogas do que Syd Barret e Brian Jones juntos. Roky Erickson deixava os amplificadores de sua garagem de ensaios ligados no pico por horsas a fio, só pra ouvir a microfonia sem parar, infernizando os vizinhos. Roky Erickson era constantemente preso pela polícia do Texas. Roky Erickson fora internado num manicômio para loucos da pior espécie, e tratado com eletrochoques. Roky Erickson deixava os vários televisores de sua casa ligados fora do ar, todos juntos, para captar as mensagens vindas dos marcianos. Roky Erickson provavelmente já havia sido abduzido e trazido de volta à Terra pelos ET’s muitas vezes.

Pessoalmente, eu prefiro a última estória. Uma série de lendas correu o mundo já sobre a figura de Roky Erickson, um ícone do rock de garagem fuleiro que o mundo esqueceu. O pior de tudo: 90% de todas estas estórias absurdas são a mais pura verdade.

Não há como falar nos Thirteenth Floor Elevators sem tocar no assunto Roky Erickson – o seu líder e componente principal, o cantor que, durante décadas, foi incensado nos quartos escuros e garagens vagabundas de todo garotinho que, algum dia, teve a ousadia de se perder nos sons dourados da psicodelia torta e barata das bandinhas americanas de rock da última metade dos anos 60. Por todo esse vigor e essa economia de recursos mesmo é que elas desenvolveram um gênero no rock que só muitos anos depois seria devidamente apreciado e receberia verdadeira atenção: o garage rock. Mas aquilo que, muitos anos antes do movimento punk acontecer, estava predestinado a ser a luz-guia de gente como Johnny Rotten e Joey Ramone – esse tal de rock de garagem americano -, flertava com uma lisergia das mais pesadas, e teria em Roky Erickson, muito provavelmente, seu expoente máximo. Os Thirteenth Floor Elevators formavam, junto a outras quatro bandas, aquilo que eu gosto de chamar de “o quinteto sagrado” do rock de garagem sessentista. Blues Magoos, The Seeds, Chocolate Watch Band e Strawberry Alarm Clock, na minha opinião, são o que de mais louco e agressivo a fase 1965-1968 do rock ianque conseguiu produzir. Sei que muita gente, também, gostaria de acrescentar os imorais The Sonics à lista, de hits abusados como “The Witch” e “Strychnine”. Gente despirocada e criativa, que ia muito além dos limites impostos pela psicodelia de bandas britânicas que haviam recém invadido a América, como os Beatles, Stones, Animals e Yardbirds. O que eles faziam era catar o som desse pessoal, aumentar quase tudo ao máximo, e acrescentar um toque muito pessoal de ousadia e sacanagem, fosse nas letras ou nas sinuosas viradas de ritmo. Como consequência, tiveram poucos sucessos na lista dos mais vendidos – não eram considerados tão “originais” quanto medalhões americanos da época, como The Byrds, Doors ou Buffalo Springfield. Mas, mesmo regurgitando aquele sonzinho inglês do blues, que havia por sua vez sido inspirado no próprio rockinho americano dos anos 50, da forma mais primal e extravagente possível, devolveram aos EUA um pouco do orgulho de serem os legítimos pais da criança que até hoje jovens de todo o mundo amam adorar.

De toda essa galera, entretanto, como eu já disse, acho que os Thirteenth Floor Elevators eram os expoentes máximos. Por que? Por causa de todas as circunstâncias adversas que rondavam a trajetória dos garotos, e por causa de sua inventividade e extrema cara-de-pau em serem, como eles mesmos se proclamavam em início de carreira, a única verdadeira “banda de rock do Texas”. Que loucura... Imaginar que lá nos cafundós de uma das regiões mais caipiras do Tio Sam, terra de cowboys e música country, cinco lunáticos se reuniram para fazer rythim n’ blues pauleira com letras centradas em experiências astrais de ascensão espiritual (através da erva, diga-se de passagem) e viagens de discos voadores. O grupo era composto por Roky Erickson, um jovem de apenas 17 anos egresso do grupo The Spades, Stacy Sutherland (guitarra), Benny Thurman (baixo), John Walker (bateria), e o membro fundador Tommy Hall – um porra-louca estudante de filosofia da Universidade de Austin e “irmão de ácido” de Roky, que, metido em experiências com novos instrumentos musicais, havia inventado o grande lance que destacou a sonoridade dos Elevators dentre os outros grupos de sua época: um jug elétrico, que lembrava aquelas máquinas de barulho pulsante das naves em filmes de ficção científica, e espargia seus ruídos estelares durante as execuções das músicas do grupo.

