Resenha - Hot Tuna (Greenwich Village, Nova York, 08/01/2001)
Por Marcio Ribeiro
Postado em 08 de janeiro de 2001
Hot Tuna: Atum Quente. Alguém lembra quem são? Pois bem, o guitarrista e baixista do Jefferson Airplane, respectivamente Jorma Kaukonen e Jack Casady resolvem explorar sozinhos sua paixão pelo blues. Passam a abrir os shows do J. Airplane a partir de 1968 e depois se lançam aos seus próprios vôos. Durante a metade final da década de 70 já estavam com uma banda completa, totalmente elétricos. Já nos anos 90, novamente de bem com e fazendo parte da formação do Jefferson Starship, a dupla passou um período voltando a fazer um set entre os sets da banda "mãe". Agora, pela primeira vez em muito, muito tempo, a dupla volta a excursionar pelos Estados Unidos, novamente se apresentando de forma acústica.
Ao entrar no palco, a imagem dos dois não sugere serem os músicos brilhantes que são. Jack Casady, de casaco preto que não tirou em momento algum, calça e sapatos pretos, com seus óculos de aros de roda, lembra um professor de física ou outra matéria "casca grossa" dessas. Já portando seu baixo Epiphone cor dourada, e um leve sorriso na face, já se enxerga o músico que mora lá dentro dele. Jorma Kaukonen também todo de preto, camiseta, calça, e botas (de cowboy); usa uma tatuagem no antebraço esquerdo e um dente dourado, bem no pivô superior. Agora de cabelos raspados em máquina 1, leve barba e bigode, musculoso feito marombeiro, mais parece o estereótipo do motoqueiro mal encarado, do que um dos melhores músicos que já empunhou um violão.
Muito humildemente agradecem a recepção de um público que praticamente lota a casa. Sem mais delongas, sentam cada um em sua cadeira e começam logo a tocar. Se você conhece o disco de estréia da dupla, intitulado simplesmente "Hot Tuna", digo-lhes que o timbre tanto do violão Gibson de Jorma, como do baixo de Casady soaram nesta noite exatamente igual ao disco. Jorma começa com "How Long Blues" deste álbum, e logo o ambiente da casa era só sorrisos, bem relaxante e amistoso. O show todo foi como uma seresta caseira e a atitude dos estrelas foi da mais simplória e simpática possível, como amigos de fora da cidade que estão felizes por continuar a serem bem recebidos.
Foram quase duas horas de show, onde a dupla passou basicamente pelo repertório lançado, com uma só música nova, "Bad Operation" que, repleta de trocadilhos e insinuações, gera algumas risadas. Entre outras executadas estão "Winin' Boy Blues", "Parchman Farm", "Don't Leave Me There", "Know Your Rider", "Genesis" e "Death Don't Have No Mercy". Ao terminar, foram aplaudidos de pé pela casa toda; o duo retornando em seguida para um bis onde executaram "Manns Fate" eximiamente bem. Jorma é realmente um talento no violão. Utilizando três palhetas de banjo nos dedos, tem enorme agilidade e um bom gosto ao exercitá-la. Jack também, embora não fale muito, só sorri e, quando dado à chance para aparecer um pouco mais, o faz não com agilidade, mas com técnica, tirando sons diferentes, tocando por vezes com a unha.
Hot Tuna foi uma apresentação extraordinária em técnica e simplicidade. No mais, posso lhe dizer apenas que a dupla de sexagenários continua totalmente em forma e que merecem ser vistos, não pelo o que já foram, mas pelo o que ainda são capazes de executar. Atum quente foi o melhor remédio para uma segunda-feira chuvosa, com neve caindo no final da noite.
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