Chris Cornell: o grunge acabou faz tempo, mas ainda deixa marcas
Por João Felipe Gremski
Fonte: Pearl Jam to Fly
Postado em 22 de maio de 2017
O movimento grunge sempre teve definições muito difusas, não temos uma fórmula para explicar o que é (ou era) uma banda grunge. As letras? O estilo de se vestir? Os riffs mais sujos de guitarra? Uma mistura disso tudo? Bom, se formos pensar nisso, vários movimentos do rock foram parecidos. Pensem nas diversas ramificações do Punk, por exemplo.
O grunge nasceu como uma variante justamente desse movimento punk anos 80, e misturado com uma dose bem forte de heavy metal. Como todo estilo musical, ele "cansa" uma hora, e as pessoas – fãs e músicos – procuram se reinventar; dessa forma, o estilo vai, aos poucos, se transformando, até que seja um estilo tão diferente a ponto de batizarem ele com outro nome.
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Pois bem, o "problema" do grunge é que ele pegou tudo aquilo que estilos musicais como o punk e o heavy metal tinham (mas principalmente o punk): melancolia, angústia e revolta, e multiplicou tudo por 10, 100… A geração que era adolescente do final dos anos 80 pegou tudo aquilo que ouvia, juntou com a apatia do mundo em que viviam e fizeram a música mais visceral possível. Pensem na infância do Kurt Cobain, nos problemas familiares do Eddie. E agora juntem isso com o entorno da cena grunge, os questionamentos da adolescência…
Os poucos anos em que essas bandas – Green River, Mudhoney, Soundgarden, etc – estiveram imersos no movimento grunge da cena de Seattle foram suficientes para se criar uma espécie de marca, uma cicatriz que parecia adormecida. Aí veio o sucesso de bandas como o Nirvana e o Pearl Jam, e a coisa toda deslanchou para outros tipos de problemas como a fama, a exposição excessiva na mídia, e outras questões que não irei me aprofundar aqui.
O ponto que quero chegar é o seguinte: o grunge – com a sua atitude sombria, barulhenta e melancólica – plantou diversas sementes em pessoas como o Layne Staley (Alice In Chains, Kurt Cobain (Nirvana), Andrew Wood (Mother Love Bone), Scott Weiland (Stone Temple Pilots), Chris Cornell (Soudgarden) e Eddie Vedder (Pearl Jam). Sementes que cresceram e mexeram muito com a cabeça daqueles jovens ainda imaturos e revoltados, mas de enorme talento artístico. E se juntarmos esse lado mais sombrio do grunge com o uso de drogas, por exemplo, temos uma fórmula fadada ao fracasso. Em pessoas como o Layne Staley, Andrew Wood, Scott Weiland e o Kurt Cobain, elas foram decisivas para acabar com a vida deles. E não falo só por causa da overdose, mas pelo uso pesado de drogas e por muito anos seguidos.
No caso do Chris Cornell, morto no último dia 17, ainda está tudo incerto. É provável que ele tenha se matado, e falam muito que ele estava depressivo e tomava remédios pesados para tentar melhorar. A coisa saiu fora do controle depois do show em Detroit e… Enfim, o resto vocês já sabem.
Na minha opinião, o Chris Cornell foi um exemplo de como aquela semente plantado no passado – durante a sua juventude, o começo do Soundgarden, etc – ainda estava muito forte nele. O problema de lidar com o sucesso, a fama, e a personalidade mais sombria e melancólica que se casou perfeitamente com o movimento grunge ainda rondavam a cabeça dele. E essa marca deixada foi tão forte que contribuiu para matar um cara aparentemente tranquilo – não esperávamos nunca que isso fosse acontecer. Quando o Layne Staley se matou eu lembro de não ter ficado tão chocado. Ele sempre foi mais depressivo. Bastava ver o estilo de vida dele e principalmente as letras que escrevia.
Eddie Vedder, o único vocalista remanescente dentre as bandas mais conhecidas daquela época, sempre fala durante shows, em entrevistas, que não estaria vivo se não fosse pelos amigos da banda e pela sua família. Ele já teve uma infância complicada, e ainda foi absorvido pela cena grunge da época, com todas essas coisas de que falei anteriormente pairando sobre a cabeça dele. E aí veio o sucesso, de uma hora para outra, e ele quase sucumbiu. Arrisco dizer que lá pelos anos de 1993… 1994… Havia uma boa chance dele ter se matado, ou ter virado um músico dependente de drogas, ou alcoólatra. Ele foi muito forte naquela época e hoje parece estar mais tranquilo – soube lidar com a fama e soube lidar com a carreia musical. De qualquer forma, esse passado ainda está nele. E esperamos que, caso algo sério aconteça na vida dele (por exemplo a morte de um grande amigo), ele não recorra ao espírito daquela época e tome decisões extremas.
Não quero dizer aqui que o grunge foi algo ruim, ou que aquela época só trouxe coisas negativas. O grunge foi algo que aconteceu naturalmente, fruto do espírito de uma época mais complicada e que oferecia àqueles adolescentes oportunidades interessantes: fazer a sua arte, escrever o que sentiam, compor o que queriam, etc, mas que também trouxe alguns efeitos colaterais fortes. O Chris sofria com alguns deles e acredito que isso tenha contribuído não para o suicídio diretamente, mas com um quadro mais depressivo que, aparentemente, já vinha de muito anos.
Não é coincidência que vários vocalistas daquela época (que estavam sempre no centro de tudo e tinham mais atenção) tiraram a própria vida. Quanto maior o tamanho de uma pessoa – e todos eles eram gigantes, gênios, cada um ao seu jeito – maior também o tombo, e eles não souberam lidar com tanta coisa. Alguém, ou algo, é culpado? Não. É apenas o mundo em que vivemos, a aleatoriedade das coisas que, às vezes, vai levando tudo para o caminho errado.
Chris, você vai fazer muita falta.
Morte de Chris Cornell
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