Ian Anderson: carregando o legado do Jethro Tull
Resenha - Ian Anderson (Teatro Bradesco, São Paulo, 10/10/2017)
Por Daniel Takata Gomes
Postado em 12 de outubro de 2017
Um dos últimos vídeos do canal Whiplash no YouTube trata de perguntar a alguns músicos qual banda gringa eles ouvem e que ninguém conhece. Após assistir o vídeo, me peguei pensando qual seria a banda desconhecida de minha preferência. Após pensar um pouco, deduzi que é o Jethro Tull.
O leitor de Whiplash pode questionar a escolha. Banda desconhecida? Mas, sim, em geral o Jethro Tull é uma banda ilustre desconhecida por aqui. O tempo e o mercado fonográfico não ajudam. Hoje, menos gente conhece a banda do que há 15 anos. Quantas pessoas que trabalham ou estudam com você sabem da existência do conjunto?
Felizmente, Ian Anderson, o eterno líder da banda, não parece ligar muito para isso. E, aos 70 anos, continua voltando para esses lados com frequência. A última vez havia sido em 2015, e essa é sua oitava vez no Brasil.
O Jethro Tull encerrou suas atividades em 2012, mas Anderson é a cara e a alma da banda. Ele sabe muito bem disso. Tanto que o nome da turnê é "The Best of Jethro Tull by Ian Anderson". Das 18 canções do setlist, 15 foram gravadas pelo Jethro. O tecladista John O'Hara e o baixista David Goodier faziam parte da última formação do conjunto britânico. O guitarrista Florian Opahle e o baterista Scott Hammond completam a formação da banda de Anderson.
O Teatro Bradesco, em São Paulo, estava lotado, mesmo com a pesada concorrência do jogo Brasil x Chile, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, acontecendo no estádio Allianz Parque, localizado ao lado do Shopping Bourbon, onde o teatro se localiza. Às 21h10, a banda adentrou ao palco, com Anderson empunhando sua característica flauta transversal e emendando os clássicos Living in the Past e Nothing is Easy. Explicou que as duas músicas são de 1969, e que agora iriam tocar Heavy Horses, "uma música nova em folha, de 1978", arrancando gargalhadas.
Thick as a Brick arrancou aplausos de pé da plateia, apesar de claramente a voz de Anderson estar cada dia mais comprometida: não chega nem perto das notas mais altas que outrora alcançava, a falta de fôlego prejudica (e muito) o fraseado e as desafinadas vêm em um número maior que o aceitável. Mas isso não é novidade para quem acompanha sua carreira nos últimos anos. Quem estava lá estava para ver a lenda em ação.
Aliás, a falta de voz foi plenamente compensada com um desempenho digno de um dos maiores frontmen da história da música. Em termos de carisma e envolvimento com a plateia, não é exagero dizer que Anderson sempre esteve no mesmo patamar de nomes como Freddie Mercury e Mick Jagger. E isso não mudou. O homem não para um minuto, continua tocando sua flauta sob apenas uma perna, corre de um lado para outro e incendeia a plateia o tempo inteiro.
O primeiro set foi encerrado com outros dois clássicos, Too Old to Rock 'n' Roll, Too Young to Die e Songs From the Wood, antes de um intervalo de cerca de 20 minutos. O início do segundo set, com músicas menos conhecidas, foi menos intenso. Mas a temperatura voltou a subir com A New Day Yesterday, um belo arranjo de guitarra para a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, My God e a indispensável Aqualung, cantada por todos. Para encerrar, o petardo Locomotive Breath.
Apesar das limitações impostas pela idade ao líder do Jethro Tull, ninguém pode dizer que não assistiu a um grande espetáculo no Teatro Bradesco. Vê-lo empunhar sua flauta equilibrando-se em uma perna, uma das imagens mais icônicas do rock, já valia o ingresso. E de quebra fomos presenteados com uma sequência de clássicos que fazem parte da história da música e que poucos artistas podem se gabar de ter semelhante.
Sempre pensamos que quando um artista desse porte aparece por aqui, pode ser a última oportunidade de vê-lo. Mas Anderson não tem planos de aposentadoria. Se depender da recepção que teve em São Paulo e de seu vigor, certamente logo retornará ao país pela nona vez. E pela décima, décima primeira, décima segunda...
Setlist:
1. Living in the Past
2. Nothing Is Easy
3. Heavy Horses
4. Thick as a Brick
5. Banker Bets, Banker Wins
6. Bourrée
7. Farm on the Freeway
8. Too Old to Rock 'n' Roll, Too Young to Die
9. Songs From the Wood
Intervalo
10. Sweet Dream
11. Pastime With Good Company
12. Fruits of Frankenfield
13. Dharma for One
14. A New Day Yesterday
15. Tocata e Fuga em Ré Menor
16. My God
17. Aqualung
Bis:
18. Locomotive Breath
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