Kiss em Belo Horizonte marca o fim de uma era para o rock
Resenha - Kiss (Mineirão, Belo Horizonte, 20/04/2023)
Por Bruno Lisboa
Postado em 28 de abril de 2023
Assistir ao Kiss ao vivo é ver a história do rock’n’roll passar diante dos seus olhos. Afinal, a banda liderada por Paul Stanley e Gene Simmons, ao longo dos 50 anos de estrada, ajudou a formatar e a propagar as características essenciais do gênero que se tornaram ícone por gerações.
Fotos: Alexandre Biciati
Está tudo, ou quase isso, ali representado: os riffs memoráveis, grandes canções, as explosões de palco, o baixo e a bateria em sintonia, os vocais marcantes e o grande apelo visual. Mas o que outrora era fascinante, hoje soa datado e previsível. Some-se o preço salgado dos ingressos e talvez isso justifique a presença mediana do público de cerca de 15 mil pessoas que ocupou metade do espaço selecionado das dependências do estádio Mineirão.

Claro que isso pouco importou para boa parte dos presentes, que almejavam estar ali de corpo presente alimentando sua própria nostalgia ou tentando transferir o legado para seus filhos, buscando rememorar outros tempos nos quais estabeleceram conexões com a banda. Porém, se o rock antes ocupava o status de protagonismo em décadas anteriores, na atualidade vive da memória e soa, por muitas vezes, pastiche de si.

Para o Kiss também pouco importa toda essa reflexão. O que a banda deseja é entregar algo que seja saboroso e saciável. E, nesse sentido, cumpre a função com louvor, mas, para tanto, utiliza ingredientes industrializados em sua receita. Não há espaço para imperfeições. Nenhuma nota está errada. Toda performance é impecável e, na mesma medida, é artificial e regrada, faltando assim a característica essencial ao rock: a espontaneidade.

O esgotamento da fórmula faz com que seja totalmente compreensível que o grupo queria sair dos holofotes como a turnê atual deixa transparecer, mas ainda assim buscam fazê-lo com dignidade. E o fazem.

A abertura da noite ficou a cargo do Sepultura que foi, de certa forma, um contraponto à proposta do Kiss, soando crua, visceral, honesta e cheia de novidades. A banda, que a muito tempo não se apresentava na capital mineira, veio a Belo Horizonte com a intenção de divulgar o seu mais novo disco, o elogiado Quadra (2022). Do mesmo, vieram faixas como "Isolation", "Agony of Defeat", "Means to an End" e "Guardians of Earth" que em nada devem ao repertório clássico.


E falando neles, o público foi agraciado com canções retiradas de álbuns clássicos como Chaos A.D. (1993) como "Territory", "Propaganda" e "Refuse/Resist". De Arise (1991) vieram a faixa título e "Dead Embryonic Cells" que foi dedicada aos metaleiros da velha guarda.


Já de Roots (1996) escolheram "Ratamahatta" e "Roots Bloody Roots" que gerou o momento de maior catarse do público durante o show. As duas últimas, aliás, não só fecharam o show como também contaram com a participação de Yohan Kisser, filho de Andreas, na guitarra base.

Comunicativo, Andreas Kisser a todo momento procurou interagir com o público contando histórias, deixando transparecer o quão feliz ele e a banda estavam ao ter a oportunidade de tocar "em casa".

Precisamente às 20:45, precedidos por "Rock’n’Roll" do Led Zeppelin, o Kiss adentrou o palco tocando o hino atemporal "Detroit Rock City". E se tem algo que não falta no repertório do grupo são canções que marcaram época.



Ao longo de duas horas se apresentação hits de todas as fases do grupo foram contemplados. Da fase setentista, álbuns como Destroyer(1976), disco mais celebrado do grupo, o debut Kiss (1973) e Rock and Roll Over (1976) foram o carro chefe do show, ocupando basicamente metade do setlist. Mas ainda houve espaço para resgatar pérolas de trabalhos celebrados como Creatures of the Night (1982) e de fases mais recentes, representadas por faixas de discos como Sonic Boom (2009) e Monster (2012).


Usando de uma enorme estrutura de palco, a banda explorou, como de praxe, diversos recursos como plataformas de elevação, fogos, sangue falso, projeções nos telões e a esperada tirolesa (usada por Stanley durante "Love Gun" / "I was Made for Lovin' You"). Essa soma de fatores fez com o público ganhasse uma experiência visual acachapante.


O set da noite foi composto 19 faixas que foram cantadas em uníssono pelos presentes com atenção especial para as faixas "Deuce", "Shout it Out Loud", "Lick it Up", "Psycho Circus" e "Rock and Roll All Nite", que encerrou a noite

A turnê mundial "End of the Road Tour" tem sido marcada por shows arrebatadores que marcam o fim de uma era, mas deixa claro que a saída do grupo dos holofotes em nada interferirá na relação da banda e seus fãs, que seguirão, tal como numa religião, disseminando a palavra do Kiss para todo o sempre.


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