O próprio nome do grupo era uma afronta às instituições americanas mais conservadoras, e uma de suas grandes fobias: o medo do número 13, inclusive no concernente a andares de prédios. Em muitas cidades dos EUA, os edifícios sempre evitaram o andar 13, que era comumente fechado e abandonado, pois dificilmente havia moradores dispostos a enfrentar tal superstição. O nome da banda, entretanto, era Thirteenth Floor Elevators, ou seja, os Elevadores para o Décimo-Terceiro Andar! Era pura ousadia, ainda mais se você julgar que estamos falando duma época de conservadorismo, os anos 60. No entanto, como aquela foi uma década de quebra de tabus também, nada mal o surgimento de Erickson e sua gangue.

Assim que começaram a arrepiar a vizinhança das garagens onde ensaiavam, eles saíram para as primeiras festinhas e bailinhos, já fazendo covers azeitadas dos grupos ingleses, como Rolling Stones e Kinks. Logo, Erickson desenvolveria um estilo muito pessoal de cantar, aprendendo tudo de improviso mesmo: a voz adolescente e escrachada emulava aquilo que um crítico americano, uma vez, chamou de “a versão capenga de Mick Jagger”.

Logo, portanto, chamaram a atenção do prestimoso e bom observador Denny Zeitler, dono da Independent Music Sales, uma pequena gravadora de San Francisco – que, naquele outono de 1966, já se preparava para o que viria a ser o mágico Verão das Flores de 1967, que daria pontapé ao movimento hippie. Em uma visita ao Texas, ouve falar da bandinha de Erickson e foi conferir. Resultado: soube enxergar o potencial do grupo e os contratou para o single de uma música que vinha do repertório do grupo anterior de Erickson, e que os Elevators tocavam nos shows, levando a platéia ao delírio: “You’re Gonna Miss Me”. Essa composição do próprio Erickson, produzida por Gordon Bynum, flertava perigosamente com a surf music de Los Angeles e o som dos Animals e Stones, beirando a piração total e ainda adicionando um solo de gaita alucinado em meio a tanta barulheira. Acabaria sendo o único verdadeiro hit dos esquecidos Elevators, atingindo o 3.º lugar da parada nacional naquele ano.

O êxito do compacto, alavancado pela ajuda de vários amigos radialistas que iam do interior até a Costa Oeste americana – formando uma verdadeira rede de execução que ajudou a música a se tornar um sucesso - motivaria a International Records, de Houston, Texas, a comprar a banda e bancar a produção do seu primeiro LP, produzido pelo novato Lelan Rogers – irmão do (pasmem!) cantor country Kenny Rogers. É essa obscura obra-prima, empoeirada no sótão das esquisitices rock, que analisamos aqui.

O disco abre com o hit “You’re Gonna Miss Me”, na mesma versão lançada em compacto – mas que dá somente uma esparsa idéia do banho de ácido e loucura que vem depois. A produção totalmente tosca – com certeza uma das piores já realizadas na história do rock! - não impede que o ouvinte deleite o verdadeiro mundo bizarro e esquizofrênico de alucinações que sai da mente de Erickson e do som de sua banda.

“Roller Coaster”, que vem depois, é uma pérola magnética, em andamento vertiginoso, que embarca o ouvinte em uma viagem encharcada de narguilé indiano pela montanha-russa do descobrimento interior. A capa multi-colorida, junto ao encarte original do álbum, trazem uma enigmática figura que reflete tudo isso e a concepção original do rock piscodélico segundo Erickson: é quando, como ele mesmo dizia, “a pirâmide encontra o olho”. Em meio a um riff de guitarra super marginal e um crescendo ensandecido, ouvem-se os gritinhos esganiçados de Erickson e o jug ensandecido de Tommy Hall emoldurando a loucura sonora. Já “Splash (Now I’m Home)” é uma das mais belas baladas que o rock psicodélico dos anos 60 já urdiu, reflexiva e bucólica, exaltando um encontro com a “consciência superior”.

