Marillion: Duas horas cravadas de música da melhor qualidade

Resenha - Marillion (HSBC Brasil, São Paulo, 09/05/2014)

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Por Doctor Robert
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Poucos estilos de rock souberam incorporar novos elementos à sua sonoridade tão bem quanto o rock progressivo. E dentre as bandas da velha guarda, talvez o melhor exemplo disso seja o Marillion. Com seus mais de 30 anos de existência, presenciar uma apresentação do quinteto britânico é presenciar uma verdadeira palheta de cores e sensações diferentes, uma experiência única que só a boa música pode proporcionar.

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Talvez a síntese perfeita deste ecletismo todo seja justamente "Gaza", a mais longa faixa do último trabalho do grupo ("Sounds That Can't Be Made"), escolhida para abrir as apresentações desta "Best Sounds Tour". De um começo que flerta abertamente com o prog metal, passando por diversas variações, foi um pontapé inicial ousado, para se dizer o mínimo. Algo marcante desde esse começo era o prazer estampado na cara de cada um dos músicos em estar ali no palco.

Talvez no mundo da música o Marillion seja uma das poucas bandas antigas em atividade que estampe tão bem a máxima de Steve "Apple" Jobs: "A única maneira de se fazer um bom trabalho é amando o que você faz". E é exatamente essa sensação escancarada de prazer de tocar que torna os shows desse quinteto tão especiais - ver profissionais que estão ali, fazendo o que gostam e porque gostam, e não por obrigação ou para cumprir contrato.

Que o diga Steve Hogarth. O homem é o êxtase encarnado em cima do palco. Incorpora personagens, representa os sentimentos passados pelas letras das músicas, interage com a plateia o tempo todo. A ponto de pegar um copo de bebida de um fã e tomar um gole ou deixar que estes toquem em seus instrumentos... Até mesmo o sisudo Steve Rothery se mostra mais solto, caminhando pelo palco e sorrindo entre um e outro de seus solos classudos... O fantástico Mark Kelly, um dos tecladistas mais subestimados da história, era uma simpatia só, assim como Pete Trewavas e Ian Mosley, uma das cozinhas mais eficientes do progressivo.

O repertório desta apresentação em São Paulo foi perfeitamente de acordo com o título da turnê, que pretende fazer um desfile de alguns dos melhores momentos de sua extensa carreira. Teve para todos os gostos. As mais emocionais, como "No One Can" e "Beautiful", as mais animadas ("Man Of A Thousand Faces", com uma interação sensacional do público, "Cover My Eyes" e "Hooks In You"), momentos mais viajantes com "Power" e "This Strange Engine". E, claro, os momentos de maior êxtase, com alguns dos maiores clássicos da banda. Se "Easter" já foi de cara a segunda música da noite, o melhor ainda estava por vir...

A dobradinha "Warm Wet Circles/That Time Of The Night", no México foi revezada no bis com a trinca "Kayleigh/Lavender/Heart Of Lothian". Eis que naquela noite para deleite dos milhares ali presentes, houve a grata surpresa da execução das duas primeiras ainda na primeira parte do set, arrancando arrepios e lágrimas de muita gente, num dos momentos mais marcantes do show.

Obviamente a tríade do álbum "Misplaced Childhood" foi guardada para a volta ao palco. E foi durante "Lavender" que a interação público/banda atingiu seu auge, com milhares de vozes cantando na íntegra esse clássico.

De alma lavada, os fãs ainda teriam um segundo bis, com a ótima "Neverland", e Steve Hogarth reproduzindo seus ecos fielmente, além da guitarra sentimental de Steve Rothery e suas marcantes linhas sonoras. Pronto! Duas horas cravadas de música da melhor qualidade, ainda melhor e mais empolgante do que a já excelente apresentação de dois anos atrás. Coisas que somente quem gosta de seu trabalho e o faz com prazer é capaz de transmitir...

Vida longa ao Marillion!

Setlist:
1. Gaza
2. Easter
3. Beautiful
4. Power
5. Man of a Thousand Faces
6. No One Can
7. Warm Wet Circles
8. That Time of the Night (The Short Straw)
9. Cover My Eyes (Pain and Heaven)
10. Hooks in You
11. This Strange Engine

1° Bis:
12. Kayleigh
13. Lavender
14. Heart of Lothian

2° Bis:
15. Neverland


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Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

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