Os dois nomes citados por Cornell ao assumir que odiava rockstars arrogantes ou inacessíveis
Por Bruce William
Postado em 09 de março de 2026
Chris Cornell nunca pareceu muito interessado em bancar o "porta-voz" de cena nenhuma. Mesmo quando o som de Seattle virou vitrine mundial, ele continuou com aquele jeito de escrever mais por imagens e sensações do que por discurso, e com pouca paciência pra pose, especialmente a pose de estrela que se leva a sério demais.
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Em entrevistas da época, ele falava com naturalidade sobre como o rock deveria ter um pé no chão, mesmo quando a música ficava grande. E era justamente por isso que, às vezes, ele soltava umas farpas que não tinham nada de fofoca: eram mais um incômodo com um certo tipo de postura pública.
Num desses comentários, Cornell colocou o dedo numa categoria que o irritava: o "rockstar arrogante" ou "artístico demais", daqueles que viram quase intocáveis dentro da indústria. E citou dois exemplos na lata: "Eu odeio rockstars arrogantes ou 'artísticos' demais. Muita gente no negócio da música vira tão idolatrada; os David Byrnes e os Bonos. O Prince é idolatrado pra caramba também; mais do que o vocalista do Poison, ou o Mötley Crüe, seja lá quem for o vocalista deles."
A fala é curiosa por dois motivos. Primeiro porque ele não está falando de "talento" ou de "melhor cantor": é uma crítica à aura, ao pedestal, à forma como certos nomes passam a ser tratados como gênios acima do bem e do mal. Segundo porque ele junta duas figuras que muita gente associa a prestígio artístico - Bono e David Byrne - com uma comparação que puxa o debate de volta pra realidade do rock como entretenimento também, sem hierarquia de "classe".
No caso do Bono, dá pra entender por que Cornell escolheu esse alvo: o U2 sempre teve essa coisa de "mensagem", de postura pública, de falar de fé, política e significado. Pra alguém com alergia a sermão, isso pode soar como gente demais no microfone e música de menos no chão.
Já David Byrne entra por outra via: o "artista" que vai ficando cada vez mais idiossincrático, mais conceito, mais personagem, até o público confundir onde termina a música e começa a performance. Cornell parecia enxergar aí uma linha fácil de cruzar: o cara deixa de ser um músico num palco e vira uma entidade cultural.
Nada disso diminui o que cada um fez. Só mostra o que irritava Cornell: quando a idolatria vira blindagem e o rock vira um lugar onde alguns podem falar qualquer coisa sem serem questionados - e outros ficam sendo tratados como "menores" por não terem o mesmo verniz.
A fala talvez diga mais sobre o próprio Cornell do que sobre os citados. Ele podia subir num palco grande, cantar como quem arranca o teto e ainda assim desconfiar de quem transforma isso em altar. E, vindo dele, a crítica não parece pose de "purista": parece só uma aversão bem humana a gente que acredita demais no próprio mito.
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