Resenha - Campari Rock (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 09/09/2006)

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Por Maurício Gomes Angelo
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Sentar para escrever este review é como desafiar-se a materializar o inefável. E quantas vezes você se sente desta maneira após um show de música? No meu caso, talvez seja a segunda. Mas quantas bandas são capazes de proporcionar-lhe experiência semelhante? Pouquíssimas, garanto.

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Ao entrar no Chevrolet Hall por volta das 10 da noite, a impressão que se tinha é que o público pop-indie-alternativo (!?!?!) belo-horizontino daria vexame semelhante ao ocorrido ano passado no TIM Festival. Felizmente, a apreensão passou e a casa recebeu um número até razoável de pagantes – ao menos longe de representar um desastre completo. Provavelmente não o suficiente para evitar o prejuízo dos produtores do Campari Rock, mas já um sinal de ânimo e fôlego que pode trazer a capital mineira mais eventos de grande porte como este.

O Digitaria, banda local de abertura, apostando num eletro pretensioso, até que não foi horrorosa, mas precisa aprender a valorizar mais a música ao invés da pose. Amadoramente fake, para encerrar a questão.

E não demorou muito para que os suecos do Cardigans, sem muito aviso, subissem ao palco. É difícil mensurar se o grupo, e principalmente Nina Person, supriram as expectativas. Fato é que o desempenho da vocalista, ao vivo, fica bem abaixo do estúdio. Sua voz nada tem de espetacular. O pop da banda também não. Ainda assim, é perceptível que, quando se empenham realmente numa composição – “Erase/Rewind“ e “Don’t Blame Your Daughter“, por exemplo – conseguem subir um degrau e ficar acima da média. Um show curto e morno, porém divertido. Cônscios de suas limitações, a banda faz uma boa mistura entre músicas lentas, ou de andamento moderado e melodias fáceis, até outras com considerável peso e esmero artístico, sem esquecer das bobinhas, claro.
De entrosamento natural com o público, que acompanhou a maioria do set-list, incluindo os hits “Loverfool” e “My Favourite Game”, fizeram exatamente aquilo que se esperava deles, não ultrapassando o “bom” e “correto”.

Ao contrário do Cardigans, raras pessoas ali esperavam muita coisa, ou conheciam algo do Gang Of Four. E sem dúvida os ingleses souberam tirar grande proveito deste desconhecimento, trazendo um impacto que dificilmente será esquecido. Surgidos no final dos anos 70, com reputação esquerdista e na onda do pós-punk inglês, embora pouco tenham a ver com o movimento por se configurarem como uma instituição a parte de qualquer comparação, deixaram como legado os clássicos “Entertainment!”, de 1979, e “Solid Gold”, de 1981, além de uma série de ótimos singles durante a década de 80.

De veia política e artística exaltadíssima - a exceção do baixista Dave Allen, os outros integrantes são formados em teatro e belas-artes pela Universidade de Leeds - é difícil imaginar um nome mais apropriado para o que Jon King (vocal), Andy Gill (guitarra), Dave Allen (baixo) e Hugo Burnham (bateria) representam no palco. Repentinamente, você se vê a bordo de um trem descarrilado prestes a cair no precipício. O instrumental, longe de seguir uma fórmula pronta, é extremamente orgânico e possui vida própria: conversam, insultam-se e desafiam-se entre si. O ritual, o transe e a tensão são crescentes, recheados de clímax e anti-climax, exaltação e calmaria, berros e sussurros.

Sugado para dentro do abismo e compelido a participar da experiência, tem-se a gostosa sensação de nunca saber o que virá a seguir. O que sai dos amplificadores é uma sonoridade riquíssima e imprevisível, forjada no rock mais vigoroso e visceral, banhada no swing e na melodia do funk e costurada com o tom imperativo do punk. De forma súbita, todo o resto ficara pálido e sem vida, não só as outras bandas como boa parte da música pop atual.

O baixo sincopado de Allen, mantendo um tênue equilíbrio, como que puxando os demais de volta ao eixo, encontra a retaguarda perfeita na bateria robusta e cerebral de Burnham. A guitarra de Gill é gorda e sinuosa, cuspindo riffs fortes e vibrações intestinais, como que ressoando a performance única de Jon King. O vocalista, a propósito, age como se o papel de frontman fosse o último ato de sua existência, mas não monopoliza os holofotes. Todos participam, cantam, destroem, interagem.

Mezzo personagem, mezzo ele mesmo, King é a vazão de toda a atmosfera do grupo. Canta com raiva, provoca a platéia, dança, bate, anda de um lado para o outro, literalmente, e só vendo para crer, como um primata enlouquecido a defender seu território. Seus atos instintivos e sem amarras, além da voz grave e inquisitiva, parecem querer transmitir numa única noite todos os 20 anos que a banda ficou praticamente parada.

A música, altamente fragmentada, pode assumir diversas formas, ir para onde quiser, está totalmente entregue nas mãos de seus criadores: desde o caos musicado do discurso até letras que versam sobre o cotidiano, não sem belas ironias e paradoxos. Eles flertam com tudo aquilo que lhes interessa, compõe o seu mosaico – seja musical, lírico ou performático - com inteligência e completude, despejando hinos como “To Hell With Poverty”, “Damaged Goods” e “I Love A Man In A Uniform”.

E então você percebe que é preciso que quatro senhores beirando os 50 anos, voltando de duas décadas no limbo, te mostre novamente todas as possibilidades da música, da idéia por trás da arte, do prazer, do concerto. O mainstream passou por várias modas desde que o Gang Of Four saiu de cena. Quase nenhuma delas atemporal. Estamos na era mais diversificada, e segmentada, da indústria, ao mesmo tempo que em meio a uma crise crescente prestes a ruir.

É ridículo falar em salvação, seja da indústria fonográfica, seja da música mainstream. E é duplamente ridículo falar em “vanguarda artística”. O Gang Of Four não é a resposta, ou o ícone, de nada disso. Ao vê-los, ali, ao vivo, tem-se o estranho sentimento de fazer parte de algum acontecimento histórico singular.

Bobagem. Estamos apenas tirando o lodo de nossas mentes e reaprendendo a força, imensurável, que uma manifestação artística autêntica pode ter.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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