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Por Rodrigo Contrera
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Eu sempre tive um vazio em mim. Ele dizia respeito ao heavy metal, ao thrash metal e também à forma como eu me comportava nos shows, e como passei a me comportar depois na vida. Notem, sou um tiozinho de 49 anos, então haja histórias para contar.

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Meu vazio dizia respeito a um momento em particular de minha adolescência, quando gostava do Iron Maiden, passei a gostar do Metallica, mas de repente tudo aquilo parecia não fazer mais sentido em mim. Eu comprara o ... and Justice for all, e deixara de gostar de tudo o que viera depois. Por outro lado, ouço o Metallica hoje, e não me reconheço.

Passaram-se muitos anos, e fui conhecendo outros gêneros musicais, sendo que o Iron Maiden ficou em mim, sim, mas ficou quase como um gosto de garoto. Por outro lado, minha vivência e meu comportamento destoavam das músicas que eu ouvia. Eu era considerado muito tranqueira para os lugares onde trabalhei, por outro lado tinha um comportamento excessivamente agressivo, por vezes, e ninguém sabia bem o que acontecia. Fiz uma oficina sobre Hip Hop e vi algo ali que tinha a ver comigo. Mas era pouco. No geral, eu achava os caras do hip hop, nestes meados da segunda década do ano 2000, meio estranhos para mim. Falavam de mensagens que não cabiam em mim.

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Passei a colaborar com o Whiplash e a me defrontar com as impressões que aquelas gravações anteriores haviam causado em mim. E há poucos dias peguei um documentário no Youtube (Get Thrashed: The Story of Thrash) e resolvi encarar sua quase uma hora e meia. E pimba, fui descobrindo coisas, me identificando e percebendo o quanto certas pontes haviam sendo deixadas para serem cobertas somente agora, em meados de 2017.

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Notem, eu já havia assistido a documentários sobre o Heavy Metal anteriormente (que ainda não resenhei). Cheguei até a tirar fotos deles com minhas câmeras para entender o que, neles, tinha tanto a ver comigo. Alguns desses documentários me esclareceram bastante, mas parecia faltar alguma coisa. Li a biografia do Lemmy antes de ser traduzida, e vi nele algo que contribuía para fechar os pontos. Mas algo permanecia aberto. Viajei ao Rio de Janeiro para ver uma exposição sobre a estética punk, e havia também ali algo que me atraía. Mas não era suficiente.

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Esse vazio foi agora bastante coberto pelo documentário que acabo de terminar de assistir. Porque eu sou um fruto de uma época, e porque meu comportamento não foi apenas o de um CDF numa faculdade de primeira linha. Eu saía para os shows com canivetes escondidos, e pronto para detonar (os seguranças nem sentiam os canivetes, em meio aos lenços com os quais eu os encobria). Eu puxava briga com muitos ao mesmo tempo, e só não fui massacrado sabe-se lá por quê. Eu falava de coisas complexas na base do chega para lá (o que era bastante atrante para umas garotas), mas não sabia do que falava.

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O Thrash teve origens bastante estranhas, saindo das periferias de várias cidades, em todos os Estados desUnidos, e foi aos poucos adquirindo várias formas, é o que mostra o documentário. Foi-se identificando com visuais e mensagens diversos, e foi se transmutando de tal forma que meio que foi perdendo a forma. Claro, algumas bandas meio que saíram do gênero, assumindo posturas mais altaneiras (para alguns), e meio que traindo suas origens (segundo outros). Mas outros continuaram, e o gênero foi se transformando. Os rapazes malucos que adoravam os pits foram se tornando homens feitos, e com isso tudo foi evoluindo. O Thrash foi aos poucos se tornando algo que, para muitos, chega quase a ser passado.

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Nessa história toda, desses caras, fui me sentindo ainda mais à vontade que com o heavy metal tradicional, preciso admitir. Pois fui percebendo que aquelas fotos que, naqueles documentários anteriores, faziam a graça que me fazia rir tinha mais a ver com uma certa postura Thrash do que com o heavy metal que foi se tornando isso que vemos hoje. Fui percebendo que eu também tinha posturas absurdas que remetiam ao absurdo do Thrash. Notem que eu ia assistir aos shows gravados do Iron Maiden armado e com casado de couro. Notem que assisti o show do Metallica no Ginásio do Ibirapuera vendo o pau comer e percebendo algo sobre a vida que iria ajudar a sobreviver depois, quando virei repórter de rua.

Notem também que conheci o Overkill meio por acaso, e que este artigo iria ser sobre ele, quando se tornou algo até maior. Por outro lado, percebo agora, ao ouvir as músicas do thrash que tanto fizeram sucesso outrora, que havia nelas algo em mim que permaneceu - embora não as conhecesse. Pois eu tenho uma postura política bastante similar àquilo que o Megadeth entroniza como válido. Tenho uma postura na rua bastante crua como a de um Suicidal Tendencies. E gosto da levada meio pop de um hardcore entremeado com o thrash. Ou seja, eu era thrash e não sabia.

O documentário é bastante longo, mas possui uma pegada não tão profissional que me agrada. Não digo que ele não seja profissional. Mas digo que suas imagens são sujas, como queremos, e nos fazem rememorar momentos em que as imagens eram, quase todas, assim mesmo, sujas. Ou seja, o documentário não tenta domesticar o assunto. Não se coloca acima dele. É um documentário de quem ama o que faz - fazer documentário sobre algo que se preza. Gosto especialmente dos depoimentos de Blitz, do Overkill, tão sucintos, engraçados e bem comedidos.

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Um belo documento, esse documentário. Algo que me fez viajar no tempo, e que ainda me faz pensar naquilo em que me tornei. Sabem que sou um cara que, em qualquer lugar, parece que puxa o conflito. É como se eu não tivesse travas, como se falasse como um garoto, quando sou um sujeito bastante alquebrado. Pois é. Acabo de descobrir que sou bastante mais thrash do que imaginava. Então, à pesquisa!

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

Mais matérias de Rodrigo Contrera no Whiplash.Net.