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Antes de gravarem o próximo CD, eis que inesperadamente o ótimo vocalista Celso resolve deixar o grupo para dedicar-se exclusivamente ao ministério de louvor de sua igreja. César (que até então era tecladista da banda) mostra suas qualidades vocais e assume o posto de vocalista do Stauros. O Line-up firma-se com: César (vocal), Renatinho (guitarra), Alessandro (guitarra), Vê (baixo), e Alê (bateria). Apoiados por uma excelente gravadora, line-up estabilizado, várias idéias em mente e tudo para se consagrar... nesse clima é gravado “Seaquake”.
O som do Stauros pode ser definido como “Heavy Metal Progressivo”. Músicas bem trabalhadas, intercalando peso, melodia e velocidade, letras muito acima da média, claras e objetivas, e uma dupla de ótimos guitarristas, conferem a banda uma qualidade singular.
Vamos ao CD. A começar pela belíssima arte gráfica, a primeira música que dá título ao trabalho, “Seaquake”, já começa com o duo de guitarras bem entrosadas, dando uma quebrada quando entra o vocal. Segue com riffões poderosos e instrumental muito bom, uma das melhores do álbum. Pode-se notar uma leve influência do Tourniquet no vocal, só que mais melodioso e variado. A letra é poética: “mergulhando em meu oceano, num tempo de maremoto, o enfrentando para nunca mais, ser como eu era antes, prisioneiro da natureza em fúria, prisioneiro das rotas do passado... tripulação diga-me, como escapar do maremoto? olhe! você pode andar sobre as águas e chegar a um cais seguro! você pode enfrentar esse mar e chegar salvo pela manhã... não há ninguém aqui (para me ajudar), (agora) câimbras em meu corpo e uma pedra de gelo em minha alma, eu estou preso novamente (você está aqui?), dentro deste maremoto, papai você pode me ajudar, eu sei.”
Depois desse banho de poesia, inicia-se “Rusty Machine”, mais cadenciada, com um clima hipnotizante(!?), até estourar num riff violento, pesadaço, dando aquelas paradinhas clássicas, voltando ao riff de novo, e a bateria acompanhando, ficou muito bem arranjada, costurada com perfeição, nota 10.
“The First Mile” parece herdar o riff de “Rusty Machine”, só que esta música está menos crua, com participação de mais elementos, os outros instrumentos aparecem mais do que apenas a guitarra e a bateria, e ainda conta com um “coro”. Apesar de esta estar mais trabalhada, ainda prefiro a anterior, justamente pela “crueza” aplicada.
“The Second Mile” começa mais progressiva, mais melódica. Junte Pink Floyd, Sonata Arctica e baladas a lá Blind Guardian, uma das músicas mais agradáveis do disco.
“Victory Act” é uma lindíssima balada, emocionante, violão tocado com maestria, leva-te a uma tarde ensolarada no litoral com aquela brisa tocando o seu rosto, deitado, observando o céu, azul, límpido e imponente, uma sensação de paz, calma e felicidade.
“Whitout Truces” é forte, direta e ácida, massa sonora impactante, boas cavalgadas e quebradas estratégicas. Nota-se o cuidado muito grande com a produção do CD. Muito profissional, guitarras muito bem entrosadas, excelente faixa.
“Vital Blood” mistura elementos de todas as anteriores. Melodia, peso, velocidade, riffs poderosos, passagens levemente progressivas e bons solos.
“Love in Vain” é outra balada. Diferente de “Victory Act”, o vocalista empregou uma voz mais aguda, mais puxada pro melódico. Podemos notar que a voz dele se encaixa melhor em baladas, fica mais natural, nas músicas mais pesadas ficam um pouco forçadas, contribuindo para o cd soar menos agradável do que poderia ser. Talvez por originalmente ser um tecladista, ele não se encontrou muito bem.
“Friendly Hand” é diferente das outras, tem um clima novo, vai evoluindo em flashes da guitarra culminando num solo, muito veloz e atmosférico, excelente efeito. O vocalista fez um balanço entre grave e agudo que ficou muito bom, os guitarristas dão um show nesta música, grandes instrumentistas e ótima faixa.
“Dance of The Seeds” é bem pesada, talvez a mais pesada do álbum, riffs bate-cabeça e vocal rasgado. Lembra o Tourniquet de novo (impossível deixar de falar isso). Eles devem gostar muito dessa banda, só que aqui eles empregaram mais “classe”, mais garra, mais energia.
“Every Pain II” é uma semi-balada, melodiosa e progressiva (isto no seu início), onde o vocalista desfila todo o seu repertório de climas e variações, todo o seu poder, e o instrumental segue o estilo, indo de um violão mais harmonioso até a guitarra mais agressiva. A bateria se encaixou perfeitamente, influenciando muito no resultado final; é o que mais se destaca na música. Tudo está perfeito. Uma das melhores composições do álbum.
“Inside of The Eyes” é onde o teclado tem o maior destaque. A marcação forte do violão e o backing vocal sussurrante dão um clima todo especial à composição, muito criativa e majestosamente bem executada.
“Faith in The Arena” é a música mais longa do disco, 07:03 minutos, e dividida em 4 partes. É aquela música que engloba todo o repertório do grupo, que resume o que é o Stauros. Todas as variações são usadas, todos os instrumentos, todos os truques e artimanhas, todos os climas e recursos possíveis. Mostra toda a qualidade do grupo.
“Seaquake” é até hoje o melhor cd do Stauros (englobando os 5 já lançados) e não vai ser fácil de ser superado. A banda toda prova que realmente está bem acima da média das bandas que existem por aí, e facilmente se destaca no enxame de bandas que vem surgindo nos últimos tempos. O white metal nacional se orgulha de ter esses caras ao seu lado. Superam inclusive muita banda estrangeira.
Mas precisamos ressaltar: as partes instrumentais de certas faixas são muito parecidas e a partir de algum momento o cd periga ficar enjoativo, com fórmulas um pouco repetidas. Não chega a incomodar, todas são belas faixas, muito bem trabalhadas, mas fica aí a dica para que o “problema” seja corrigido. Os teclados foram raramente utilizados neste cd, mas quando usados foram utilizados corretamente, digno de nota.
Procure este cd, compre-o ou peça emprestado (só não roube, senão Deus castiga, hehehehe), mas não deixe de conhecer uma das melhores bandas do cenário white metal brasileiro. Faça a você mesmo este favor.
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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