Músicas como “Fire Engine” e “Reverberation”, por sua vez, estão envoltas em uma tensão rítmica pulsante e sempre em ebulição, especialmente a última, com o seu refrãozinho grudento. Já “You Don’t Know”, “Monkey Island” e “Tried to Hide” visitam parâmetros do rythim n’ blues já há muito esquecidos, reconduzindo-os à realidade do LSD e dos experimentalismos sonoros de leves pinceladas folk, com uma batida simplesmente atmosférica. Outra faixa mais lenta do disco, “Kingdom of Heaven”, talvez seja uma das melhores músicas de Erickson em todos os tempos – diante da introdução de guitarra mais espacial e alienígena já criada que dá entrada a uma letra pra lá de etérea (prova inconteste dos contatos de Erickson com seres cósmicos!), o cantor filosofa sobre os mistérios da reinterpretação do homem sobre a imagem bíblica de Deus, levado por um rito cadenciado de baixo, bateria e jug, lisérgico à última potência. “...And the kingdom of heaven is within’ you” (...E o reino dos céus está dentro de você”) é a revelação que Erickson despeja sobre ouvidos desavisados.

The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators não vendeu quase nada, foi um fracasso comercial retumbante, e condenou Roky Erickson e seu grupo a fazerem shows vagabundos pelos cafundós do Texas e de outras cidades americanas pelo resto de sua carreira. Nas áreas centrais do psicodelismo americano (como Los Angeles e San Francisco), a banda nunca mais atingiu o êxito esperado após o sucesso do primeiro single. Com algum esforço, entretanto, ainda viriam a gravar mais dois álbuns de estúdio – Easter Everywhere (1967), com uma produção bem melhor, e o sensacional último álbum, Bull of the Woods (1968) - antes de desaparecerem por completo. Erickson, assim como outros grandes heróis do rock sessentista, chafurdaria feio em seus próprios vícios e pirações, sendo preso um pouco antes do lançamento do último LP, por posse de maconha. Apareceria alguns bons anos depois, já velho e barbudo, em algumas publicações sensacionalistas americanas, que o apontavam como “o lunático líder de uma banda dos anos 60 que gosta de se trancafiar em casa com televisores fora do ar no último volume para fazer contato com marcianos”. Surgiram daí também os boatos, confirmados, de que o cantor havia passado uma boa temporada, durante os anos 70, internado em um manicômio de Houston, recebendo tratamento de eletrochoque para se livrar das drogas. Reza a lenda que, para seu azar, havia sido “instruído” por um advogado a alegar que tinha distúrbio mental para escapar de uma pesada pena como traficante, quando de sua prisão. Daí ele foi mandado para o Rusk State Hospital, onde ficou por cinco anos recebendo descarga elétrica nos miolos e no saco. Grande cura eles operaram no cara... Apesar de todos esses percalços, Erickson ainda reuniu forças para, ao sair de lá, em 1975, editar um belo livro de poesias e montar a banda Roky Erickson & The Aliens. Um verdadeiro sobrevivente, sem dúvida.

Quando o mundo redescobriu, nos anos 80 e 90, o mundo mágico do rock psicodélico americano, época de renascimento do interesse por Jim Morrison e seus Doors, Jimi Hendrix e vários outros, muitos outros grupos foram arrastados a rodo por essa onda, sendo os Thirteenth Floor Elevators um deles. Venderam mais discos, repletos de raridades, e coletâneas, em formato CD, do que jamais venderam em vinil nos anos 60, durante a época em que existiam. Somente a partir de então Roky Erickson e sua obra brilhante, vanguardista, extremamente mal gravada e divulgada, foram redescobertos. Shine on you crazy diamond !



Denio Alves, 26, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Para ele, de Peter, Paul & Mary até Morbid Angel, vale tudo musicalmente... desde que te deixe com um belo sorriso na face, claro.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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