Roger Waters: Quem entendeu saiu do Beira-Rio de alma lavada
Resenha - Roger Waters (Estádio Beira Rio, Porto Alegre, 30/10/2018)
Por Giovanni Fagundes
Postado em 08 de novembro de 2018
Era o intervalo do show. Após a habitual sequência de clássicos na 1ª parte, o Estádio Beira-Rio em Porto Alegre explodia em protestos. Na gigantesca tela do palco, "RESIST", com diversas mensagens que resumem o pensamento que Roger Waters coloca em sua obra no mínimo desde 1971/1972, quando assumiu a tarefa de criar sozinho as letras do Pink Floyd. Gritos efusivos de "Ele não" contra "Fora PT". A celebração musical transformava-se em ato. A favor e contra o Presidente eleito. A turnê, aliás batizada de "Us + Them", via mais uma vez ao vivo divisão, afastamento e por que não dizer, ódio.
Na arquibancada superior, pessoas ao meu lado vaiavam. Frases como "Para de protesto e vamos trabalhar", "Mais trabalho, tu viestes aqui para tocar música" e outras impublicáveis surgiam aos urros. Outros aplaudiam, aos gritos de "Fora fascismo", "Ele não".
Vivemos numa democracia, arduamente conquistada e cada um pode expressar suas opiniões livremente. Esperemos que continue assim.
Porém, o intrigante é qual diferença entre o "RESIST" do telão e as músicas? Nenhuma. As músicas apresentadas e seu conceito eram o "RESIST musical", vamos dizer assim. Para qualquer conhecedor mínimo do artista e de sua obra, havia total sintonia entre a manifestação político social e o set list apresentado. Perguntei, diversas vezes, quem vaia sabe que artista é este ? Entenderam sua mensagem ? Sabem do que se trata "Dogs", "Pigs" e "Money" ?
Em 1977, o Pink Floyd excursionou para promover "Animals". Waters ficou espantado com a alienação do seu público. O impacto foi tão grande que resolveu construir um muro entre sua mensagem e a audiência. Veio daí a gênese de "The Wall". Quarenta anos depois, parte do público mostra que o muro continua lá. Pessoas que simplesmente vão a um show "do cara do Pink Floyd". Sem entender nada.
Tirando os momentos "Nós x Eles" e indo para a música, Waters apresentou show um impecável. Abrindo com "Speak to Me" e "Breathe" e imediatamente emendando "One of These Days", com seu ritmo acelerado. "Time" foi cantada a plenos pulmões pelo público. A banda de Waters mostrou-se excelente. Os músicos recriaram perfeitamente os instrumentais originais. Os guitarristas não se furtaram de buscar cada timbre e solo de David Gilmour. Trabalho bom, apesar de que igualar o guitarrista Floydiano é uma missão quase impossível.
"Welcome to The Machine" foi um momento quase transcendental da noite. A força desta música, não tão conhecida, é espantosa. Em várias oportunidades o guitarrista Jonathan Wilson cantou partes de músicas que ficaram marcadas na voz de David Gilmour. O resultado foi médio. É fato que Waters não tem alcance vocal para canções como "Money", "Us & Them" e outras. Mas em "Wish You Were Here", o baixista não delegou a tarefa e foi à luta. Ficou claro a dificuldade em alguns momentos da música. Nada que interfira no resultado geral. Se parte do público não entende o conteúdo da obra do Floyd, imagine saber quem canta qual canção.
No final de "Another Brick In The The Wall" Partes 2 e 3, crianças que faziam o coral tiraram uniformes laranja de prisioneiros e mostraram o tão polêmico "RESIST" em suas camisetas, abrindo a sessão "non sense" de vaias.
Após o intervalo, com as chaminés, retratando a icônica capa de "Animals", surgindo atrás do palco, "Dogs", "Pigs" e "Money" deram o recado da visão de Waters sobre quem domina o mundo, guerra, injustiça social, poder do dinheiro. Os que vaiavam minutos antes, voltaram à "programação normal" do show, silêncio só explicado pelo desconhecimento do conteúdo.
As músicas da carreira solo do baixista apareceram, mas não passam de boas colagens de momentos Floydianos. Roger Waters está preso ao brilhantismo de sua obra dos anos 1970 e início dos 1980. A força das canções lançadas pelo grupo "eclipsa" (desculpe, não resisti) qualquer iniciativa solo. São boas canções, engajadas e alinhadas com a obra pregressa, mas a reação do público é protocolar.
"Brain Damage" e "Eclipse" encerram a noite, já sob forte chuva. Quando Waters canta que "os lunáticos estão na sua sala", não pude deixar de pensar nas vaias... Por questões de segurança, em função da chuva que se tornou torrencial e muitos raios no céu da noite de Porto Alegre, Waters anunciou que iria direto para última música, encerrando com "Comfortably Numb" acompanhada em coro pelo público.
Talvez seja a última vez que o britânico venha ao Brasil. Roger Waters é, foi e sempre será um artista engajado em causas anti-fascistas, a favor da preservação da natureza e um defensor ferrenho dos direitos humanos. Pelo momento político brasileiro, esta foi sua passagem mais conturbada. Mas as mensagens estiveram presentes em suas vindas anteriores ao Brasil e estão presentes em grande parte de sua obra.
Talvez o símbolo do muro, marca registrada de Waters, seja a metáfora perfeita de que sua mensagem não é entendida, pelo menos por parte de seu público.
Quem entendeu, saiu do Beira-Rio de alma lavada, pois viu um show tecnicamente impecável, de um genial artista. A música do Pink Floyd é tão poderosa que resistirá hoje, amanhã, nos dias futuros... Daqui a 20, 30 anos, alguém ouvirá pela 1ª vez ‘The Dark Side of The Moon" e ficará impressionado com sua magia. Se entender a sua mensagem, será um sinal de evolução.
Set 1:
Speak to Me - (Pink Floyd song)
Breathe - (Pink Floyd song)
One of These Days - (Pink Floyd song)
Time - (Pink Floyd song)
Breathe (Reprise) - (Pink Floyd song)
The Great Gig in the Sky - (Pink Floyd song)
Welcome to the Machine - (Pink Floyd song)
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here - (Pink Floyd song)
The Happiest Days of Our Lives - (Pink Floyd song)
Another Brick in the Wall Part 2 - (Pink Floyd song)
Another Brick in the Wall Part 3 - (Pink Floyd song)
Set 2:
Dogs - (Pink Floyd song)
Pigs (Three Different Ones) - (Pink Floyd song)
Money
Us and Them - (Pink Floyd song)
Smell the Roses
Brain Damage - (Pink Floyd song)
Eclipse - (Pink Floyd song)
Encore:
Comfortably Numb - (Pink Floyd song)
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